Este é um artigo curioso, porque parece tentar resolver, com base nos princípios teológicos e filosóficos que São Tomás tinha, uma questão que, hoje, nos parece muito mais uma questão científica do que filosófica ou teológica. A questão original perguntava se era concebível imaginar mais mundos do que este em que habitamos. De fato, sabemos, hoje, que há outros planetas, alguns bem semelhantes ao nosso, alguns inclusive já visitados por missões espaciais. Mas a ideia de “mundo” é bem diferente da ideia de um planeta, como um corpo celeste árido e desabitado.
Trata-se da ideia de um cosmos, de um grande todo que faz sentido na sua completude; a ideia de mundo, ademais, remete a cultura, a história, a inteligência, a espaço de vida social, e portanto a mera existência de outros planetas não significa a existência de outros “mundos”. A nossa ciência, neste sentido, nunca descobriu “outros mundos” além do nosso. Nem outros universos além do nosso.
Assim, a pergunta volta a ter sentido para nós: seria concebível admitir que Deus tivesse criado não apenas outros mundos, com sua história, seu palco existencial, mas tivesse criado mesmo outros universos, paralelos ou sucessivos, dos quais o nosso fosse apenas mais um? Seria concebível, ao menos em tese, pensar em multiversos sucedendo-se num processo de expansão e contração infinito, ou existindo em paralelos em dimensões espácio-temporais completamente estanques umas às outras, de tal modo que se tornassem incomunicáveis entre si? A teoria parece inconcebível, porque ela pressupõe a existência de algo como um “lado de fora” do universo, ou um “antes e depois” do tempo que vivemos, e isto é contraditório, inclusive, com o que conhecemos do nosso universo, pela física contemporânea. Espaço e tempo não são uma espécie de “recipiente absoluto” no qual o universo está, mas são parte da estrutura do próprio universo, e portanto não são pensáveis para além do próprio universo.
Vê-se, portanto, que, apesar da mudança do paradigma científico, o artigo, como pergunta, não se tornou obsoleto, muito pelo contrário.
Mas a hipótese controvertida, admitida como verdadeira para provocar o debate, é exatamente a de que haveria outros cosmos, outros conjuntos criados, vários na verdade, além deste que conhecemos. São três os argumentos objetores, e alguns nos parecerão muito anacrônicos. Por isto tomaremos a liberdade de relê-los com os olhos de hoje, como Tomás relia, também ele, os autores antigos com os olhos de seu tempo.
O primeiro argumento tenta trazer Santo Agostinho como fundamento. Santo Agostinho dizia que não podemos nunca imaginar que Deus faça algo sem razão. Ora, a razão que existe para que ele tenha criado um universo existe para que ele crie muitos, diz o argumento, pois o poder de Deus não é limitado a este mundo em que vivemos, mas é infinito. Assim, conclui o argumento, Deus criou vários universos.
O segundo argumento afirma que o universo é ótimo. Deus o fez maravilhosamente. Mas é claro que o melhor é algo que deve existir sempre mais – muitas coisas boas é algo melhor do que uma só. Assim, é melhor que haja muitos universos, e, se Deus faz sempre o melhor, parece claro que ele criou mais mundos, mais universos mesmo, conclui o argumento.
O terceiro argumento lembra que as coisas materiais podem multiplicar-se, sendo da mesma espécie. Assim, há o ser humano, como forma abstrata, como conceito universal, mas há muitos seres humanos, individualmente falando, cada um com seu próprio corpo, mas todos expressão da mesma forma universal de ser humano. Ora, diz o argumento, o universo é material, logo nada impediria que houvesse vários universos, cada um com seu próprio corpo, como expressão multiplicada do conceito formal e abstrato de universo, conclui o argumento. Disso ele conclui que há vários universos, vários conjuntos completos de criação.
O argumento sed contra cita o Evangelho de João, que, no capítulo 1, versículo 10, diz: “o mundo foi feito por ele”, assim no singular. Há evidência revelada para afirmar, portanto, que a criação apresenta-se como um universo, no qual se desenrola a nossa história universal, e não há outro conjunto completo e ordenado de criaturas além deste.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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