O Big Bang é uma teoria com muito consenso científico, hoje. Que o universo tem uma dinâmica que o relaciona com uma temporalidade, com expansão e contração, parece ser algo muito tranquilamente aceito na academia. Há o afastamento das galáxias, há o chamado “ruído de fundo” que físicos interpretam como remanescente da explosão que deu origem ao universo. Há, inclusive, a noção de que o tempo e o espaço estão muito intrinsecamente relacionados, como se vê das teorias da relatividade de Einstein e mesmo das diversas teorias quânticas. Para a ciência moderna, diferentemente da ciência do tempo de Tomás, o tempo e o espaço não são categorias absolutas que existiriam como condição para a existência das coisas; não são algo como os “transcendentais” kantianos, que São Tomás não conheceu, mas certamente estranharia. Neste sentido, as observações de São Tomás no artigo que agora estamos estudando harmonizam-se muito melhor com a física contemporânea do que a teoria kantiana de que o tempo e o espaço seriam algo como “categorias transcendentais” que balizam a própria experiência de conhecer o mundo. Tempo e espaço são dimensões da realidade, dimensões que existem porque o universo existe; não são condições absolutas e prévias para a existência do universo.

Como já vimos, há muitas teorias, de ordem filosófica, ou mesmo alegadamente científica, que tentam interpretar o Big Bang fora da noção de que ele é algo como “o lado de cá” do relato de criação da Bíblia. É certo que a teoria do Big Bang foi apresentada, em primeiro lugar, por um padre católico, em 1927, como um modelo científico para o início do universo. Houve muita desconfiança, na época, no mundo científico, de que este modelo seria, na verdade, uma construção preconcebida para fazer a criação entrar sorrateiramente no mundo científico. Exatamente por isto que ela foi designada como “Big Bang”, ou “grande pum”. Era um nome cheio de ironia, que visava desmoralizar de antemão a teoria. Muitos fatos e observações científicas, no entanto, estabeleceram sua solidez, e hoje ela é vista como mais do que uma hipótese. Mas é preciso muito cuidado. A teoria do “Big Bang” não prova nem a ideia de que nosso universo é criatural, nem a ideia de que o conjunto de coisas existentes está abrangido pelo nosso universo, com seus limites espaciais e temporais, e começou e terminará com ele. Dentro mesmo desta teoria, modelos matemáticos vêm sendo apresentados, no sentido de apontar que, na verdade, o nosso universo apresenta um fenômeno de expansão e contração que o leva a passar pelo ciclo de voltar a ter um “Big Bang” após certo espaço de tempo, e que este ciclo é eterno. O universo, assim, seria um grande pulsar de reinícios e colapsos. Neste caso, quando o universo deixa de se expandir e passa a colapsar, e quando chega a um grau de compressão que leva a outro Big Bang, todas as informações, o tempo e o espaço do universo que colapsou simplesmente são aniquiladas e jamais um habitante do novo universo teria acesso a informações do universo anterior. Outras teorias tentam demonstrar que seria possível conceber infinitas explosões dando origem a infinitos multiversos paralelos, que, existindo dentro dos seus próprios parâmetros circunscritos de tempo e espaço, seriam estanques quanto à troca de informações. Assim, os seres inteligentes que eventualmente vivessem num destes multiversos jamais conseguiriam obter informações empíricas sobre os outros universos paralelos. Em todo caso, estas teorias não somente não são científicas nem filosóficas, como são, por definição, indemonstráveis. Não há como imaginar que a ciência ou a filosofia pudessem provar a existência de algo cuja definição é a de existir num espaço e num tempo que são absolutamente impermeáveis ao nosso conhecimento empírico ou dedutivo. Como o é também o fato da criação. E é isto que Tomás está nos dizendo aqui.

Assim, São Tomás começa logo afirmando que esta questão a respeito da criaturalidade do universo é uma questão de fé. A física pode, de fato, criar modelos sobre um universo em expansão ou em contração, pode especular sobre um início radical na forma da explosão que se convencionou chamar de Big Bang. Mas não pode afirmar nada sobre a criação em si, sobre o fato de que nosso universo é resultado de um desígnio livre de Deus, e que este desígnio resultou neste e só neste universo, que foi criado junto com o tempo e o espaço, no qual o plano de Deus desenvolver-se-á plenamente.

São Tomás vai dar algumas pistas filosóficas a respeito da impossibilidade desta prova. É preciso lembrar que o paradigma científico que ele conheceu diferia profundamente do nosso. Quero ressaltar, dentre tantos, dois pontos que eram desconhecidos naquele tempo: a uniformidade do universo (à época de Tomás, acreditava-se que os seres supralunares não eram feitos da mesma estrutura que os seres sublunares, e por isto não obedeciam às mesmas leis físicas, coisa que, sabe-se hoje, não é verdade) e a sua dinâmica interna de movimentação em dimensões galácticas. Estes pontos podem levar-nos a especular sobre a duração do universo em que vivemos. Mas devemos resistir à tentação de imaginar que eles são uma prova empírica da criaturalidade do universo, ou mesmo da ideia de que este, e somente este, é o universo criado deliberadamente num certo momento por Deus.

São Tomás lembra que o nosso conhecimento intelectual é abstrato, e dá-se pela universalização, que é a extração dos aspectos inteligíveis das coisas a partir do encontro com os indivíduos que se dão à nossa sensibilidade no tempo e no espaço. Ora, diz Tomás, quando abstraímos, dos particulares, o tempo e o espaço, chegamos aos universais. Quer dizer, as espécies e gêneros que chegamos a conhecer por abstração não estão situados em tempo e espaço. Mas dependem da investigação daquilo que está no tempo e no espaço para acontecer. Portanto, não há meio de obter um conhecimento intelectual sobre aquilo que antecede a própria existência de tempo e de espaço. Assim, o nosso conhecimento científico e filosófico não pode, a partir da abstração indutiva ou das deduções, tirar conclusões definitivas sobre aquilo que condiciona a própria abstração, e que é desprezado para que ela se faça possível. Isto vale tanto para a ideia de que o universo é criatural, quanto para a ideia de que há ciclos de expansão e contração ou mesmo multiversos. Todas ultrapassam o limite daquilo que pode ser validamente conhecido com segurança pela inteligência humana.

Querer concluir, pois, a partir do conhecimento intelectual humano, aquilo que, por definição, não pode se dar a este conhecimento senão por revelação, é expor a fé ao ridículo. Significa submeter-se a ser desmascarado por aqueles que questionam a fé, e que passam a ter argumento para defender que, se a fé despreza os limites do conhecimento intelectual neste ponto, então tampouco pode ser defensável em todos os outros pontos. Conhecer os limites entre a fé e a razão, portanto, é essencial para defender a fé, defendendo a razão.

Do exame das respostas específicas de Tomás, ficará claro, pois, que as chamadas “vias” para o conhecimento de Deus, que examinamos na questão segunda desta primeira parte, são de natureza muito diferente desta pesquisa filosófica e científica sobre a criaturalidade do universo. Ali, trata-se de descobrir a relação entre a estrutura do universo e aquele ser que todos chamam Deus. É possível, pois, conhecer, pela razão, que chamamos de Deus aquele que torna possível a própria estrutura de causalidade do universo. Mas não é possível afirmar, pela razão somente, que o universo foi criado por Deus para começar a existir.

Examinaremos as respostas de Tomás às objeções iniciais específicas – que são muito ricas – no próximo texto.