A questão do um e do múltiplo ocupam a especulação filosófica desde os tempos mais antigos. A busca do arché, quer dizer, do princípio último que subjaz a toda a realidade e, em última instância a explica, é a busca mais antiga. Mas a busca pelo princípio unificador também leva à necessidade de explicar a diversidade de coisas que há no universo. De fato, a ordem no cosmos é pressuposta para que haja filosofia, nesta busca. E a ordem unifica os muitos pela sua remissão ao princípio último. Unidade, pluralidade, ordem, finalidade, estes são os eixos que pautaram, desde muito, a caminhada filosófica. E que interpelam a teologia.

É a esta interpelação que São Tomás tenta responder nesta questão. Por que existem tantas coisas no universo? Qual a raiz da diversidade? O que as unifica? Qual a raiz da unidade? São muitas perguntas que serão enfrentadas em quatro artigos. Vamos ao primeiro deles.

O problema diretamente enfrentado aqui é a da diversidade das criaturas. Por que Deus, sendo sumamente um, criou tantas coisas diversas entre si? Em que sentido esta diversidade é legítima, e em que sentido ela é uma limitação? Seria ela um defeito do universo? Seria ela uma característica querida por Deus? Como se explica a diferença? Tema da maior atualidade, porque a questão da diversidade – diversidade de etnias, de culturas, de povos, de religiões – e sua legitimidade é um problema posto em todos os tempos, mas muito mais agudo em nosso tempo de globalização e de redes mundiais. Negar a legitimidade da distinção e da diversidade é uma grande tentação de todos os tempos e também de hoje. Mas a capacidade de eliminar o outro por considerar a diversidade ilegítima é muito maior hoje. É da maior importância, pois, fundamentar teologicamente a legitimidade dessa diversidade. E também os seus limites, porque não se trata de defender o relativismo. Neste sentido, absolutizar a diversidade em prejuízo da unidade é igualmente perigoso, igualmente totalitário e igualmente irracional. Não é preciso muito esforço para descobrir que a afirmação “tudo é relativo” é uma contradição em termos. Estabelece o absoluto para afirmar a relatividade. Eis porque revisitar Tomás é tão importante: nele encontramos o balanço adequado entre o uno e o múltiplo.

A hipótese controvertida, aqui, proposta para suscitar o debate, é a de que a diversidade das criaturas não vem de Deus. E são três os argumentos controvertidos, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro ressalta a unidade essencial de Deus. Deus é sumamente um, diz o argumento. Ora, sabemos que os efeitos seguem a natureza da causa. Logo, o efeito da ação de Deus, como causa eficiente, deve ser uno, também, e a diversidade não provém dele, conclui o argumento.

O segundo argumento também é um argumento de causalidade; aqui, trata-se da causalidade exemplar. Deus é a causa exemplar de tudo o que existe. Mas é claro, diz o argumento, que o exemplo existe para ser copiado, para servir de padrão. Mas Deus é uno; logo, a pluralidade não representa Deus, não o toma como exemplo. Logo, a diversidade não vem de Deus, conclui o argumento.

O terceiro argumento é o da causa final. Se Deus é a causa final de todas as coisas, isto significa que todas as coisas têm perfeita unidade pelo fim, ou seja, todos dirigem-se ao mesmo fim, que é a suprema bondade divina. Ora, as coisas devem ser perfeitamente proporcionadas ao fim a que se dirigem. Se todas têm um só fim, deveriam ter a mesma proporção, e portanto a diversidade não pode ser explicada pela causalidade final. E disso o argumento conclui que a diversidade não vem de Deus.

O argumento sed contra resgata as Escrituras, citando as diversas passagens do relato da criação de Gn 1, em que se diz que Deus “separou a luz das trevas” (1, 4), “separou as águas das águas” (1, 6), e assim por diante. Com isto, o argumento conclui que a separação entre as coisas, a sua distinção, tem sua legitimidade no próprio Deus.

São Tomás passa a dar a sua resposta sintetizadora. Ele localiza o problema como herdado da filosofia grega, e por isto faz uma pequena história deste problema, ou seja, da discussão a respeito da unidade, da diversidade e da ordem no desenvolvimento da filosofia.

Em primeiro lugar, ele cita aqueles que, como Demócrito, achavam que a matéria é a única causa da diversidade nas coisas. Demócrito, sendo atomista, acreditava que as partículas de matéria encontram-se ao acaso e dão origem à diversidade das coisas que vemos no mundo. Demócrito, de certo modo, encontra inúmeros discípulos em nosso mundo contemporâneo, que é basicamente atomista e casualista. Esta é, portanto, a posição materialista: tudo no mundo explica-se como resultante de uma partícula fundamental que, combinando-se de infinitas maneiras ao acaso, dá origem à diversidade de realidades que há no mundo. Todas as formas, portanto, que encontramos, são meramente acidentais, decorrentes do choque casual das partículas fundamentais de matéria. Entram aqui, inclusive, as teorias puramente evolucionistas e selecionistas em sua versão mais dura.

Outra corrente, diz Tomás, na linha de Anaxágoras, veem a matéria como preexistente, e a atuação de uma inteligência que, vislumbrando que as coisas estavam, de certo modo, todas contidas na matéria, fez as distinções entre elas. É claro, diz Tomás que esta concepção, embora tenha uma boa intuição sobre a atuação de uma inteligência na ordenação do universo, ignora a noção de que a própria matéria é uma criatura, e que portanto ela existe para as formas, e não o contrário. Vale dizer, é porque Deus quis que as coisas fossem distintas que as criou materialmente, e não o contrário. A matéria é capaz de acomodar as diversas formas, mas não existe fora ou independentemente das próprias coisas que ela compõe. Assim, a matéria é razão de distinção, mas não é a causa da distinção. A causa da distinção, diz Tomás, é muito mais elevada. Não é a inteligência divina que se submete a uma pluralidade que estaria latente numa matéria totalmente estranha a ele mesmo, como quer esta corrente. A origem da diversidade é muito mais elevada, ensina Tomás. Encontra-se em Deus mesmo, em Sua divina vontade. É o que veremos no próximo texto.