Como nos demais debates que provocamos a partir da Suma Teológica, levantaremos aqui questões que soarão anacrônicas, porque o próprio Tomás nunca se deparou com elas. Mas foi isto que o próprio Tomás fez com Aristóteles: trouxe o instrumental aristotélico para debates com os quais o próprio Aristóteles não só nunca imaginou que existiriam, como não havia concebido seu sistema para resolver tais problemas. Manter Aristóteles vivo é propor a ele questões assim. Respeitar a metodologia de Tomás, muito mais do que transformar seu pensamento em peça fossilizada e imutável de museu, é dialogar com ele com o mesmo método com que ele dialogou com os grandes pensadores do passado com quem se deparou. É o que tentamos fazer aqui: se esta Catedral de Tomás, que é a Suma Teológica tem algum valor para nós, é porque ainda podemos encontrar nela abrigo, segurança e respostas válidas e adequadas. Se ela for algo para ver e admirar como peça de museu, então não vale nada.
Pensando, então, como um habitante do século XXI, não é difícil imaginar o big bang como criação, nem é difícil encontrar quem defenda que ele é a prova científica de que a criação ocorreu como a Bíblia descreve. O problema de tentar conciliar a Bíblia com a ciência, no entanto, dá-se pelo próprio fato de que o conhecimento científico é superável por definição. Ou seja, quem tenta harmonizar a Bíblia com a ciência através da identificação entre relatos bíblicos e paradigmas científicos, amarrando a Bíblia na ciência, corre o risco de ver o paradigma científico ser superado e levar com ele, de roldão, a própria Bíblia.
Assim, imaginar que a criação pode ser visualizada como o big bang é compreender mal tanto o big bang quanto a noção de criação. E este artigo de São Tomás é muito interessante para que possamos evitar este erro.
Como já vimos em textos anteriores, a noção de criação como fazer algo do nada pode nos induzir a imaginar que a criação limita-se àquele primeiro momento da história natural, em que algo foi tirado do nada; tudo o mais surgiria como desdobramento, como processo evolutivo, como combinação de partículas ou processo de seleção natural. Para quem pensa assim, é como se a criação, no seu sentido teológico, fosse um dos processos de geração, concorrente com os processos de geração que vemos na natureza ou no engenho humano. As coisas podem ser resultado de processos naturais como as reações químicas ou a reprodução de seres vivos, ou podem ser resultado do engenho humano. Quando nem o engenho humano nem os processos naturais são capazes de explicar a existência de determinado fenômeno, concede-se que ele resulta do agir de Deus. Mas isto e má teologia, e pior ciência. Não há concorrência entre a causalidade divina e a causalidade natural, e muito menos entre a causalidade humana e a divina. Na verdade, tanto a causalidade natural quanto a humana são reais, mas secundárias: elas existem, em última instância, porque Deus lhas criou. E em última instância Deus se vale delas para os seus próprios fins.
Para quem tem dificuldade em distinguir entre os níveis de causalidade, parece, então, que fazer algo do nada descreve o big bang, o primeiro momento da criação, e, se o universo como um todo pode, sem dúvida, ser chamado de criatura, neste contexto, seria muito difícil admitir que as coisas individuais, que têm sua existência explicada por processos naturais ou humanos, pudessem ser consideradas como tais. Para estes, Se o universo pode ser dito criatural no seu todo, por ter vindo à existência desde o nada, todas as outras coisas, individualmente consideradas, não o seriam. As coisas individuais podem ser explicadas a partir de sua estrutura, quer sua estrutura material (moléculas, átomos, órgãos, partes, etc.), ou pela sua estrutura formal (espécie, gênero, categoria, classificação, etc.). Mas para os que pensam assim, apenas esta conjunção das partes na composição é que explica as coisas no ser, não o seu surgimento desde o nada; mesmo porque, dizem, tais coisas não surgem do nada.
É exatamente esta a hipótese controvertida proposta no presente artigo, para provocar o debate: parece que as coisas individuais, com sua estrutura composta e a sua consistência existencial com os processos naturais, não podem ser chamadas propriamente de criaturas. São três os argumentos objetores aqui.
O primeiro argumento sustenta que o famoso “Livro das Causas” afirma que a criação consiste fundamentalmente em fazer ser. Esta obra diz textualmente que o ser é a criação fundamental. Mas as coisas, individualmente consideradas, não são subsistentes no ser, quer dizer, existem hoje e amanhã já não existem, sem que isto tenha influência no ser da criação como um todo. Assim, a condição de criatura é propriamente atribuída ao ser do universo, que é consistente e subsiste ao desaparecimento das coisas individuais, mas não às próprias coisas individualmente consideradas em sua contingência. É um argumento quase hegeliano, de sabor fortemente idealista, que tende a tomar o todo universal da criação como mais real do que as coisas individualmente consideradas. E desta consideração o argumento conclui que as coisas, individualmente consideradas, não podem ser propriamente chamadas de criaturas.
O segundo argumento é mais direto: criado é aquilo que é proveniente do nada. Mas as coisas individuais, com sua estrutura composta, diz o argumento, não são provenientes do nada, mas podem ser explicadas, m toda sua causalidade originante, a partir de seus componentes – suas causas originadoras são perfeitamente explicáveis pela ciência humana. Logo, conclui, estes seres não poderiam ser propriamente chamados de criaturas.
O terceiro argumento parte da ideia de que cada camada de transformação pressupõe aquilo que foi produzido na camada anterior. Assim, a causalidade humana, toda arte, todo artesanato, toda tecnologia, pressupõe a utilização de insumos naturais, como minérios, madeira, água, produtos animais, etc. Portanto, a causalidade humana pressupõe a causalidade natural. Por sua vez, a causalidade natural, todos os processos naturais de reprodução, geração, petrificação, sedimentação, fossilização, etc., pressupõe a subsistência da matéria-prima que é transformada nesses processos – rochas cristalinas transformam-se em sedimentares, restos orgânicos transformam-se em fósseis, e assim por diante, mas a matéria que subjaz a estes seres permanece constante nessas transformações. Resta, portanto, admitir que a matéria-prima não tem explicação para existir, conclui o argumento, sendo, assim, a primeira camada sobra a qual todas as transformações subsequentes existem, mas ela própria não resulta de transformação. Este argumento poderia ser visto, hoje em dia, naquelas correntes da ciência que buscam a chamada “partícula fundamental do Universo”, que explica todas as outras mas não é explicada por nenhuma outra. Nesta linha, o argumento afirma que só a matéria-prima, ou a tal “partícula fundamental” que a física moderna busca, pode ser chamada propriamente de criatura.
O argumento sed contra é teológico; parte do primeiro versículo da Bíblia (Gen 1, 1): no princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, não se diz que Deus criou o conjunto do Cosmos, ou mesmo alguma partícula fundamental, ou que ele tenha provocado algum big bang. Portanto, o argumento conclui que a noção de criação não é uma noção concorrente com as transformações naturais ou humanas, mas algo muito fundamental, que se estende a todas e a cada uma das coisas que existem.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.
Deixe um comentário