A Trindade é um daquelas verdades sobre Deus que não é possível alcançar somente pela razão. Pode-se chegar, pelo uso da razão, a descobrir que há Deus, que ele é onipotente e sábio, até que ele é uno. Mas para saber quem ele é, quer dizer, para conhecer sua imanência, a revelação é necessária.
Mas, uma vez revelado e Jesus, a natureza trinitária de Deus, os teólogos não se cansaram (e não se cansam ainda) de procurar marcas da Trindade na criação. Esta é uma busca de amor, é certo; quando desenvolvemos um amor profundo a Deus, queremos encontrar as marcas do amado em qualquer lugar. Mas também é uma busca que, de antemão, já sabemos que é limitada: é claro que, sendo Trindade, Deus não pode deixar de espalhar a sua marca trinitária por aí. Mas, por outro lado, essa marca não pode ser tão evidente a ponto de tornar a revelação trinitária desnecessária. Seria como dizermos o seguinte: uma vez que sabemos, pela fé, que Deus é Trindade, torna-se evidente que tudo o que existe faz sentido a partir de um Deus Trindade. Mas se não soubéssemos que ele é Trindade, jamais nos daríamos conta disto somente contemplando a natureza. Conhecido este mistério pela revelação, damo-nos conta de como ele faz sentido, de como explica tudo, de como não poderia ser diferente! Deus cria, em última instância, porque é Trindade, e toda a criação encontra em Deus sua meta porque ele é Trindade! Sabendo que Deus é Trindade, percebemos que é necessário que as coisas sejam como são, e que não há como elas serem como são sem que houvesse, por trás de tudo, uma Trindade. Sendo Trindade, Deus age trinitariamente, e deixa necessariamente as suas “impressões digitais” trinitárias em tudo o que faz; mas, do mesmo modo que as impressões digitais muitas vezes só são visíveis sob algumas luzes especiais, também estas marcas só são visíveis sob a luz da Revelação.
Mas será que podemo chamar de “vestígios da Trindade” estas marcas que só conseguimos enxergar retroativamente? A hipótese controvertida, aqui, parte da ideia de que estes supostos vestígios não são reais; são apenas ilusões da nossa vontade de enxergar traços de Deus ali onde não estão. A hipótese controvertida diz que não existem marcas necessárias da Trindade a serem encontradas na criação. Há três argumentos objetores, que procuram sustenta esta hipótese.
O primeiro argumento objetor lembra que podemos, a partir de pistas e vestígios, investigar a sua origem e chegar a conhecê-la. Mas já sabemos que não é possível deduzir, a partir do exame das criaturas, pelo mero uso do raciocínio, a existência da Trindade, sem que haja uma revelação positiva por parte do próprio Deus. Ou seja, a inteligência humana não pode encontrar um caminho para deduzir, pelo simples uso da razão e pelo exame das criaturas, a existência da Trindade Santa. Assim, conclui o argumento, não se pode admitir que haja algum vestígio da Trindade na criação.
O segundo argumento lembra que tudo o que há numa criatura é criado. Nada há numa criatura que não seja criatural. Ora, prossegue o argumento, se há algum indício, algum vestígio da Trindade na criatura, este vestígio é, por sua vez, criatural. Mas se o vestígio é, ele mesmo, uma criatura, então deveria haver nele também um vestígio da Trindade, e nesse vestígio deveria haver um vestígio da Trindade e assim por diante. Assim, diz o argumento, haveria uma regressão ao infinito, o que seria inadmissível. Por isto, conclui o argumento, não se poderia admitir que há algo como vestígios ou indícios da Trindade nas criaturas.
O terceiro argumento vai ainda mais longe, e parte da própria teologia da criação. A criação é causada por Deus, por sua natureza comum divina, e não como algo próprio de uma das Pessoas. Isto foi debatido no artigo anterior. Ora, diz o argumento, os efeitos sempre trazem em sias marcas de sua causa, diz o argumento. Mas no caso da criação, a causa não seria trinitária, prossegue. Logo, conclui, o efeito, que são as criaturas, não poderiam trazer vestígios daquilo que não é sua causa.
O argumento sed contra simplesmente traz uma citação de Santo Agostinho, que, com toda a sua autoridade teológica, afirma: nas criaturas aparece um vestígio da Trindade. Dessa autoridade o argumento conclui que a hipótese controvertida não se sustenta.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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