No texto anterior, escrevi que “não há meio de obter um conhecimento intelectual sobre aquilo que antecede a própria existência de tempo e de espaço. Assim, o nosso conhecimento científico e filosófico não pode, a partir da abstração indutiva ou das deduções, tirar conclusões definitivas sobre aquilo que condiciona a própria abstração, e que é desprezado para que ela se faça possível. Isto vale tanto para a ideia de que o universo é criatural, quanto para a ideia de que há ciclos de expansão e contração ou mesmo multiversos. Todas ultrapassam o limite daquilo que pode ser validamente conhecido com segurança pela inteligência humana.”
É preciso, porém, matizar esta afirmação. De fato, a estrutura mesma do universo, aquilo que nele ultrapassa o tempo e o espaço, é perfeitamente cognoscível. Aliás, o conhecimento inteligível é composto exatamente deste tipo de informação. Abstraio do tempo e do espaço todos os seres humanos que conheci, e conheço, assim, a species do ser humano. O que não pode ser conhecido, diz Tomás, é quando e onde a própria species passou a existir nos indivíduos humanos por criação. De fato, mesmo uma investigação empírica sobre o início do surgimento dos fósseis humanos permitiria apenas datar historicamente sinais da utilização da inteligência humana para resolver problemas, ou produzir cultura. Nada nos informaria, no entanto, a respeito da própria origem do universo, do problema das suas expansões ou contrações, da sua eternidade ou não, da sua estruturação interna inteligente, enfim, da sua criaturalidade. Este é o ponto.
Tampouco poderíamos, segundo nos lembra Tomás, deduzir a criaturalidade do universo a partir da sua causa agente. Podemos chegar, pela razão, a descobrir que há uma causa agente por trás da estrutura do universo, como vimos na questão 2. Mas, uma vez que esta causa agente é inteligente, não poderíamos deduzir mais nada sobre ela a partir dos seus efeitos. Seria como tentar imaginar como era o rosto, o temperamento, a personalidade, o caráter, os pensamentos, enfim, tentar reconstruir pessoalmente o sujeito que pintou o belo crucifixo de San Damiano, em Assis. Seria impossível. A menos que o próprio pintor se apresentasse a nós, e convivêssemos pessoalmente com ele. Analogicamente, seria do mesmo modo impossível reconstruir o próprio ato divino da criação a partir do exame das coisas criadas, uma vez que Deus é uma agente inteligente; ou, melhor dizendo, ele é a própria inteligência que age. Assim, diz Tomás, é preciso que o próprio Deus nos revele sobre a criação, e nos esclareça que ela teve um início no tempo, por vontade dele, para que cheguemos a este conhecimento. Não é que recebamos, assim, uma espécie de “adiantamento” daquilo que a ciência pode vir a comprovar ou desaprovar depois. É que a ciência ou a filosofia nunca vão poder estabelecer o fato da criação, e a circunstância de que ela deu início ao universo por uma decisão livre de Deus. Está fora do seu domínio.
Disto, no entanto, podemos estar mais seguros do que sobre as especulações que falam em contrações e distensões infinitas, ou em multiversos simultâneos. É que, nestes casos, o próprio conceito de que cada universo destes seria, por definição, estanque em seu contínuo tempo-espaço e, portanto, absolutamente incognoscível para um observador inteligente situado em outro universo mostra que estas especulações são menos dignas de fé do que a revelação de que nosso universo começou a existir por um ato de vontade deliberada de Deus. É que neste último caso, contamos com a base de credibilidade da própria Revelação: Deus não se engana nem pode enganar. Assim, estabelecidos os critérios de inteligência que tornam razoável a própria Revelação (e eles existem, são aquilo que a Igreja chama de “preâmbulos da fé”), é claro que o dado revelado sobre aquilo que escapa da possibilidade de dedução ou indução racional têm maior credibilidade do que meras especulações pseudocientíficas ou pseudo-filosóficas. E é assim porque os temas a respeito de quem é Deus, ou como ele age, ou qual a relação que estabelece com a criação, são propriamente teológicos. Mas este foi o assunto do texto anterior.
Agora, vamos acompanhar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento afirma que tudo aquilo que é resultado de um fazer, que é um produto, tem que ter um começo. Mas o universo, diz o argumento, tem em Deus sua causa eficiente, e por tanto é algo feito, produzido. E isto, diz o argumento, é uma constatação de ordem filosófica, não de ordem revelada. Assim, o argumento conclui que o universo começou, e que esta é uma conclusão a que se pode chegar independentemente de revelação.
São Tomás responderá que não é bem assim. De fato, ele lembra que há filósofos antigos que especularam que o mundo foi moldado pelos deuses a partir de algo preexistente, como a matéria. Outros, ainda, embora afirmando a existência de Deus, e admitindo que ele é causa eficiente do universo, não postulavam um começo para o universo; para eles, é como se o Universo fosse a pegada de um pé eterno, diz Tomás. O pé é causa eficiente da pegada, mas, supondo um pé eterno, nada impediria supor que a pegada também o fosse. A noção de causa eficiente, diz Tomás, não necessariamente implica a anterioridade do agente sobre o efeito. Quando o efeito é resultado de um processo de mudança, o agente eficiente tem que preceder o ser do efeito, como no caso da reprodução sexuada. Mas quando se trata de uma ação instantânea, como a luz que é gerada pela lâmpada que se acende, o agente não precisa preceder o efeito no tempo. Podem ser simultâneos. Ora, conclui Tomás, a criação não é um processo de mudança, mas um fazer instantâneo, um tirar do nada, não processual, pelo que nada constrange a inteligência a concluir que o efeito não pode, neste caso, ser eterno, posta a eternidade da causa. Portanto, Tomás conclui que somente por revelação saberíamos desta criaturalidade, deste início radical do Universo no tempo em razão do criar divino.
O segundo argumento objetor raciocina a partir da origem radical do universo. Admitindo que o universo não tenha surgido a partir de algo precedente, teríamos que admitir que ele surgiu do não-ser. Ora, diz o argumento, então ele tem que ser posterior ao não-ser e, portanto, tem que ter um início, um começo temporal, e esta seria uma dedução independente de uma revelação.
Mas São Tomás vai responder que o fato de afirmar que o mundo foi feito do nada não implica admitir que o mundo foi feito temporalmente após o nada, mas apenas que ele não pressupõe alguma coisa para existir. O nada não pode ser concebido como um “tempo anterior ao tempo”, ou como um “espaço fora do espaço”. Assim, há pensadores, como Avicena, diz Tomás, que admitem que o universo veio do nada, mas defendem que ele é eterno. O argumento, portanto, não prevalece.
O terceiro argumento faz uma analogia entre o artífice humano, cuja inteligência parte de princípios para produzir seu resultado (quer sejam princípios materiais, como a matéria-prima, quer sejam princípios inteligíveis, como os fundamentos de uma arte, quer sejam princípios formais, como uma causa exemplar), e Deus, agindo pela inteligência como criador: se ele é um criador inteligente, então também parte de princípios para criar, e portanto o resultado do seu fazer tem que ser temporalmente posterior aos princípios que ele usa. Logo, conclui o argumento, o universo tem que ter algum princípio no tempo, e esta é uma conclusão que, segundo o argumento, independeria de revelação.
Mas a analogia não procede, diz Tomás. Toda analogia que tenta impor a Deus algum aspecto próprio da criatura dá errado. De fato, o artífice humano delibera, raciocina, aprende, escolhe modelos, escolhe materiais, e assim sua produção é sempre posterior, no tempo, ao seu agir. Mas Deus não faz nada disso. Não delibera, não raciocina, não aprende, não toma exemplos ou escolhe materiais. Ele simplesmente sabe e faz. Portanto o argumento, que, segundo São Tomás, tem sua origem no filósofo Anaxágoras, não é correto.
O quarto argumento é evolutivo: se podemos identificar, no tempo, os traços do início de alguma ocupação humana, ou mesmo do surgimento dos seres, ou, no estado atual da ciência, até do surgimento de planetas e estrelas, diz o argumento, seria possível simplesmente retroceder no tempo para determinar o início do universo, vale dizer, o ponto no qual ele foi criado por Deus.
Não é verdade, diz Tomás. Os achados arqueológicos e paleontológicos, diz Tomás, poderiam ser explicados por aqueles que defendem a eternidade do mundo como parte de um ciclo de ocupações e desocupações, ou mesmo, como hoje em dia, de um ciclo de expansões e contrações no universo. Assim, diz Tomás, o argumento não prova que se pode chegar ao conhecimento da criaturalidade do universo independentemente de revelação.
O quinto argumento diz que, se o universo fosse eterno, ele teria em si a eternidade, que é um atributo exclusivo de Deus. E a eternidade de Deus não é um dado revelado, mas uma realidade atingível pela especulação filosófica. Logo, diz o argumento, pode-se deduzir que ele não é eterno, sem necessidade de revelação.
Aqui, diz Tomás, há uma confusão entre eternidade como uma “duração infinita de tempo”, que seria próprio da criação, e a eternidade como estar subtraído ao tempo e sua sucessão, de modo a relacionar-se com ele de fora, em plena simultaneidade, livre de suas amarras. Assim, se o universo existe há um tempo que dura indefinidamente, ainda assim ele não teria a eternidade no mesmo sentido que a tem Deus, que não está sujeito à sucessão temporal. O argumento não prova a desnecessidade da revelação para este conhecimento.
O sexto argumento quer reduzir ao absurdo a ideia de que o universo existe há um tempo incontável, argumentando que, se assim fosse, o tempo teria que percorrer uma quantidade infinita de dias até chegar ao dia de hoje; ora, uma vez que percorrer uma quantidade infinita de dias é uma tarefa que não termina, então o dia de hoje nunca chegaria. Mas o dia de hoje existe, diz o argumento, e portanto o universo não pode ter existido por uma quantidade infinita de tempo.
Mais uma vez o raciocínio se equivoca, diz Tomás. Dado um evento qualquer, há uma quantidade finita de tempo entre ele e o momento presente. Dado um dia qualquer, há uma quantidade finita de dias entre ele e o dia presente. Assim, não há a necessidade de que o universo exista há um tempo finito por força deste argumento. O raciocínio só seria válido se a eternidade temporal do universo nos levasse a ter que admitir que entre dois pontos quaisquer do tempo poderia haver um transcurso infinito de tempo, o que não é o caso.
O sétimo argumento resgata a ideia de que, nas causas eficientes, não pode haver um regresso ao infinito. Um trem que tivesse um número infinito de vagões jamais andaria, porque não haveria uma locomotiva para desencadear o movimento. Assim, se o universo existe há um tempo infinito, então a geração dos seres vivos existe também de modo infinito; mas neste caso haveria um regresso ao infinito de causas eficientes, similar ao caso do trem de vagões infinitos, e portanto o processo de geração seria impossível. Mas o processo de geração existe, diz o argumento. Logo, o universo deve existir a um tempo infinito, e não seria necessário uma revelação, conclui o argumento, para saber-se disto.
Falso, diz Tomás. Há dois tipos de causa eficiente: as causas eficientes por si, ou essencialmente eficientes, e as causas eficientes por acidente. Nas causas eficientes por si, cessada a atuação da causa, cessa também o efeito, como no caso da alavanca que, impulsionada pelo meu braço, ergue a pedra. Neste caso, não pode haver um regresso ao infinito das causas eficientes, como no caso do grande comboio ferroviário. Mas há também as causas eficientes por acidente, que são aquelas cujo efeito permanece substancialmente, mesmo quando cessa a sua atuação. É o caso da reprodução animal. Morto o pai, o filho subsiste em si mesmo, independentemente do pai. Neste segundo caso, nada impede que houvesse um número infinito de pais no tempo, já que cada pai é causa particular deste filho, mas não há uma cadeia que ligue substancialmente a atuação deste pai como gerador à atuação de todos os outros pais e filhos que existem, já existiram ou existirão no mundo. Portanto o argumento não vale.
O oitavo argumento vai por caminho semelhante. A filosofia é capaz de sustentar que as almas humanas são eternas, sem precisar recorrer à revelação, diz o argumento. Logo, se o universo é eterno, isto significa que a geração humana existe eternamente e, portanto, haveria um número infinito de almas humanas existindo simultaneamente, um número indeterminável mesmo para Deus. Ora, como não pode haver algo, algum ser cuja quantidade de indivíduos seja indeterminado para Deus, o argumento conclui que, independentemente do dado revelado, é possível concluir que o universo não existe eternamente.
Falso de novo, diz Tomás. Há os que sustentam que uma quantidade que é infinita por acidente, ou seja, que chega a ser infinita por causa da sua multiplicação, não é algo que repugna a razão. Outros sustentam que a eternidade do universo não implica a eternidade da existência dos seres vivos nele, e que portanto os seres vivos podem ter surgido em algum momento, num universo eterno, e portanto não existiriam em número infinito. E ainda há os que afirmam a reencarnação das almas, uma espécie de reciclagem de espíritos que manteria o número de almas atualmente existentes numa quantidade limitada, pelo seu reaproveitamento. É um argumento falso, mas existe, e comprova que não é possível chegar, sem a revelação, ao conhecimento da temporalidade essencial do universo.
Este artigo é muito rico. Não se pode negar que, hoje, temos uma propensão maior a defender que a ciência se inclina para a dinâmica do universo, e não para a sua permanência estática eterna. Mas esta dinâmica, como vimos, não prova a sua criaturalidade, dadas teorias como a da inflação e contração eternas, ou dos multiversos simultâneos. Só a Revelação o faz.
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