No texto anterior, vimos que, em razão do fato de que a Trindade não é uma verdade acessível à busca da razão humana, mas atingível apenas pela Revelação, a hipótese controvertida, aqui, é a de que as criaturas não trazem em si nenhum indício, nenhum vestígio da Trindade. Se trouxessem, dizem os argumentos, permitiriam que a razão humana, seguindo estas pistas, pudessem conhecer a Trindade independentemente da Revelação. Vimos os argumentos objetores e o argumento sed contra. Hora, pois, de examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.

São Tomás inicia dando-nos uma aula sobre causalidade e indícios a partir do exame dos efeitos. A partir do exame dos efeitos, diz São Tomás, podemos ter o seguinte quadro:

1. O efeito é um sinal, um indício da causalidade, mas não traz em si a mesma forma substancial da causa; apenas vestígios de que a causa transitou por ali. Por exemplo, se encontro fumaça e cinzas, tenho vestígios que indiciam que houve, ali, anteriormente, fogo. Mas a fumaça não é, em si mesma, fogo. É neste sentido que os vestígios são marcas, sinais, mas representam a causa apenas por certa simultaneidade. Mas não por identidade, nem mesmo como imagem.

2. O efeito é uma imagem da causa; aqui, apontaríamos que o fogo gerado tem identidade com o fogo gerador, e as pegadas são imagem das patas ou dos pés do animal que passou por ali. Uma estátua, diz São Tomás, é imagem da causa exemplar que a originou. Nestes casos, o efeito não é simplesmente um vestígio da causa, como sinal, de tal modo inespecífico que não a permita identificar com certeza. Neste segundo caso, o efeito reflete a causa e um modo que nos permite indagar e mesmo, dentro de certas condições, investigá-la.

Colocadas estas informações preliminares, São Tomás volta-se agora para a Trindade, tal como é em si mesma, e tal como a conhecemos pela Revelação, como uma revisão doutrinária para nós. Como estudamos, o Pai é origem sem origem, e origina o Filho ao modo intelectual, como verbo. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, como processão de vontade, ao modo de amor. Assim, prossegue Tomás, quando encontramos criaturas que são inteligentes e providas de vontade, temos, na mente destas criaturas, a formação do verbo intelectual, quando há aprendizagem – uma vez que os conceitos que a inteligência forma são propriamente chamados de verbo mental, e há também o impulso amoroso que movimenta a vontade, por amor. Aqui, pois, uma vez que a criatura inteligente existe (ou seja, ela é, em analogia ao Pai), uma vez que ela forma verbos mentais (que são analógicos ao Filho), e uma vez que ela ama (em analogia ao Espírito Santo), há aqui uma situação retratada no item 02 acima, ou seja, aqui o efeito é verdadeira e propriamente uma imagem da causa, como a estátua é verdadeira e propriamente uma imagem da sua causa exemplar. Não se trata, como no caso do item 01 acima, de um mero vestígio, mas verdadeiramente, no caso das criaturas inteligentes, de verdadeira imagem da causa no efeito.

Mas nas outras criaturas a situação é a seguinte: toda criatura, por mais simples que seja (imaginemos um pequeno pedregulho), tem a existência em si: ela é. Ela tem, também, uma estrutura interna, que é a sua forma, que lhe dá inteligibilidade: ela e composta destas ou daquelas moléculas arrumadas deste ou daquele jeito, possui as marcas das erosões ou das fraturas que já sofreu, tem este ou aquele peso, este ou aquele tamanho, e assim por diante. E, por fim, ela tem uma forma própria de agir e interagir: tem ou não magnetismo, tem ou não a capacidade de reagir a esta ou aquela substância química ou à água, é capaz de boiar ou afundar. Ou seja, é capaz de interagir, atraindo ou repelindo, relacionando-se com tudo o que lhe cerca, conforme suas potências e atos. Assim, pela sua existência, tem certa analogia com o Pai; pela sua inteligibilidade, com o Filho, e pela sua interação, com o Espírito Santo. Mas aqui não se trata de imagem, mas de simples vestígios, na forma do item 01 acima.

Neste momento, São Tomás se volta para aquele que é o autor desta doutrina dos “vestígios da Trindade”, que é Santo Agostinho. Este grande doutor católico nos lembra que há vestígios da Trindade em qualquer criatura, por mais simples que seja, porque ela é: 1) algo em sua unidade existencial, 2) ela traz em si uma forma substancial que revela a sua espécie, que lhe dá a inteligibilidade, e 3) ela traz em si uma ordem para mover-se de suas potências até os seus atos ou, na relação com outros seres, movê-los aos seus próprios atos. E, tendo lembrado de Santo Agostinho, São Tomás relaciona esta doutrina com o trecho do Livro da Sabedoria de Salomão, especificamente o versículo 11, 20: segundo a tradução da Vulgata, Deus dispõe tudo com “número, peso e medida”. Segundo Tomás, esta tríade deve ser lida assim: a medida diz respeito à coisa em sua concretude, limitada na existência pelos seus princípios. O número é a espécie, ou seja, aquilo que a coisa é. E o peso diz respeito àquilo para o qual ela tende, ou seja, a ordem que a conduz aos seus fins. Assim, pensemos no meu cãozinho de estimação; a medida dele é aquilo que o torna presente, real aqui e agora, ou seja, a massa que o compõe, a cor que ele tem, a sua idade, o seu tamanho, e assim por diante. O seu número é pertencer à espécie dos cães domésticos. E o seu peso é tender a ser um bom guarda da casa, um bom reprodutor, um bom caçador ou farejador e assim por diante. Para nomear estes mesmos aspectos, Santo Agostinho fala em modo, espécie e ordem. Ou, em outro lugar, ele fala naquilo que é discernido (aquilo que o torna visível, atuante), aquilo que é distinguido (aquilo que o torna inteligível como algo) e aquilo que é condizente (ou seja, tudo o que dele se espera como ator, como ser que age). Esta tríade revela, na criatura, que ela é, em analogia com o Pai, que ela é isto, e não aquilo, em analogia com o Filho, e que ela tem uma dinâmica, em analogia com o Espírito Santo.

Tomás passa a enfrentar os argumentos objetores iniciais. O primeiro argumento objetor quer provar que não há vestígios da Trindade na criação, porque já se sabe, de antemão, lembra o argumento, que a Trindade não é dedutível pela simples investigação da razão. Mas, se houvesse tais vestígios, seria possível à razão investigá-los e descobrir a Trindade.

Mas não é assim, diz Tomás. Não se descobre a Trindade pela razão. Contudo, conhecida a Trindade pela Revelação, vê-se que ela deixou vestígios na criação; e, mais que isto, deixou sua imagem em nós. Mas esta é uma observação feita retroativamente; não se chega à Trindade pela dedução racional a partir das criaturas, mas, conhecida a Trindade pela Revelação, os seus vestígios nas coisas, a sua imagem em nós, ficam evidentes.

O segundo argumento tenta ridicularizar a existência desses vestígios, levando a um regresso ao infinito. Tudo o que há na criatura é criado, diz o argumento. Se houvesse vestígios da Trindade, estes vestígios seriam algo criado, porque fariam parte da criatura. Mas teríamos que localizar vestígios da Trindade nestes vestígios da Trindade, porque eles seriam também criaturas. E logo estaríamos a procurar vestígios dos vestígios dos vestígios, e assim por diante, até o infinito. Como nada pode regressar ao infinito, diz o argumento, então não há vestígios da Trindade nas criaturas, conclui.

São Tomás vai dizer, sinteticamente, que, quando ele fala de criatura, aqui, ele se refere |à substância primeira, às coisas em sua concretude substancial, não aos seus acidentes ou propriedades. Assim, se os vestígios são propriedades das criaturas, eles não são criaturas, substâncias em si mesmos. Por isto, não há vestígios nos vestígios, e nenhum regresso ao infinito.

Por fim, o terceiro argumento lembra que a criação é efeito cuja causa está na unidade da essência divina, não nas propriedades das Pessoas. Este argumento, portanto, comete aquele famoso erro de imaginar que haja uma espécie de esquizofrenia em Deus, que às vezes age impessoalmente como uno, quando “age por sua essência”, e às vezes age pessoalmente como Trindade, quando age pelo que é próprio de cada Pessoa. Este erro é superado pela doutrina das apropriações, que sempre vincula o agir de Deus, mesmo quanto ao que diz respeito à sua essência, à sua pessoalidade.

É nesta linha que Tomás vai responder com simplicidade que a criação é efeito cuja causa de fato é a essência única de Deus, mas Deus é Trindade, e é na Trindade, essa multiplicação de amor, que está a causa da criação como superabundância de amor divino, como discutimos no artigo 6 desta mesma questão. Assim, é razoável esperar que haja marcas, indícios desta intimidade trinitária de Deus em sua criação.