No artigo anterior, já vimos que, para Tomás, não haveria maneira de alcançar, por meios científicos ou filosóficos, a ideia de que a criação fez o tempo principiar. Ele ficaria surpreso ao descobrir que, atualmente, a ideia de que o tempo inicia-se junto com o universo é uma teoria com grande aceitação acadêmica. Isto não significa, nem poderia significar, que a Academia vê o Big Bang como uma corroboração da criação. Hoje, vê-se o quanto o tempo está relacionado com o espaço e com a matéria. Mas o que se discute aqui, agora, é a relação entre o tempo e o início da criação; em que sentido pode-se dizer que a criação se dá no tempo, fora do tempo ou com o tempo? A hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, é a de que não há uma correlação entre o principiar da criação e o principiar do tempo, vale dizer, que o princípio do tempo e o princípio da criação são dissociados.

O primeiro argumento quer estabelecer justamente essa dissociação entre o ser das coisas e o tempo. Platonicamente, o argumento estabelece que as próprias coisas, no seu ser, não estão no tempo. De fato, diz o argumento, a criação estabelece, a partir do nada, o “ser homem”, o “ser cão”, o “ser pedra”, ou o “ser anjo”. No caso dos seres corpóreos, portanto, ser este cão, ser este homem, isto se dá no tempo, mas não o próprio “ser cão” ou “ser homem”. Isto se vê mais claramente no caso dos anjos, diz o argumento, já que entre o “ser anjo” e o “ser este anjo” não há diferença, porque, sendo imaterial, o anjo não se sujeita ao tempo, no seu ser. Assim, o argumento conclui que o princípio da criação não se dá no princípio do tempo, mas fora e independentemente dele. O tempo mede as mudanças, diz o argumento, mas não o próprio princípio do ser das coisas.

O segundo argumento é mais aristotélico. Tudo aquilo que vem a ser passa a ser porque esteve em potência para ser aquilo que passou a ser. Logo, tudo o que é implica ter sido e implica um vir a ser. E isto é assim para tudo o que existe. Logo, conclui o argumento, a criação não principia sincronicamente com o tempo, mas o pressupõe.

O terceiro argumento tenta encontrar uma contradição interna na ideia de que a criação principia com o tempo. Admitamos que o próprio tempo é uma criatura, propõe o argumento. Ora, o tempo é mensurável, e, portanto é divisível. Mas um iniciar-se do tempo seria um instante, indivisível portanto, porque seria marcado por não ter um antes, dando origem a todo o depois. Ora, se o tempo é uma criatura, diz o argumento, ele não pode ter conhecido um princípio, um ponto indivisível que marcasse seu começo, porque este ponto, a rigor, sendo indivisível e imensurável, não seria, ele mesmo, temporal. Logo, provando que uma criatura, que é o tempo, não poderia ter princípio sem que se incida numa contradição, diz o argumento, não é necessário que a criatura, como tal, tenha um princípio com o tempo, se uma criatura, que é o tempo, não o tem. Portanto, o princípio da criação e o princípio do tempo não estão relacionados entre si, conclui.

O argumento sed contra é escritural (o que está em linha com a afirmação de Tomás de que estamos tratando de matéria revelada, aqui). Ele cita o primeiro versículo da Bíblia; Gn 1, 1: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Desta palavra revelada o argumento conclui que o princípio do tempo e o princípio da criação são indissociáveis.

São Tomás vai dar uma resposta exegética, interpretando este versículo bíblico para nos ensinar precisamente o que é que ele entende por criação e qual a sua relação com o tempo.

Este versículo bíblico (Gn 1, 1: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”) foi escrito para evitar três erros sobre a noção de criação, diz São Tomás.

O primeiro erro é o de imaginar que o tempo é eterno, ou seja, não teve um início. Os que pensam assim imaginam que o universo também existe desde sempre e para sempre. Para afastar esta ideia,. A Palavra deixa bem claro que houve um princípio, no sentido de que há um início para o tempo. E, portanto, há um início para a própria criação.

Há um outro erro, diz Tomás, que se combate com este versículo. É o daqueles que acham que o universo tem dois princípios, o princípio bom ou positivo, que criou as coisas boas, e o princípio mau ou negativo, que criou as coisas más. Assim, este versículo deixa claro que Deus é o único princípio da criação, como criador. São Tomás estabelece, então, que a criação tem no Pai seu princípio eficiente, por apropriação, e no Filho sua causa exemplar, a sabedoria, o logos que permeia toda a criação. E para comprovar sua posição, ele cita o salmo 1049103), 24: “fizeste todas as coisas com sabedoria”, ou seja, no Filho, que apropria a sabedoria divina, cf. Colossenses 1, 16: “Nele [no Filho] foram criadas todas as coisas”. Aqui, a palavra “princípio” não tem sentido de início, mas de origem.

O terceiro erro é o erro gnóstico, que interpõe intermediários, algo como seres espirituais inferiores, entre Deus e a criação, como se as coisas materiais fossem criadas por um demiurgo, algum ser espiritual diferente do próprio Deus, talvez anjos poderosíssimos que são criadores de segunda ordem. Ao afirmar que “no princípio Deus criou o céu e a Terra”, as Escrituras querem deixar claro que criar pertence a Deus, e que todos os seres, espirituais e materiais, bem como a própria estrutura do universo, que são o espaço e o próprio tempo, são igualmente criaturas, equiparando-os nesta condição.

Postos estes princípios, São Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais, para depurá-los criteriosamente.

O primeiro argumento quer negar que as substâncias possam ser medidas pelo tempo, como se sua própria concepção fosse intrinsecamente temporal; e, platonicamente, nega isto, afirmando que as coisas em si são essencialmente não-temporais, e, portanto, o tempo não é princípio das próprias coisas.

Mas não se trata disto, diz Tomás. É claro que, quando afirmamos que o tempo é princípio da criação, não queremos dizer que a própria concepção da criação, sua estrutura formal, seja submetida ao tempo, como se o número dois pudesse envelhecer, ou como se Deus tivesse criado simultaneamente, no princípio do tempo, todas as coisas que deveriam existir para sempre. Quando se diz que o princípio da criação é o princípio do tempo, afirmamos que as coisas existem em sua concretude temporal – e que mesmo os seres espirituais, como os anjos, estão sujeitos à sucessão de eventos, porque são criaturas. A criação não é um reino platônico de ideias, mas uma história cuja estrutura espácio-temporal foi criada junto com ela mesma. Espaço e tempo são, eles próprios, criaturas, que estruturam a existência de todas as criaturas. Assim, neste sentido, o tempo é princípio de todas as criaturas, ainda que nem todas tenham sido criadas no início.

Ao argumento aristotélico de que todas as coisas que vêm a ser, passam a ser porque eram, em potência, aquilo que vêm a ser em ato, e que portanto o tempo não pode ter um princípio que seja homogêneo com o da própria criação, São Tomás nos ensinará que este argumento parte de uma concepção errônea de criação. A criação não é um processo, como os processos de mudança que se dão no interior do próprio universo. Não é algo que, tendo a potência para ser outra coisa, passa a sê-lo em ato. Não. A criação é um ato, pelo qual aquilo que não é vem a ser. Portanto, não pressupõe a existência do tempo, mas cria-o exatamente no ato de criar todas as coisas.

Por fim, o terceiro argumento diz que o tempo, sendo divisível, não pode ter o instante como princípio, porque o instante é indivisível, e portanto não é homogêneo com o tempo, que é um fluir sem fim. Por isto, diz o argumento, o tempo não pode ter um início, por ser, ele mesmo, o fluir por definição.

São Tomás começa logo afirmando um princípio de pensamento bem interessante: nada vem a ser senão segundo aquilo que é. Uma pedra não vem a ser pedra, senão segundo a mineralidade, como um homem não vem a ser homem senão segundo a humanidade. Ora, o instante não viria a ser instante senão segundo o tempo. Nada é tempo, portanto, nada é fluir, nada é movimento, senão segundo o momento presente aqui e agora (e, diríamos, a própria palavra “momento” embute em si a noção de movimento, momentum em latim). Portanto, não é que o tempo seja algo como uma “sequência de momentos estáticos”, mas é no momento, na sua dinâmica instantânea, que o tempo se manifesta. Nada impediria, portanto, que o tempo tenha começado num instante. E aqui se mostra o limite da nossa linguagem, para expressar, com palavras que são, elas mesmas, intrinsecamente temporais, este instante em que o tempo passa a existir, e que não é, ele próprio, a sequência de uma dinâmica. Mas o limite aqui é nosso, não de Deus.