No artigo anterior, nós discutimos o problema importantíssimo da diversidade na criação. E vimos de que maneira Tomás legitima a diversidade, mostrando que ela decorre da própria vontade divina. A diversidade, diz Tomás, decorre de que a natureza limitada de cada criatura é incapaz de esgotar a infinita bondade da natureza infinita de Deus. Assim, o universo é composto de uma diversidade, uma multiplicidade de coisas, cada uma revelando um pequeno aspecto da bondade infinita de Deus. E isto é bom, e é algo diretamente querido por Deus.

O artigo que vamos estudar, agora, trata de uma questão um pouco diferente: estabelecida a legitimidade da diversidade, como resolveremos a questão da justiça? Se, de fato, a justiça consiste em dar a cada um aquilo que é seu, na medida que é seu, a diversidade implica reconhecer que a medida da bondade entre as criaturas é variada, e esta variação é legítima, querida por Deus. Portanto, a questão da desigualdade se impõe, e merece exame: as coisas apresentam diversidade. Mas em que medida elas são desiguais, vale dizer, em que medida é legítimo reconhecer diversos graus de bondade, de perfeição, dentre elas? Questão importantíssima, tanto para restabelecer um justo relacionamento entre as diversas criaturas, por um lado, quanto para estabelecer um justo relacionamento entre as criaturas da mesma espécie, ou seja, não somente do ponto de vista ecológico, mas também do ponto de vista social. Como se apresenta a desigualdade nos planos de Deus, e como esta desigualdade deve pautar o relacionamento do ser humano com os outros seres humanos, por um lado, e com as outras coisas todas do universo, por outro. Será necessário estabelecer critérios para que evitemos o igualitarismo que equipara a bondade dos minerais, das plantas, dos animais e dos seres humanos, como se tudo devesse ser visto como essencialmente uniforme, e por outro lado para evitar legitimar desigualdades sociais e dominações ambientais, lastreando-as numa suposta vontade de Deus que não tem, na verdade, esta dimensão de legitimadora de dominações injustas. Artigo muito importante, portanto.

A hipótese controvertida, aqui, é a de que a desigualdade das coisas não está radicada em Deus. Toda desigualdade, no universo, seria, no fundo, injusta, e com uma origem criatural. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento é a de nivelar o igualitarismo por cima, a partir da perfeição de Deus. Se Deus é perfeito, diz o argumento, tudo o que ele faz é simplesmente ótimo, e dotado do máximo de bondade. Ora, entre as coisas ótimas e dotadas do máximo de bondade, não pode haver uma melhor do que a outra. Logo, o argumento conclui que todas as criaturas são perfeitamente iguais em perfeição, e a desigualdade não tem sua raiz em Deus.

O segundo argumento traz uma citação de Aristóteles: a igualdade é efeito da unidade. Ora, mesmo admitindo que as coisas sejam diversas, o argumento diz que elas não podem ser consideradas como diferentes em perfeição e dignidade. Assim, o argumento conclui que Deus fez todas as coisas iguais.

Por fim, o terceiro argumento traz exatamente o argumento da justiça. A justiça, lembra o argumento, consiste justamente em tratar igualmente os iguais, mas tratar desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade. Deus é justo por definição, diz o argumento. Ora, não haveria, pois, nenhum motivo prévio para que ele fizesse as coisas desiguais, de tal modo que desse a uma mais perfeição, ou mais dignidade, ou mais bondade, que a outra. A justiça infinita de Deus, prossegue o argumento, exigiria que tudo fosse criado absolutamente igual, para que recebesse tudo de Deus também de modo igual.

O argumento sed contra cita a Bíblia, especificamente o livro de Eclesiástico, 33, 7-8: “Por que um dia é mais importante do que o outro, se a luz de cada dia do ano vem sempre do sol? Eles foram separados no pensamento do Senhor”. Assim, conclui o argumento, também a desigualdade na criação vem de Deus.

Postos os argumentos a favor e contra, São Tomás passa a apresentar sua resposta sintetizadora.

Sua resposta começa por Orígenes, o velho escritor eclesiástico de Alexandria do século III DC, que defendia que a criação começa quando Deus faz surgir as almas, ou seja, os espíritos dotados de inteligência, rigorosamente iguais. Estas almas, então, no uso do seu livre arbítrio, foram escolhendo contra ou a favor de Deus. A sua teoria, diz Tomás, quer excluir a dualidade no princípio da criação, ou seja, aquele pensamento que defendia que havia um princípio bom que criou as coisas boas e um princípio mau que criou as coisas más e perversas. Quer excluir, também, a imputação de qualquer injustiça a Deus.

Orígenes defendia que as boas almas, que optaram livremente por Deus, tornaram-se anjos das mais diversas ordens, conforme a diversidade de méritos entre elas. As que escolheram contra Deus foram “rebaixadas” ao mundo material, dando origem às coisas corporais em geral, desde as minerais às vegetais e animais, bem como os seres humanos. Todas as coisas corporais, pois, para Orígenes, adquirem sua diversidade da diversidade de pecado daquelas almas originais.

Assim, prossegue Tomás, para Orígenes a diversidade das coisas não se explica pela bondade de Deus, mas como punição por algum pecado das primeiras almas. Isto significaria que as coisas, especialmente as coisas materiais, não são intrinsecamente boas, mas intrinsecamente ruins, nos sentido de que existem como pena a pecados espirituais prévios. Uma pena é sempre um agravo, e portanto algo intrinsecamente pesado, ruim, punitivo. Mas isto vai contra a palavra da Bíblia, que em Gn 1 repete, como refrão, na medida que Deus vai criando as coisas, que ele viu que elas eram “boas”, ou “muito boas”.

Seria insensato, diria mais tarde Santo Agostinho, imaginar que o sol, por exemplo, não foi criado por Deus para nos conceder a bondade da luz e do calor, mas porque uma alma primordial pecou. Neste caso, o número de sóis não seria estabelecido em razão da gravitação universal ou do equilíbrio do universo e dos planetas, mas pelo número de pecadores a castigar: um sol ou cem, conforme fosse necessário punir um ou cem. Isto seria inadmissível, como explicação para a própria existência das coisas. O sentido delas restaria completamente distorcido.

Por isto, diz Tomás, é mais uma vez na sabedoria divina que encontramos a razão da desigualdade nas coisas.

Antes de falar da própria desigualdade, São Tomás propõe uma verdadeira teoria da diversidade. A desigualdade fundamenta-se na distinção, na diversidade das coisas, e a diversidade existe de duas maneiras: em razão da forma, quer dizer, da própria constituição intrínseca das coisas, e em razão da matéria, quer dizer, há coisas que, embora compartilhando a mesma forma, ou seja, a mesma estrutura de inteligibilidade interna, multiplicam-se porque formam múltiplos indivíduos, cada um com seu próprio corpo. Nos seres vivos, trata-se dos seres que têm a mesma espécie, mas multiplicam-se em inúmeros indivíduos. A distinção material, diz Tomás, se explica pela formal, e ele vai explicar exatamente como e por que.

As coisas que são inteiramente imateriais, como os conceitos matemáticos e os anjos, não estão sujeitos à degradação ou à destruição. O número dois será número dois por toda a eternidade, e um anjo, não tendo corpo, jamais experimentará a morte, vale dizer, aquele fenômeno que se descreve como “a separação entre o corpo e a alma”. Não tendo corpo, eles não podem morrer. Assim, nas coisas imateriais, não é necessário nem mesmo possível haver mais de um exemplar de cada espécie. Não é necessário que haja vários “números dois” por aí, ou filhotinhos de Arcanjo Miguel. Cada número é o único de sua espécie, como cada anjo é o único de sua espécie.

Mas, quanto às coisas materiais, os exemplares de cada espécie podem multiplicar-se, porque um tem este corpo e outro tem aquele. Eles podem multiplicar-se porque o corpo, a respectiva matéria que assinala a existência concreta de cada um deles, os individualiza com relação e a todos os outros seres da mesma espécie. Por outro lado, uma vez que os seres materiais estão sujeitos à aniquilação (que, nos seres vivos, é a morte), esta multiplicação de espécimes impede a extinção da forma, da própria espécie, pela morte de seus exemplares. Garante que a espécie sobreviva em outro exemplar, cada vez que algum morre. Assim, diz Tomás, a distinção material entre os espécimes da mesma espécie é menos importante, menos profunda, que a distinção entre espécies de coisas diferentes. Entre os diversos espécimes da mesma espécie há uma perfeita igualdade formal, estrutural, e a diversidade é acidental. Mas entre seres de espécies distintas há uma diversidade formal, quer dizer, uma diferença substancial no sentido mais profundo.

Assim, diz Tomás, os seres materiais da mesma espécie, tendo a mesma estrutura formal, são diversos, mas não são desiguais. Está aí a razão da igualdade fundamental entre todos os seres humanos: a diversidade entre nós é sempre acidental, e não pode fundamentar uma desigualdade.

Mas entre seres de espécies diferentes não há injustiça na desigualdade. Uma é a dignidade, digamos, de um mineral, outra a de um vegetal, já capaz de movimentos intrinsecamente ordenados; outra, maior ainda, é a dignidade de um animal, e outra ainda é a do ser inteligente que é o ser humano. Esta hierarquia de dignidades não é uma hierarquia de dominação, no entanto, mas uma hierarquia de cuidado. Porque a perfeição, concedida por Deus em grau diverso, implica a responsabilidade concedida também em grau diverso: o ser humano, criatura material inteligente, é mais perfeito para cuidar da criação, não para dominá-la e destruí-la, porque, sendo ela também criação, também querida por Deus que a concebeu com a bondade intrínseca, deve ser amada pelo ser humano como Deus as quis e amou. A diversidade causa a desigualdade entre seres formalmente distintos, dotados de graus de perfeição distinta, mas é uma desigualdade de serviço, não de poder e dominação.

Havendo estabelecido assim seus critérios, São Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento diz que, sendo Deus perfeito, ele deveria fazer igualmente ótimas todas as coisas que faz, e por isto não haveria razão para que houvesse desigualdades na criação. São Tomás responde que não se pode fazer uma leitura atomista, individualista, da relação entre a perfeição de Deus e a bondade da criação. De fato, a criação, no seu todo, é ótima, e cada coisa criada é ótima, mas ótima em sua diversidade, que se proporciona ao todo, e portanto comporta graus de perfeição. Assim, diz ele, fazendo uma analogia com o corpo dos animais, os olhos são ótimos para ver, e mais perfeitos do que os pés em complexidade. Mas, na proporção para o todo, seria ruim para o corpo do animal se todos os órgãos fossem igualmente ótimos para enxergar, mas péssimos para caminhar. Assim, diz Tomás, no capítulo 1 do Livro do Gênesis, Deus, ao contemplar as coisas que cria, declara que elas são boas; mas, ao contemplar o conjunto da sua criação, declara que ele é “muito bom”.

A segunda objeção declara que, se a causa é una, o efeito também será, logo a desigualdade não poderia ter origem em Deus. São Tomás nos dá uma resposta a partir de Santo Agostinho; ele afirma que, de fato, do que é um deve proceder, em primeiro lugar, a igualdade. De certa forma, isto faz constatar que a unidade é superior à diversidade. E é assim na Trindade. Usando a noção de apropriação, que já debatemos algumas questões atrás, São Tomás vai afirmar que a unidade divina é apropriada ao Pai; dele procede a igualdade, que é apropriada ao Filho. O Pai é única origem sem origem. O Filho é perfeita identidade, e por isto dele se diz que é, antes de mais nada, igual ao Pai. Mas à criação convém a desigualdade, porque é, antes de mais nada, aquilo que não é Deus! Mas, ressalva São Tomás, mesmo a criação, como conjunto cósmico ordenado e harmônico, tem a unidade como característica – a unidade de proporção, quer dizer, nela todas as diferenças estão ordenadas ao bem do todo, não à vantagem para este ou aquele. É uma lição teológica com inegáveis repercussões sócio-políticas.

Por fim, o último argumento diz que seria injusto que o próprio Deus criasse desigualdades entre as criaturas. Foi esta razão, diz São Tomás, que levou Orígenes a propor sua visão do mundo material como “aprisionamento de almas culpadas”. Mas este argumento confunde a desigualdade de méritos com a desigualdade estrutural que visa o bem do todo. Deus não poderia, e não o fez, criar as coisas com desigualdade de méritos que não fossem decorrentes do bom ou mau uso da liberdade. Mas as desigualdades que são próprias da perfeição do todo não estão relacionadas com o mérito: fazendo uma casa, diz Tomás, um é o material das paredes, outro o material do piso, outro ainda o do telhado, sem que isto tenha relação com o mérito das partes. Esta é uma confusão que alguns ramos do espiritismo contemporâneo, ou mesmo do gnosticismo em geral, ainda fazem.