Existem correntes religiosas, até mesmo dentro do cristianismo antigo, que narra hierarquias de “deuses” criadores, atribuindo aos deuses mais baixos a criação do mundo material, que “aprisiona” em si a espiritualidade dos deuses mais elevados. Estas fábulas e narrativas têm uma raiz gnóstica, e tendem a desvalorizar o mundo material e a corporeidade, além de tentar convencer ao ouvintes de que nós seríamos, na verdade, deuses presos em corpos materiais.
Esta é a preocupação de São Tomás, no presente artigo. Admitir que algum outro ser além de Deus pode, de algum modo, ser criador também, significa que nem tudo aquilo que é criado teria o mesmo grau de dignidade. Mas se apenas Deus, o único Deus verdadeiro, único e onipotente, é criador, então tudo o que existe é obra de suas mãos infinitamente boas e goza de igual dignidade na bondade de origem. Não há “coisas de primeira ordem”, criadas por Deus, e coisas de “segunda ordem” criadas por algum ser inferior. Trata-se, pois, de discussão importantíssima.
Para provocar o debate, o artigo propõe a seguinte hipótese controvertida: parece que criar, no sentido teológico próprio (tirar algo do nada), não é privativo de Deus. Em suma, a hipótese controvertida propõe que criar não seria algo privativo de Deus.
O primeiro argumento objetor afirma que as coisas mais perfeitas são aquelas que são capazes de gerar algo igual a si mesmo. Tanto é assim que apenas após atingir a maturidade corporal é que os seres vivos podem reproduzir-se. Portanto, a capacidade de reprodução é indicador de que o ser atingiu a sua perfeição existencial. Ora, prossegue o argumento, os seres materiais geram outros seres materiais iguais a si, a partir dos materiais reprodutivos preexistentes. Mas os seres espirituais, ou seja, os anjos, são ainda mais perfeitos que os seres materiais, mesmo os seres materiais inteligentes como os humanos. É de se admitir, portanto, que eles tenham ainda mais perfeições que nós. Ora, se, em nós, gerar é uma perfeição, os anjos devem tê-la também, porque, sendo mais perfeitos do que nós, não poderiam deixar de ter perfeições em grau pelo menos igual ãs que temos. Mas os anjos são imateriais, logo a geração neles não pode pressupor algum material reprodutivo. Ora, neste caso, temos que admitir que eles geram novos anjos a partir do nada! Ora, conclui o argumento, gerar do nada é exatamente a definição de “criar”. Portanto, conclui, Deus não é o único a criar; há criaturas, conclui, que também têm tal poder.
 o segundo argumento parte da ideia de que quem pode o mais, pode o menos. Ora, diz o argumento, partir do contrário para chegar em algum lugar é caminhar mais do que partir do nada; basta imaginar que a distância entre o número dois negativo (-2) e o número dois positivo (+2) é maior do que a distância entre o zero e o dois. Logo, fazer alguma coisa a partir do seu contrário é mais difícil do que fazer a partir do nada. Mas as criaturas são capazes de fazer coisas a partir do seu contrário; de algo escuro fazer algo claro, de algo elevado fazer algo profundo, de algo gelado fazer algo escaldante e assim por diante. Ora, conclui o argumento, se de um contrário as criaturas conseguem chegar ao outro, com muito mais razão deveríamos admitir que elas são capazes de sair do nada e chegar em algo. Uma vez que sair do nada e chegar em algo é exatamente o conceito de criação, o argumento conclui que criar não é atributo exclusivo de Deus.
 o terceiro argumento afirma que o poder de quem faz alguma coisa é determinado pela medida daquilo que é feito, ou seja, que resulta do seu agir. Ora, diz o argumento, todas as criaturas são limitadas, finitas. Logo, o poder necessário para criá-las deve ser finito também. Assim, conclui o argumento, não é necessário ser Deus, com seu poder infinito, para criar algo do nada; uma criatura, com poder finito, poderia criar algo finito também.
O argumento sed contra recorre à autoridade de Santo Agostinho, que afirma que “nem os anjos bons, nem os maus, poderiam criar alguma coisa”. Logo, conclui o argumento, muito menos poderiam outros seres menos perfeitos que os anjos.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.