No texto anterior, vimos a hipótese controvertida de que a multiplicidade de coisas não vem de Deus, ou seja, segundo esta hipótese, não há legitimidade na diversidade. A diversidade teria outra causa que não Deus; dele viria apenas a uniformidade, a igualdade, a unidade. Podemos ver, de logo, a importância deste debate, no sentido de estabelecer a aceitação do diverso, do múltiplo, do plúrimo, como parte legítima do plano criador de Deus. Vimos os argumentos objetores, no sentido de determinar que a uniformidade seria a única realidade conforme a vontade divina e, por fim, o argumento sed contra, que usou o Livro do Gênesis como prova de que a diversidade é parte da própria criação.
Começamos, no texto anterior, a avaliar a resposta sintetizadora de Tomás. Ele lembrou que há algumas correntes filosóficas que tentam explicar a diversidade das coisas existentes. A primeira corrente é a materialista dura, que explica a diversidade com base na matéria e no acaso. A combinação das partículas materiais e o acaso explicariam a diversidade das formas. Esta teoria tem muita força hoje, nas linhas materialistas e evolucionistas mais duras.
Uma outra linha, diz Tomás, explica a diversidade com base na ideia de que toda a potencialidade encontra-se em primeiro lugar na matéria, que seria o pressuposto para a atuação da inteligência. A inteligência, atuando na matéria, daria origem à diversidade das coisas, como um oleiro, trabalhando na massa de barro, confecciona vasos, estátuas, utensílios e ferramentas. Assim, a inteligência que diversifica, pensavam estes, seria ainda imanente, e não teria dado origem à matéria. Esta divindade artesã não seria, portanto, realmente criadora.
Uma terceira corrente defendia, com Avicena, que havia uma hierarquia de agentes criadores. Tendo dado origem à criação de modo indistinto, Deus delegaria aos Anjos a finalização da obra, e disto viria a distinção entre as coisas. É interessante ver a teoria de Avicena descrita por Tomás, porque a criação parte, para Avicena, da processão de um ser que é resultado da autocompreensão de Deus. Sendo muçulmano, ele pode ter intuído a processão das Pessoas, mas, sem a noção de Trindade, acabou criando um grande sistema gnóstico para explica a multiplicidade das coisas criadas. Uma série de inteligências derivadas, como causas segundas, vai moldando o universo de modo a gerar a multiplicidade de coisas. Deus não está, assim, diretamente implicado na diversidade das coisas, e fica com sua unidade totalmente resguardada. Mas, por outro lado, há um convite a diminuir a legitimidade da multiplicidade, e fomenta-se a ideia de que reduzir o mundo à uniformidade seria aproximá-lo de Deus. Seria, pois, um dever religioso impor a uniformidade. O que Tomás não aceita, porque vê, na diversidade, a expressão da imensidão da bondade de Deus.
De fato, diz Tomás, Deus é bondade infinita. E é por bondade que ele cria. Mas as coisas, as criaturas, são, por definição, limitadas em sua bondade. Se, por um lado, as Pessoas da Trindade compartilham plena e infinitamente a bondade essencial de Deus, as criaturas, por sua limitação, não o fazem. Cada criatura, no entanto, nos revela uma pequena faceta desta bondade divina. Deus cria para tornar sua bondade manifesta. Mas ela não poderia se esgotar na limitação de uma criatura. Assim, na diversidade de criaturas, cada criatura manifesta, nos seus limites criaturais, uma pequena parte, um pequeno aspecto da bondade infinita de Deus; e aquela faceta da bondade que falta a uma delas apresenta-se em outra. Assim, aquela bondade que existe em Deus de modo simples, indiviso e infinito, existe nas criaturas de modo múltiplo, limitado e dividido. Por isto, diz Tomás, o conjunto das criaturas representa muito mais perfeitamente a bondade divina do que cada uma delas tomada individualmente. Eis uma conclusão que São Francisco dividiria facilmente com São Tomás, e que é profundamente ecológica, social, holística (no sentido de kath holos, expressão grega que deu origem à palavra católico, ou seja, pelo todo) e muito diferente da visão atomística, iluminista e economicista que temos da criação hoje. A bondade radical da criação e a importância de uma visão cósmica são aqui ressaltados. Muito em linha, aliás, com a recente encíclica Laudato Si do Papa Francisco.
São Tomás vê, também, a diversidade, como expressão da própria sabedoria divina. De fato, o Verbo de Deus é a fonte radical da inteligibilidade da criação, e é ele quem expressa o equilíbrio do todo na pluralidade das coisas; é por isto, diz Tomás, que o Livro do Gênesis (que Tomás, como todos de sua época, atribuía a autoria ao próprio Moisés) logo no capítulo primeiro mostra o agir de Deus, separando, distinguindo as coisas pela sua palavra, pelo seu verbo: faça-se isto, faça-se aquilo, e as coisas se fazem, e Deus vê como são boas. Tudo está pleno da bondade divina e conforme a sua Sabedoria infinita. A diversidade, portanto, não é a introdução de um elemento de desordem, de casualidade ou de indevida intromissão de fatores alheios a Deus, mas expressão inteligente e sábia da sua bondade inesgotável, como, aliás, nos revela a própria Bíblia.
Colocados os critérios, São Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais, de modo a respondê-los especificamente.
O primeiro argumento diz que é natural que cada coisa, quando é causa eficiente de outra, gere, como efeito, algo perfeitamente semelhante a si mesmo, como se vê na reprodução dos seres vivos. Ora, se Deus é sumamente uno, deve gerar um efeito essencialmente uno, e a diversidade, portanto, conclui o argumento, não deve ter sido gerada por Deus.
São Tomás responde que esta analogia não é boa. Assim agem as coisas naturais, quando agem por força de sua natureza, como é o caso da reprodução. Deus, no entanto, age pela vontade, não por força de sua natureza. Deus não é uma grande força impessoal. Ele é o grande ser pessoal, ou melhor, pluripessoal. Assim, sendo pessoal, ele age por vontade, conforme a representação da sua inteligência. E a sua inteligência infinita é capaz de ser uma fonte inesgotável para guiar a sua vontade e levá-lo a agir. Assim, como o artista é um só e é capaz de produzir muitas obras de arte conforme a sua concepção e a sua vontade, Deus, sendo um só, é capaz de inteligir inúmeras coisas para manifestar-se criando. Por isto Deus não pode ser comparado aos seres naturais que causam por forma de sua natureza mesmo, e não de sua vontade livre guiada por sua sabedoria.
O segundo argumento lembra que, além de causa eficiente da criação, Deus é também sua causa exemplar. Ora, diz o argumento, se as coisas devem assemelhar-se à respectiva causa exemplar, como a estátua se assemelha à pessoa retratada, então a criação deveria ser supremamente una, para assemelhar-se a Deus. E a diversidade, diz o argumento, não caberia aí.
São Tomás vai lembrar os elementos trazidos na resposta sintetizadora, para apontar a solução. Se a coisa que representa o exemplado esgota em si a semelhança dele, então é apenas por força da matéria que ela pode se multiplicar, já que são idênticas na forma. Uma estátua de César é diferente da outra estátua de César porque esta é de madeira, enquanto aquela é de mármore; ou esta é de mármore de Carrara e gigantesca, enquanto aquela é de mármore branco e pequenina. Assim, diz ele, o Filho, que é perfeita imagem do Pai, não pode ser senão um somente; não haveria, nele, nenhum fator de multiplicação, já que ele não é material. No caso da criação, porém, já vimos que cada coisa criada manifesta uma pequena faceta da bondade infinita de Deus. Assim, as coisas podem multiplicar-se, inclusive quanto à forma, porque cada coisa exemplifica perfeitamente a ideia que Deus tem dela quando a concebeu, e manifesta, em sua particularidade, exatamente o exemplo que Deus tem em mente para ela.
O terceiro argumento é o da causa final. Se Deus é causa final de todas as coisas, deve aplicar0se a elas a regra de que aquilo que tende a um fim, é proporcionado a ele. Ora, se o fim de toda e qualquer criatura é a bondade divina, então todas deveriam guardar a mesma proporção a este fim, e, portanto, a diversidade não estaria incluída legitimamente na criação, conclui o argumento.
São Tomás faz uma analogia que, para ele e para os debates do seu tempo, pareceria muito óbvia, mas que, para nós, parece inusitada: a analogia entre a demonstração lógica e a causa final de alguma coisa.
De fato, diz Tomás, quando estamos lidando com as demonstrações científicas, no plano das ciências empíricas, pode haver muitos caminhos para chegar ao mesmo fim. Um geômetra pode calcular, com base em suas observações astronômicas, a rota da lua, enquanto um astrônomo pode demonstrar esta mesma rota, digamos, por uma série de fotografias do seu observatório. Um físico pode calcular o movimento de um membro do corpo humano através de medições e cálculos matemáticos, enquanto um médico pode averiguar esta forma de outra maneira, por exames clínicos, digamos. Na matemática, no entanto, há cálculos em que apenas uma maneira de demonstrar pode levar ao resultado pretendido; e, neste caso, a demonstração esgota o fim pretendido. Mas, no caso das criaturas e sua ordenação para Deus, esta ordenação não tem a natureza dessas demonstrações lógicas e matemáticas rigorosas e únicas, mas, uma vez que cada criatura manifesta uma faceta da bondade divina, ela o manifesta de modo diferente de todas as outras, e, por isto, pode haver legitimamente diversidade nestes meios, que são as criaturas, que apontam para um só e mesmo fim, que é Deus.
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