Há uma doutrina teológica tradicional, relativa à Trindade Santa, que tem sido mal compreendida e mesmo combatida hoje. Trata-se da doutrina da apropriação, que declara que determinados aspectos do ser de Deus e de sua dinâmica expressam-se através de uma das pessoas, mesmo não sendo, a rigor, próprio de uma delas. Alguns teólogos consideram que esta doutrina é artificial, porque faz associar a uma das Pessoas aquilo que não se pode afirmar que é dela, como os atos de inteligência à pessoa do Filho, ou os atos de amor ao Espírito Santo, quando, na verdade, Deus é inteligência e amor, de modo absoluto. Mas a realidade desta doutrina mora exatamente na indivisibilidade de Deus: não há um “deus unitário”, que age impessoalmente naquilo que envolve os atributos divinos não pessoais, e outro deus trinitário, que age pessoalmente naquilo que é próprio das Pessoas. Deus é um só, na sua Trindade. Natural, portanto, expressar o agir de Deus, mesmo quando envolve aspectos da sua essência, como apropriado a esta ou aquela Pessoa; trata-se, aqui, de reconhecer que Deus sempre age pessoalmente, nunca como uma “força impessoal e indivisa”, mas sempre como pessoa, ou melhor, como comunidade indivisa de pessoas. Deus não deixa de ser pessoal, ou melhor, tripessoal em sua unidade, e sempre age assim. Não há um “Deus essencial” que age impessoal e unitariamente, e um “Deus trindade” que age pessoalmente. Há apenas um Deus, é pessoal e é disto que a doutrina das apropriações tira sua força ao associar mais a uma pessoa cada aspecto da realidade divina.

Então o debate aqui é exatamente o de saber se a criação é um atributo pessoal, ou seja, se está exclusivamente ligado a uma das Pessoas divinas, e, caso positivo, qual Pessoa seria a exclusiva criadora. Ou se a atividade de criar é algo que pode ser apropriado a uma das Pessoas, ou se envolve todas as três, e como.

Para iniciar o debate, a hipótese controvertida proposta é a de que a criação é um atributo pessoal e exclusivo de uma das Pessoas da Trindade; uma das Pessoas, propõe a hipótese polêmica, é propriamente criadora, por si mesma; ou seja, criar não seria algo essencialmente próprio de Deus, ainda que apropriável pelas Pessoas (dada a pessoalidade do agir divino), mas seria algo intrinsecamente próprio de uma e de apenas uma das Pessoas em sua especificidade.

São três os argumentos que procuram dar razão a esta hipótese controvertida.

O primeiro argumento parte da ideia de que a processão das Pessoas divinas, no interior mesmo da Trindade, é a causa da processão das criaturas a partir do Criador. Ora, diz o argumento, a processão das Pessoas é anterior e mais perfeita do que a processão das Criaturas; as Pessoas procedem de modo perfeito, porque são iguais em substância e dignidade, enquanto as criaturas procedem de modo imperfeito, já que não têm natureza divina nem são semelhantes de modo perfeito a Deus. Mas a processão ocorre sempre de pessoa a pessoa: uma Pessoa procede de outra; portanto, a processão é algo propriamente e estritamente pessoal: é o Pai quem gera o Filho, eles juntos espiram o Amor. Ora, se a criação é uma processão, que tem como fundamento a processão das pessoas, então ela deve ser, igualmente, algo próprio de uma das Pessoas, e não efeito da própria essência divina comum.

O segundo argumento lembra que as Pessoas divinas têm tudo em comum, menos aquilo que se refere às suas processões e relações. Mas, de acordo com o Credo Niceno-Constantinopolitano, as Pessoas relacionam-se de modo diferente com a Criação: o Pai é confessado como criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, o Filho como “aquele por quem todas as coisas foram feitas” e o Espírito como “Senhor que dá a vida”. Isto indicaria que a relação das Pessoas com a criação é diferente, e, portanto, criar é próprio de uma das Pessoas, e não da essência divina comum.

O terceiro argumento objetor enfrenta a questão das apropriações, que já debatemos em outra oportunidade, e que pode ser descrita como a atribuição, a alguma das Pessoas, de alguma dimensão ou aspecto da divindade em sua essência, por ser mais adequada a aquela Pessoa, em razão das suas características. Assim, a inteligência é atributo da essência divina comum, mas é apropriada ao Filho, verbo de Deus, como o amor é essencial em Deus, mas é apropriada ao Espírito Santo, em razão da sua processão como Amor desde o Pai e o Filho. Ora, diz o argumento, não seria suficiente nem adequado dizer que a criação é causada pelo poder da essência divina, e em seguida apropriada a alguma das Pessoas; neste caso, teríamos que admitir que a criação é efeito cuja causa é Deus, e portanto, não poderíamos diferenciar o modo pelo qual cada pessoa se relaciona com a criação, e teríamos que admitir que elas participam de modo indiferenciado e genérico da criação, causando-a do mesmo modo. Se, por outro lado, admitíssemos que as Pessoas se relacionam de modo diferente com a criação, seríamos forçados a admitir que criar é próprio da Pessoa, porque tudo o que se refere às relações, em Deus, é próprio das Pessoas. Assim, o argumento conclui que, se afirmarmos que criar é efeito cuja causa está na própria essência divina, não podemos distinguir nenhuma relação especial entre as Pessoa e a criação. Mas se pudermos distinguir alguma relação especial entre as Pessoas e a criação, então temos que admitir que criar é próprio da Pessoa, e não uma simples apropriação.

Como argumento contrário, resgata-se, como sed contra, uma citação de Dionísio Pseudo-Areopagita, que afirma que, sempre que falamos em causalidade divina, temos que atribuí-la a Deus em sua unidade essencial. É Deus, o único Deus todo-poderoso, quem causa.

Não há questão trinitária fácil. Por um lado, não há como escamotear o fato de que há apenas um Deus, que nos criou. Por outro, tampouco podemos esquecer que a criação é um transbordamento da Trindade, uma difusão do amor divino que faz proceder como não divino aquilo que é chamado a participar da existência e do amor de Deus, e este amor é trinitário. A Trindade, em sua estrutura manente, neste sentido, é causa da criação, porque a explica. Como harmonizar isto, eis o que veremos no próximo texto.