No texto anterior, colocamos o debate sobre a titularidade ativa da criação: sendo Deus uma Trindade, quem cria, afinal? Criar é algo próprio da essência divina em sua unidade, que pode eventualmente ser apropriado sob diferentes aspectos pelas Pessoas, ou trata-se de algo que uma das Pessoas faz por si mesma, como próprio do seu agir individual específico? Em suma, fomos criados por Deus ou por alguma das Pessoas divinas especificamente?
Para apresentar sua própria resposta sintetizadora, São Tomás inicia lembrando que criar é, propriamente, dar o ser às coisas, retirando-as do nada. Ora, prossegue Tomás, as coisas produzem seus efeitos a partir de sua natureza. O fogo, diz ele, gera fogo porque é fogo. Logo, gerar o ser é algo que se relaciona diretamente com o ser de Deus, portanto. Deus gera o ser criado porque é, ele mesmo, o ser incriado. Mas ser, em Deus, não é atributo que se separe pelas Pessoas trinitárias: uma vez que elas são um só e mesmo Deus, elas têm um só e o mesmo ser. O ser de Deus é, portanto, comum às Pessoas. Assim, criar, quer dizer, gerar o ser criatural, é algo que une as Pessoas em seu ser, e portanto não é algo próprio de alguma delas.
Mas Deus é Trindade, e por isto, mesmo naquilo que as Pessoas têm em unidade, como o ser, a Trindade se manifesta pessoalmente; Deus nunca age como se fosse uma unidade impessoal. Mesmo naquilo que remete diretamente à sua unidade, ele é pessoal. É por isso que Tomás nos lembra que o agir de Deus envolve as apropriações, isto é, a percepção de que determinados aspectos remetem mais adequadamente a uma Pessoa do que a outra, e assim também com relação à criação.
Em debates anteriores, que tratavam da inteligência e da vontade divinas (que são aspectos unificadores da Trindade), nós aprendemos que o agir de Deus pode ser descrito através de uma analogia com o agir do artesão humano: ele concebe na sua inteligência aquilo que tem vontade de realizar, e o faz pelo seu poder. Ora, no artesão humano, as coisas que ele produz são concebidas como conceitos da sua inteligência, ou seja, como “verbo”, antes de serem aprovadas pela sua vontade, que as aprova e, amando-as, deseja que elas existam. E são, por fim, realizadas por seu poder artístico. Ora, em Deus o verbo é a Pessoa do Filho e o Amor é a Pessoa do Espírito Santo, enquanto o Pai é o Poder, porque origina a Trindade sem ser, por sua vez, originado. Assim, pelo seu Verbo, que é o Filho, Deus concebe as suas criaturas e pelo seu Espírito as ama, originando-lhas pelo seu poder. Assim, a criação, segundo a sua realização, é apropriada ao Pai, mas segundo sua inteligibilidade é apropriada ao Filho e, segundo sua bondade, ao Espírito. Assim, sendo obra da Trindade, vê-se que é trinitariamente que o Deus uno nos cria. E nem poderia ser diferente.
Postos, assim, os critérios para resolver o debate, São Tomás passa a enfrentar as objeções iniciais.
A primeira objeção diz que, uma vez que a processão das Pessoas é o fundamento da processão das criaturas, temos que admitir que a causa da criação são as Pessoas, e não a unidade da essência divina. E São Tomás vai concordar; de fato, a processão das Pessoas é o fundamento da criação, e neste sentido é sua causa: é a expansão do amor divino que se multiplica para fora de si mesmo, transborda, para convidar tudo a participar da perfeita comunhão de felicidade que ele próprio é. Mas criar é atributo da essência divina, embora as Pessoas estejam envolvidas na criação de modo peculiar, na conformidade das respectivas apropriações, como foi explicado na resposta sintetizadora.
O segundo argumento objetor lembra que, uma vez que as Pessoas se distinguem por suas relações, tudo aquilo que difere no modo com que elas se relacionam é próprio de cada uma delas, e não comum à essência divina unitária. E o argumento lembra que o Credo Niceno-Constantinopolitano atribui a Pai ser criador, ao Filho ser aquele por quem tudo foi criado e ao Espírito ser Senhor e vivificador. Ora, diz o argumento, se o próprio Credo determina que as Pessoas se relacionam diversamente com a Criação, então a criação é algo próprio das Pessoas, e não da essência única de Deus.
Aqui, mais do que em nenhum outro lugar, fica evidente qual é a preocupação de Tomás neste debate: trata-se de reconhecer que a criação é obra de Deus; não de três Pessoas divinas trabalhando separadamente e em paralelo, como se fossem três deuses, com tarefas diferentes: ao Pai caberia tirar as coisas do nada, ao Filho dar-lhes inteligibilidade e ao Espírito vivificá-las, quer dizer, colocá-las em ação. Assim, a criação pareceria um daqueles mitos politeístas, com uma espécie de corporação divina em ação. Não é isto. Há um Deus, e só um Deus, que cria, e cria porque é Deus e tem o poder para criar. Ponto final. Mas este Deus é tripessoal, e exerce o seu poder de criar segundo uma certa ordem, e por isto Tomás não pode e nem deve descartar a Trindade, quando descreve a criação, afastando todos os riscos de, por um lado, ser injusto com Deus e, por outro lado, abrir espaço a uma visão triteísta. Assim, diz ele, devemos lembrar que o poder de criar, diz Tomás, é de Deus, mas o Pai o tem de modo originário, enquanto o Filho o tem do Pai e o Espírito Santo, do Pai e do Filho. Assim, diz Tomás, atribuímos ao Pai sr criador no sentido de que o poder de criar é, nele, originário.
Quanto ao Filho, dizemos que “tudo foi feito por ele”, já que recebeu do Pai o poder e, sendo o Verbo, guarda em si o logos, a razão da inteligibilidade da criação. Tudo passa por ele em sua estrutura inteligível mais profunda, e por isto, diz Tomás, o credo diz que “Todas as coisas são feitas por ele”. Ele é a verdadeira causa intermediária entre o poder de fazer e o fazer com sentido. Tendo recebido o poder do Pai, ele o ordena pela inteligência. O Espírito Santo, sendo amor que nasce da relação do Pai com o Filho, é a dinâmica que anima interiormente a criação, movendo-a para o seu fim que é o bem. É neste sentido que se diz que o Espírito Santo é o Senhor que dá a vida. Vida, aqui, diz respeito ao caminhar de todas as coisas para seu próprio fim, seu próprio bem, que é o caminhar das potências aos atos. É assim, pois, que a doutrina das apropriações nos permite lidar com a criação sem dividir a ação de Deus e sem escamotear sua realidade trinitária. A criação produto do poder de Deus, é pelo Pai, é como é pelo Filho e é boa pelo Espírito Santo.
Por fim, a terceira objeção diz que a doutrina das atribuições não seria adequada para tratar da criação, porque todo efeito divino é igualmente resultado do poder, da sabedoria e do amor de Deus. Assim, a menos que fosse possível atribuir propriamente a alguma das Pessoas o criar, por força das relações e processões, não deveríamos apropriar a alguma das Pessoas a criação, mas afirmar a pura indivisão do agir divino. É um argumento, portanto, fortemente uniteísta.
São Tomás lembra que, de fato, Deus é simples, e tudo o que vem dele é indivisivelmente resultado de todos os seus atributos, que são inseparáveis e indivisíveis em si mesmos. Mas há afinidade, naquilo que Deus faz, com este ou aquele aspecto, com este ou aquele atributo com o qual aquele efeito tem mais conveniência. Assim, quando pensamos na ordem que permeia a criação, naturalmente a relacionamos com a sabedoria divina, que apropriamos ao Filho. Quando pensamos, por outro lado, na justificação do ímpio, atribuímos à misericórdia e à superabundância d amor divino que atribuímos ao Espírito Santo. E quando pensamos no existir a partir do nada, somos remetidos ao Poder divino, que apropriamos ao Pai, pelas razões que já debatemos acima. É assim que a doutrina das apropriações nos ajuda a ver a ação pessoal de um Deus perfeitamente uno em sua Trindade.
Deixe um comentário