No texto anterior, vimos como a noção de criatura traz uma grande tentação: aplicá-la ao conjunto dos seres, ao ser em si, às formas, e até mesmo à matéria-prima, mas não aos entes, às coisas concretas em sua individualidade existencial. Mas Tomás não vai nos permitir nenhuma saída idealista, platônica, aqui, nem mesmo a ideia de que a criação seria uma espécie de primeiro ato existencial, um big bang, ou o peteleco que deu origem a um universo que, desde então, independe de Deus. Tampouco seria inimaginável para Tomás que alguém defendesse que Deus fez os ingredientes, os elementos, ou mesmo alguma partícula fundamental, e desde então as próprias forças e leis do universo seriam responsáveis por tudo quanto existe. Neste caso, teríamos que afirmar que apenas esta partícula fundamental – que Tomás chamava simplesmente de matéria-prima – seria substancial. Todas as outras coisas, inclusive nós humanos, seriam apenas formas acidentais, arrumações casuais das partículas fundamentais cujo sucesso dependeria de passar ou não no teste da evolução. Estas partículas fundamentais, no fim das contas, seriam as únicas coisas que Deus criou diretamente, ou que decorreriam diretamente do Big Bang ou qualquer outro nome que se possa dar ao suposto peteleco inicial. Nada disso convence Tomás.
Deus criou as coisas que estão ao nosso redor. Todos os seres que são substanciais, ou seja, que existem em razão de uma forma substancial, foram concebidos e criados por Deus. Não podemos nos deixar levar pelo fato de que Deus se vale de causas segundas, ou seja, do próprio poder de causalidade das coisas criadas, para governar o universo. Cada coisa que existe, que é substância e não acidente, foi, por primeiro, concebida na mente de Deus e recebeu de sua vontade o beneplácito da existência.
Assim, quer as chamadas substâncias simples (aquelas que não têm a matéria na estrutura do seu ser, como os anjos) quanto as coisas materiais em geral (minerais, vegetais, animais, nós), são seres subsistentes, isto é, existem, por uma existência recebida diretamente de Deus, em suas formas substanciais por ele concebidas. São propriamente criaturas, portanto. Chamamos, pois, de criaturas, propriamente, as coisas substanciais que efetivamente existem no universo. Não é que o universo seja criatural porque houve um Big Bang inicial, ou porque Deus criou uma partícula fundamental que vai evoluindo até formas as coisas. Cada ser, cada coisa que existe em si como substância, é plenamente criatura.
Portanto, é preciso ter muito cuidado: as formas, a matéria, os acidentes, tudo isto não é propriamente ente, ou seja, não é propriamente criatura. Se um pássaro é branco, não é que Deus tenha criado a brancura e depois as forças evolutivas tenham determinado que, naquela espécie de pássaros, a brancura seria mais apropriada para a sobrevivência. O próprio pássaro é a criatura; o branco é um acidente, que faz parte daquilo que o pássaro é. O pássaro, diz Tomás, foi criado; a sua brancura, a sua matéria-prima, a sua forma, de tudo isto podemos dizer mais propriamente que foi concriado com o pássaro.
Havendo colocado os critérios para resolver o debate, Tomás passará a examinar as objeções iniciais.
A primeira objeção cita o Livro das Causas, no qual está dito: “a primeira criatura é o Ser”. Ora, se o Ser é a criatura fundamental, temos que admitir que todas as coisas materiais hoje são, amanhã não existem mais; logo, o ser delas é contingente, passageiro. Logo, conclui o argumento, não se poderia chamar propriamente de criaturas essas coisas materiais e contingentes.
Há aqui um equívoco, diz Tomás. Quando afirmamos que a primeira das coisas criadas é o ser, não queremos dizer que o próprio ser total do universo é uma coisa. Trata-se de explicar que a primeira razão, a característica mais fundamental da criação é o fazer ser, ou seja, trazer à existência, a partir do nada, aquilo que antes não existia. Ou seja, algo é criatura porque existe, quer dizer, o ser, o existir, o ter sido chamado do nada para o ser, é a primeira e mais fundamental característica da criaturalidade. Não significa, porém, que o próprio ser total da criação seria a criatura mais fundamental. Criaturas são as coisas. Seria análogo, diz Tomás, a afirmar que a razão própria da visão é a luz em seus diversos comprimentos de onda; no entanto, enxergar não é simplesmente ver cores iluminadas, mas ver coisas. Esta concretude de Tomás nos mantém longe de qualquer idealismo. São as coisas que existem, são as coisas que são criaturas, são as coisas que enxergamos, e não alguma abstração como o ser geral, a partícula fundamental ou os comprimentos de onda.
O segundo argumento diz que criar é tirar do nada. Mas as coisas com que nos deparamos no universo, na nossa vida cotidiana, não são tiradas do nada; se são vivas, são resultado de reprodução, e se são inanimadas, passam por muitos ciclos de destruição e recomposição para serem o que são agora. Assim, as coisas concretas com que nos deparamos não podem ser chamadas propriamente de criaturas, diz o argumento.
É preciso ter muito cuidado com a noção de criação, lembra Tomás em sua resposta. Criação não significa a composição da coisa a partir dos seus princípios e componentes preexistentes. Isto é geração ou reprodução. A coisa é criatura porque existe como ente juntamente com todos os seus componentes e elementos. Exatamente porque existe, como substância, ela é criatura, não porque foi gerada ou reproduzida. A criação está, pois, no mais profundo do seu ser.
A última objeção lembra que todas as coisas artificiais são feitas de alguma substância natural, e portanto não são criaturas, mas artefatos. Mas as coisas naturais, por outro lado, são feitas de matéria-prima, e portanto também são feitas de alguma coisa, e não retiradas do nada. Logo, conclui o argumento, apenas a matéria-prima poderia ser chamada propriamente de criatura, pois, se criar é tirar do nada, a rigor só ela não pressupõe nada para existir.
Isto é péssima lógica, diz Tomás em resposta. Este raciocínio permite concluir que a matéria-prima é criada – ou melhor, concriada, como vimos acima. Mas não permite deduzir que só ela, e mais nada, é criatura. Na verdade, criar é fazer existir a partir do nada; e o que existe são os entes, não a matéria-prima como tal, ou as formas, ou os acidentes em estado puro. Deus cria, tirando do nada, aquilo que é.
Deixe um comentário