O fato de que o Big Bang tem, hoje, status de doutrina científica, pode nos levar a concluir que a ideia de que o universo é criatural e tem um início temporal é uma ideia de ordem científica, ou, pelo menos, filosófica. Mas pode não ser bem assim. De fato, vemos muitas especulações, no mundo científico e filosófico, sobre a possibilidade de que o universo seja eterno, que passe por um processo de expansão e contração infinito, ou que haja muitos universos paralelos, com processos inflacionários próprios, que nunca se encontrarão, ou, ainda, que haja dimensões adicionais no universo, de tal modo que algumas dimensões estejam se expandindo e outras não. Isto tudo demonstra que o conhecimento de que o universo começou, e que ele é criatural, é de ordem teológica, e não científica – isto evita atrelar o conhecimento teológico a um paradigma científico apenas para vê-lo desmoralizar-se quando aquele paradigma científico resta superado.
Coisa bem diferente ocorre com a questão da harmonização entre fé e razão. De fato, os dados teológicos a respeito do início do universo por criação não são contraditórios, não há aí alguma contradição em termos que torne impossível esta concepção. De fato, ela se harmoniza bem com os dados científicos que temos, e é uma explicação mais simples do que as elucubrações (que também jamais terão comprovação científica) a respeito de contrações e expansões infinitas, ou mesmo a respeito da existência de multiversos incognoscíveis. Estas hipóteses parecem ser mais fantásticas, mais dependentes de pura crença, do que o conhecimento revelado sobre o início temporal do universo.
Mas corre-se um enorme risco (e o caso Galileo demonstrou exatamente isto) quando não se tem clareza a respeito do que é conhecimento científico ou conhecimento revelado. É esta clareza que estamos buscando neste artigo. E é por isto que a hipótese controvertida, aqui, para iniciar o debate, é a de que o surgimento cronológico do universo, ou seja, a informação de que ele teve um começo no tempo, é demonstrável experimentalmente ou dedutível por raciocínios, e não um dado revelado. São oito os argumentos objetores, alguns dos quais estão sendo revitalizados hoje nestas teorias de expansão e contração infinitas ou de multiversos paralelos.
O primeiro argumento lembra que há demonstrações filosóficas de que Deus é a causa eficiente do mundo. E que estas demonstrações são admitidas por filósofos de muita seriedade, e de modo muito razoável. Ora, prossegue o argumento, tudo aquilo que é feito, que é efeito de uma causa eficiente, tem necessariamente um início. Daí o argumento conclui que é possível à inteligência humana descobrir, a partir da investigação, e prescindindo do dado revelado, que o universo teve um começo.
O segundo argumento faz o seguinte raciocínio: se Deus fez o mundo, então ele o fez a partir do nada, ou a partir de alguma matéria preexistente. Mas, se havia alguma matéria a partir da qual Deus fez o mundo, então esta matéria seria anterior ao mundo, o que seria contraditório, como demonstra o próprio Aristóteles, ao defender a eternidade dos corpos celestes, usando exatamente o argumento de que nada os precede. Logo, o argumento conclui que é necessário que a razão humana conclua que o universo foi feito do nada, e, portanto, originou-se a partir do não-ser. Vale dizer, conclui o argumento, a inteligência pode deduzir, mesmo sem a Revelação, que o universo teve um começo.
O terceiro argumento quer fazer uma analogia entre a operação da inteligência divina, ao criar o universo, e a operação de um artífice humano, ao fazer algum artefato. Qualquer artífice humano, diz o argumento, constrói um projeto a partir dos princípios, para chegar ao resultado. Ora, Deus é um agente inteligente operando a criação do mundo. Logo, diz o argumento, tem que partir dos princípios para chegar no resultado, que é a produção do universo, como efeito. Logo, diz o argumento, esta analogia é capaz de demonstrar, independentemente da Revelação, que o universo tem que ter sido iniciado em algum momento.
O quarto argumento é evolutivo. Avaliando as culturas, as ocupações humanas e mesmo a distribuição geográfica das artes e ciências, é possível perceber que se pode identificar o tempo em que elas começaram e se desenvolveram, o que indica que nem sempre existiram tal como são hoje. Disso, o argumento conclui que a ciência pode chegar à conclusão de que o universo teve um início.
O quinto argumento tenta fazer um raciocínio a contrário sensu. Nada, diz o argumento, pode equiparar-se a Deus sob nenhum aspecto. E não é necessário recorrer à Revelação para concluir isto. Mas se o universo existe eternamente, diz o argumento, então equipara-se a Deus em duração. Logo, diz o argumento, é possível demonstrar, por este raciocínio, e independentemente do dado revelado, que o universo teve um início.
O sexto argumento também faz um argumento ao contrário. Se o universo é eterno, diz o argumento, então haveria um número infinito de dias até o dia de hoje. Mas não se pode percorrer um caminho infinito; não haveria começo, e não haveria a possibilidade de atingir um termo. Logo, não chegaríamos até o dia de hoje. Mas o dia de hoje existe, diz o argumento. Logo, conclui o argumento, a razão é obrigada a concluir que o universo não pode ter uma duração infinita.
Mais uma vez, o sétimo argumento constrói um raciocínio absurdo a partir da falácia do regresso ao infinito. Se o mundo existe eternamente, diz o argumento, então os seres se reproduzem eternamente. Logo, um ser foi gerado por outro, que foi gerado por outro, e por outro, até o infinito. Mas, diz o argumento, nas causas eficientes de mudança, não pode existir o regresso ao infinito: se não houve uma primeira causa na sequência, então nada chegou a acontecer, porque não houve um primeiro movimento que desencadeasse toda a sequência. Disso o argumento conclui que o universo precisaria ter um início temporal, e esta é uma conclusão que independeria da revelação.
Por fim, o oitavo argumento parte da ideia de que a alma humana é imortal. Para Tomás e os de sua época, a ideia da imortalidade da alma humana era uma ideia estritamente filosófica, racional, e não um dado revelado – e para nós deveria ser, também. Mas não é hora de fazer este debate. Vamos voltar ao argumento. Sendo a alma humana imortal, diz o argumento, e se o universo é eterno, então o número de almas humanas atualmente existente seria um número infinito, incontável, o que não seria possível, porque uma quantidade infinita não é própria de criaturas. Logo, conclui o argumento, é possível deduzir, apenas por um argumento de razão, que o universo teve um começo.
O argumento sed contra afirma, taxativamente, que os artigos de fé, tais como existem no credo que professamos, não podem ser demonstrados por raciocínios ou provados empiricamente. Eles não contradizem a razão, é claro. Mas não são dedutíveis ou comprováveis por ela. Fundamentam-se na confiança que devemos colocar na Revelação, e não na agudeza da inteligência humana. E o argumento cita Hebreus 11, 1: a fé é “um meio de conhecer realidades que não se vê”. Mas que Deus criou o Universo é artigo de fé, como se diz no Credo Apostólico: “Creio em Deus Pai, criador do céu e da terra…”. O argumento cita também um sermão de São Gregório, em que ele afirma que a Bíblia nos trouxe a novidade de afirmar que “No princípio Deus criou o céu e a terra”. Ora, se era novidade, diz o argumento, então esta é uma informação que não se podia conhecer, nem se conhecia, até que fosse revelada. Assim, conclui o argumento, a criaturalidade do mundo só se conhece pela Revelação, e não pode ser demonstrada ou provada empiricamente.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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