Nos artigos anteriores desta questão, havíamos debatido sobre a noção de criação, seu objeto próprio e seu sujeito passivo. Agora, neste artigo, o debate é sobre o sujeito ativo da criação. Considerando da noção de criação como aquela de fazer com que, do nada, algo seja, será que criar é um poder privativo de Deus? Será que alguma criatura poderia também criar?
São Tomás vai iniciar lembrando que o simples exame da noção de “criar” já é capaz de nos fazer concluir que criar é algo exclusivo de Deus. De fato, já sabemos que dizer que uma coisa “é” é a coisa mais fundamental que se pode dizer de qualquer ente, e é a única afirmação que pode ser compartilhada por qualquer ente. Vale dizer, o “ser” é aquilo que há de mais fundamental, de mais comum, dentre tudo o que existe. O ser um ente, portanto, é o que de mais fundamental e genérico se pode dizer de tudo o que há. É a única circunstância que une todas as coisas, visíveis e invisíveis. E é que as fundamenta como ente: nada há de mais fundamental do que ser. Ora, se o ser é o efeito mais fundamental, mais comum, mais elementar e mais unificante de tudo o que há nos entes, quanto à sua existência, claro está que nada daquilo que compartilha este ser pode ser o fundamento dele. Aquilo que pode entrar e sair da existência não explica o seu próprio ser, nem o ser das outras coisas, somente aquilo cujo ser é a sua própria essência. Assim, diz Tomás, somente Deus, sendo o ser por essência, pode ser a causa da existência de tudo aquilo que recebe de outro o ser. Citando, então, o “Livro das Causas”, São Tomás nos diz que o ser não é recebido da inteligência, nem da alma mais nobre, mas apenas do próprio ser, ou seja, da ação divina. Vale dizer, o mundo não é o resultado de um pensamento elevadíssimo, nem sequer de um querer puríssimo, mas do fazer divino, que pode fazer ser, pode dar o ser, porque é o próprio ser. Ora, diz Tomás, fazer ser, no sentido mais geral e mais profundo, mais comum e mais fundamental, é exatamente criar. Não se trata de gerar ou produzir este ou aquele ente, mas fazer ser. Isto, diz Tomás, é próprio e exclusivo de Deus.
Mas será que as outras coisas (as criaturas mais elevadas, por exemplo) não poderiam criar por participação no poder de Deus? Alguns, diz Tomás, pensaram que o poder de criar poderia ser participado por alguma criatura, de maneira análoga àquela pela qual uma barra de metal pode ser aquecida ao fogo e, embora não esteja ela mesma pegando fogo, pode queimar alguém que a toque. Assim, diz Tomás, Avicena ensinava que Deus criaria a substância primeira, e esta criaria a estrutura do universo, que por sua vez criaria a matéria dos entes individuais.
Esta forma de pensar não está longe daquela de alguns cientistas contemporâneos, que imaginam que a criação se resume ao big bang, mas que o ser das coisas individuais se explica completamente por forças intramundanas. Em boa parte das filosofias centificistas de hoje, todos os entes que encontramos são vistos como se fossem apenas a expressão de uma organização acidental de partículas fundamentais, átomos e moléculas que se organizaram por evolução ao longo das eras do universo, e portanto o seu ser não precisaria de uma explicação teológica além da explicação do ser das próprias partículas fundamentais que se organizam e desorganizam para constituir esta ou aquela coisa. Ou do pensamento hegeliano, que deduz a criação da dialética entre Deus e aquilo que não é Deus. Também o chamado “Mestre das Sentenças” (Pedro Lombardo, por cujos livros os teólogos daquela época estudavam) defendia que Deus poderia delegar a uma criatura mais elevada o poder de criar um ser inferior.
São Tomás passa a estudar, então, as chamadas causas instrumentais, ou seja, aqueles meios que nós usamos para atingir, ou mesmo para atingir mais facilmente, os nossos fins. Estes instrumentos, diz Tomás, têm que ter em si mesmos a capacidade de realizar o trabalho que deles esperamos. Um machado é capaz de lascar a madeira, e é por isto que o lenhador usa um machado para cortar uma árvore, e não, digamos, um pente.
Assim, um ser que fosse usado como instrumento para dar o ser a outra coisa, tirando-a do nada, teria que ter em si mesmo a capacidade de dar o ser de modo absoluto. Caso contrário, tentar usá-lo para criar outra coisa seria tão ineficaz quanto seria para um lenhador usar uma barra de manteiga para cortar madeira.
Assim, São Tomás prova que criar é próprio e exclusivo de Deus, e que seria totalmente impensável imaginar que qualquer criatura pudesse criar, quer por força própria, quer mesmo por delegação ou como instrumento divino.
E se isto é impensável para seres espirituais, como os anjos, muito mais impensável seria para seres corporais, como nós, humanos. Tudo aquilo que fazemos fora de nós mesmos, diz Tomás, pressupõe sempre que estejamos em contato com aquilo que desejamos modificar, de modo a poder tocá-lo ou alterá-lo. Ora, não podemos entrar em contato com o nada, nem tocá-lo, nem alterá-lo; logo, criar, entendido como fazer algo do nada, é uma ação completamente impensável para um ser material. E isto não se modifica, dizemos nós, nem sequer na era virtual que vivemos: ainda assim, mesmo no mundo virtual, precisamos que algo nos seja dado, nos seja comunicado, para que possa ser transformado em alguma outra coisa. Criar, no sentido teológico, continua sendo prerrogativa divina.
Colocados os termos de sua resposta sintetizadora, São Tomás passa a enfrentar as objeções iniciais.
A primeira objeção diz que os seres materiais são capazes de gerar outras semelhantes a si, e portanto os seres espirituais, sendo mais perfeitos que os materiais, devem ser capazes de gerar também. Mas a geração material pressupõe a matéria, enquanto a geração de seres espirituais não a pode pressupor; logo, conclui o argumento, os seres espirituais são capazes de gerar algo do nada.
Mas não é assim, diz Tomás. De fato, diz ele, a capacidade de geração, entre os seres materiais, é uma marca de completude, de maturidade, de perfeição. Mas a geração material sempre pressupõe algo, a matéria, porque os seres são capazes de transmitir a sua espécie, mas não a própria existência a partir do nada; os seres materiais não são capazes de gerar a própria espécie, mas apenas mais um espécime da própria espécie à qual pertencem. E isto é fácil de explicar: se eles fossem capazes de gerar a própria espécie, seriam capazes de gerar a si mesmos, porque cada ser material é uma expressão da própria espécie – que, portanto, tem que preceder a eles na existência para que eles próprios existam. Mas nenhum ser é capaz de gerar a si mesmo, porque para gerar é preciso existir, e ninguém pode preexistir a si mesmo.
No caso dos anjos, diz Tomás, eles não transmitem a espécie a ninguém, porque não são individuados pela matéria. Anjos são uma inteligência que existe, e, do mesmo modo que os seres materiais, eles não podem dar-se a existência, porque não podem existir antes de existir. Mas podem transmitir a inteligência, iluminando outros anjos menos perfeitos. Assim, a geração angelical pressupõe que os anjos existam, mas de certa forma o mais elevado gera, no menos elevado, a inteligência que o aperfeiçoa no ser. A geração angelical, portanto, pressupõe a preexistência do gerado e a transmissão da inteligência do gerador para o gerado. É neste sentido, pois, que pode haver paternidade nos seres angelicais, como menciona São Paulo na Carta aos Efésios, 3, 15. Mas nem mesmo os anjos poderiam fazer com que outros anos passem a existir a partir do nada. Só Deus pode fazer isto.
O segundo argumento parte da ideia de que o contrário é mais distante de alguma coisa do que o nada. Mas as criaturas conseguem levar as coisas do seu contrário até o seu ato; logo, poderiam também levar do nada ao ser. Logo, as criaturas, diz o argumento, poderiam criar.
São Tomás afirma que este raciocínio é equivocado. De fato, diz ele, a situação contrária provoca maior resistência para levar a coisa da potência ao ato. Pensemos na água no estado líquido, diz Tomás. O agente que quiser levá-la a transformar-se em vapor a partir do estado líquido vai encontrar pouca resistência na água. Mas se o agente quer levar a água congelada, ou seja, em estado sólido, a transformar-se em vapor vai encontrar muito mais resistência e usar muito mais energia, já que no estado sólido a água está numa situação de baixa energia, baixa temperatura, contrária àquela em que está quando está em forma gasosa – quando está numa situação de alta energia. Mas, neste caso, estamos lidando com um objeto que tem em si a potencialidade de ser sólido, líquido ou gasoso. È claro que, quanto maior a distância, em termos de temperatura, entre uma e outra situação, mais poder o agente deve empregar para gerar a mudança de estado. No caso de fazer algo do nada, a situação é muito diferente. Uma vez que do nada, nada surge, a situação a lidar, aqui, é aquela em que não há objeto, e, portanto, não há nenhuma potencialidade para ser isto ou aquilo. Portanto, o poder necessário para fazer algo do nada é simplesmente o poder infinito.
Por fim, o terceiro argumento pondera que o poder do agente se manifesta naquilo que ele faz. Mas as coisas criadas são finitas, logo não seria necessário um agente de poder infinito para criá-las. Assim, o argumento conclui que uma criatura poderia criar.
Mas não é assim, diz Tomás. O poder do agente se manifesta, na sua ação, sob dois aspectos: o modo de agir e o resultado da ação. Tanto uma pequena chama quanto uma fornalha são capazes de aquecer uma barra de ferro; mas a fornalha a aquecerá mais, e mais rapidamente. Por isto, diz Tomás, não é só pelo resultado da criação, que é a existência de um universo finito e criaturas finitas, que se mede o poder necessário para criá-lo. O poder para fazer algo também se mede pelo modo com que é feito; e tanto mais longe esteja a potência do ato, tato mais poder o agente tem que demonstrar, para atingir o seu objetivo. Por isto, criar, ou seja, fazer algo do nada, depende de poder infinito, não porque resulta em algo infinito, mas porque gera resultado a partir do nada. Para compreender melhor, pode-se pensar numa analogia: qualquer cozinheiro é capaz de fazer um excelente prato, se tiver alguma habilidade e dispuser dos melhores ingredientes. Um ótimo cozinheiro poderia fazer um prato excelente a partir de poucos ingredientes; um cozinheiro excepcional faria um prato excelente com pouquíssimos ingredientes ordinários. Mas só um cozinheiro com poder infinito seria capaz de fazer um banquete a partir do nada.
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