No último texto vimos a resposta de São Tomás à questão da duração, relacionada com a criação, e vimos como ele estabelece dois princípios: a sucessão de eventos e a extensão como próprios da criaturalidade, e a vontade de Deus como fundamentos da criação. Vimos também a sua resposta ao primeiro e ao segundo argumentos objetores. Seguimos examinando, pois, os demais argumentos objetores.
O terceiro argumento objetor parte da afirmação de Aristóteles de que a matéria não é gerada, e que o céu tampouco o é. Disso o argumento conclui que o universo não pode ter surgido, porque o que não é gerado não começa a ser.
A resposta anterior de certa forma inclui também esta objeção. Aqui, no entanto, vê-se o cuidado com o qual São Tomás aborda o pensamento aristotélico. Ele prontamente acede que Aristóteles tem razão quando diz que a matéria e o céu não foram gerados. De fato, diz Tomás, a geração pressupõe algum ser anterior que seja gerador, e nada pode ser considerado como anterior à matéria de modo a tê-la gerado. A geração também pressupõe algo que é transformado para ser diverso daquilo que é atualmente, como o fogo transforma a madeira em cinzas. Mas nada anterior pode ter sido “transformado” para dar origem aos céus. De modo que Aristóteles tem razão quando diz que nem a matéria, nem os céus foram gerados. Mas ocorre que Aristóteles não conhecia a noção de criação. E os argumentos que ele aduz contra a ideia de que a matéria e os céus tenham sido gerados não são capazes de refutar a afirmação de que a matéria e os céus foram criados por Deus.
O quarto argumento objetor é o argumento do vácuo. Ele parte da ideia de que, se o universo hoje tem uma extensão, é preciso imaginar que, antes dele ser criado, havia um vácuo com dimensão suficiente para cabê-lo; um espaço vazio de dimensões universais, no qual Deus teria inserido por criação o universo. Mas, diz o argumento, esta é uma ideia inconcebível. Disto o argumento conclui que o universo não pode ter se iniciado, mas é eterno.
São Tomás responde rapidamente a esta objeção. Há uma concepção equivocada de vácuo neste argumento, diz ele. O vácuo existe como dimensão na qual deveria haver um corpo, mas atualmente não há. O vácuo pressupõe a criação, portanto, e não o contrário. A extensão foi criada junto com o tempo, no ato pelo qual Deus criou os céus e a terra. Não havia, pois, um vácuo anterior no qual Deus viesse a exercer seu poder criador. Na verdade, não havia o espaço nem o tempo antes que Deus mesmo os criasse.
O quinto argumento parte da ideia de que alguma coisa que transforma outra deve ter, ela própria, atingido a sua própria perfeição; é fácil enxergar isto com o caso da reprodução dos seres vivos. Nenhum ser vivo é capaz de se reproduzir antes de ter, ele próprio, atingido a maturidade. Ora, se a transformação é causada pelos seres que atingiram a maturidade, então é preciso que, antes de serem agentes ativos de transformação, eles próprios tenham sido pacientes de um processo de transformação. E, portanto, toda mudança pressupõe uma mudança anterior, e assim por diante. Disto o argumento conclui que o universo não pode ter um começo, já que o processo de transformação é inerente a ele.
São Tomás lembra, agora, as definições que ele nos deu na questão 2, quando tratou das cinco vias para Deus. O Motor Imóvel, diz ele (chamaríamos hoje de “modificador imodificável”), nunca foi sujeito a mudanças, já que é total, completa e permanentemente perfeito em todos os aspectos. Ele origina, por criação, o primeiro ser modificável, e este passa a existir com a capacidade de aperfeiçoar-se e de exercer a causalidade na modificação dos outros. É assim que a criação do mundo dá origem à causalidade dos seres e a toda a dinâmica universal.
O sexto argumento parte da ideia de que toda mudança pressupõe um agente que a causa e uma circunstância em que ela ocorre. Presente a circunstância e o agente, dá-se o efeito (no caso dos agentes naturais). Assim, por exemplo, presentes a semente, o solo, o sol e a água, dá-se naturalmente a germinação. No caso dos agentes voluntários, diz o argumento, ele age porque verifica, no tempo, a oportunidade para fazê-lo, e pode deixar de agir agora porque prevê que as circunstâncias serão mais favoráveis amanhã. Assim, o argumento conclui que, se o universo não existisse sempre, ele nunca existiria, porque não haveria uma circunstância especial que fizesse Deus agir agora ou depois. Neste caso, diz o argumento, o universo tem que ser eterno, para se coadunar com um agente eterno.
Mas não é assim, diz Tomás. Deus é um agente voluntário; assim, em sua onipotência, pode produzir um efeito que não seja eterno. Não é necessário pressupor, portanto, uma especial circunstância que provocasse o agir de Deus agora e não antes; neste ponto, peço licença a São Tomás para lembrar de uma velha anedota que ouvi, certa feita. Dizem que alguém perguntou a Santo Agostinho o que é que Deus fazia antes de criar o universo. O santo teria respondido:
– Ele estava criando o inferno para quem pergunta estas coisas.
Brincadeiras à parte, São Tomás vai nos lembrar que Deus não é um agente particular, que estivesse agindo no mesmo plano dos agentes criados, ou que estivesse condicionado a tempo e espaço no seu agir. Ele é o agente primeiro, universal, e, ao criar, faz surgir as próprias condições da criação, como o tempo e o espaço, a sequência de eventos que constitui a criação e que não o condiciona. Assim, ele age fora do tempo, não há um antes e um depois no agir de Deus e, portanto, não há nem um “antes” ou “fora” da criação para ele, nem sequer a necessidade de algum evento externo a ele mesmo que desencadeasse o seu agir. Ele cria o universo com duração e extensão, para manifestar seu poder e manifestar que o universo não é divino, mas criatural. Fazendo isto, diz Tomás, ele revela mais claramente a sua própria condição de criador, de ser além da criação, mais claramente que se tivesse feito o universo com uma duração infinita.
O sétimo argumento joga com a existência do instante. O instante é aquela parcela do tempo que constitui o presente, e é o fim do passado e o início do futuro. Ora, diz o argumento, o que está no fim não está começando, e o que está no início não está terminando. Logo, este instante presente sempre foi o fim de um passado e o início de um futuro, Logo, não pode ter havido um presente que não fosse o início de um futuro ou o fim de um passado. Disto o argumento conclui que o universo existe desde sempre e não teve um começo.
São Tomás vai dar, aqui, uma longa volta para tentar responder sem chocar-se de frente com Aristóteles, que simplesmente concordaria com este argumento. São Tomás não quer desautorizar simplesmente Aristóteles. São Tomás diz que Aristóteles, quando afirmava que o tempo presente pressupõe sempre um passado e introduz sempre um futuro, está debatendo com aqueles que afirmavam que o tempo é infinito, mas o movimento da matéria não o seria. Aristóteles, então, faz o esforço de demonstrar que o tempo não é senão a medida do movimento da matéria; pressuposta a eternidade do tempo, na sequência de um passado que se encerra e de um futuro que se abre, é necessário afirmar, simultaneamente, a sequência de um movimento que se encerra e de um movimento que se inicia. Se o tempo é eterno, dizia Aristóteles, o movimento da matéria também o será. Mas, diz Tomás, este argumento não refuta a ideia de que o universo teve um início; ao contrário, pode-se concluir que, se o tempo teve um início, o movimento da matéria também o teve, e é exatamente isto que nos ensina a ideia de criação. Curioso que, também neste ponto, a ciência contemporânea dê razão a Tomás.
O oitavo argumento afirma que Deus pode se anterior ao mundo por natureza ou por duração. Se Deus é anterior ao mundo por natureza, então a própria natureza divina está além da natureza criada, mas esta comparação só é possível porque o mundo tem uma duração infinita, como que paralela à eternidade divina. Se, no entanto, Deus é anterior ao mundo apenas pela duração, então teríamos que admitir que o tempo que mede esta anterioridade teria que ser anterior ao universo criado, o que seria contraditório. Logo, o argumento conclui que o universo não teve um começo.
São Tomás responderá que a afirmação de que “Deus é anterior ao mundo” não significa que houvesse um tempo anterior que pudesse medir a duração de Deus. Trata-se de afirmar, em linguagem humana, aquilo que as palavras humanas jamais vão poder exprimir perfeitamente: a ideia de que Deus transcende o tempo. Neste caso, a ideia expressada na afirmação de que Deus é anterior ao mundo é análoga à ideia expressada na afirmação de que Deus está “muito acima do Universo” (Salmo 96(97)): trata-se de afirmar a superioridade em termos de transcendência, não em termos de tempo e espaço, mas usando as categorias linguísticas que possuímos, marcadas pela nossa própria criaturalidade.
O nono argumento traz a noção de causalidade. Se alguma coisa causa outra, ela pode causar de maneira condicionada ou de maneira suficiente. De maneira condicionada quando outra condição precisa estar presente para que o resultado se produza. As causas condicionadas são imperfeitas, portanto, diz o argumento. Mas Deus é causa do mundo de modo perfeito; é causa eficiente, porque o cria. É causa final, porque ele é a bondade a qual todas as coisas tendem como a seu fim. E é causa exemplar, porque em sua sabedoria contém a razão de todas as coisas criadas. Ora, se Deus é causa suficiente do mundo, e ele é perfeito e eterno, nada o condiciona para criar o mundo; logo, se ele é perfeito e eterno, o mundo, como efeito da sua perfeição, deve ser eterno também.
São Tomás vai mais uma vez nos lembrar que Deus é um agente dotado de inteligência e vontade. Ele não age com o automatismo das causas naturais, que causam o resultado pelo simples fato de que têm o poder de fazê-lo. Deus é causa perfeita do mundo desde a eternidade, diz Tomás, mas, concebendo o universo criado em sua própria inteligência, escolheu tirá-lo do não-ser e dar a ele um início e uma extensão para manifestar assim sua maravilhosa natureza, livre, inteligente, amorosa e onipotente.
O décimo argumento parte da ideia de que agir, em Deus, não é um acidente. Ele age por sua essência mesma, ou seja, agir em Deus é substancial. Mas a substância de Deus é eterna. Então seu agir é eterno. Mas o universo é efeito do agir de Deus. Logo, conclui o argumento, o efeito, seguindo a causa, deve ser eterno também.
Mais uma vez, está em jogo aqui a pessoalidade, a liberdade de Deus. O que condiciona o agir de um ser inteligente e livre não é reproduzir no seu efeito a extensão da sua própria natureza. Nos seres inteligentes, a concepção da forma gera, no efeito, o resultado que a inteligência do agente prefigurou. Na perfeição de sua inteligência, Deus prefigurou o mundo como tendo um início temporal, em que a criação é retirada do não-ser pela sua vontade divina.
Longo artigo. Maravilhoso. Incrível como as intuições de Tomás, mormente aquelas que mais frontalmente contrariam os consensos científicos de sua época e os traços da filosofia grega que recebeu são aquelas que mais se coadunam com a física contemporânea.
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