Já vimos, no texto anterior, qual a noção de “criar” com a qual estamos trabalhando: trata-se de originar alguma coisa do nada. (Há um filósofo, especificamente Leibniz, que considera esta a pergunta mais importante a ser feita: por que há alguma coisa e não o nada?)
Em todo caso, estabelecido que, quando falamos em “criar”, falamos em originar alguma coisa do nada, o debate avança, aqui, mais um passo. Se criar é originar alguma coisa do nada, poderíamos afirmar que “Deus cria”? Em que sentido seria válido, racionalmente, afirmar que Deus pode originar alguma coisa do nada?
E a hipótese controvertida, proposta para estimular o debate, aqui, é exatamente a de que Deus não poderia originar alguma coisa do nada, ou seja, a noção de “criar” não poderia descrever alguma ação divina. São quatro, aqui, os argumentos objetores no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento objetor parte da noção filosófica de que “do nada, nada surge”. O argumento afirma que esta é uma noção que o senso comum filosófico admitiu como um verdadeiro princípio metafísico, registrado por Aristóteles na “Física”. Ora, prossegue o argumento, Deus não poderia violar os primeiros princípios sem incidir em contradição; ele não poderia, por exemplo, fazer com que o todo fosse menor que suas partes, ou que alguma coisa fosse simultaneamente verdadeira e falsa sob o mesmo aspecto. Assim, conclui o argumento, Deus tampouco poderia fazer alguma coisa do nada sem contradizer um princípio fundamental.
O segundo argumento parte da ideia de que a ideia de originar sempre envolve mudança, sempre envolve um vir a ser. Algo que não é virá a ser em razão desse processo. Mas o processo de mudança sempre pressupõe um sujeito que é mudado, já que a mudança é um processo que transforma em ato aquilo que existe em alguma coisa como potência. Ora, a noção de criar enquadra-se no conceito de mudança, é um modo de mudança. Logo, conclui o argumento, a criação deve incidir sobre algum sujeito a ser mudado; o nada não é um sujeito, e portanto seria impossível, mesmo para Deus, que se criasse alguma coisa do nada.
O terceiro argumento vai na mesma linha. Tudo o que existe, diz o argumento, passa a existir a partir da possibilidade de existir. Entre o fazer-se e o existir, portanto, há um processo de vir a ser e de ser, que não se podem confundir; ou algo está sendo feito ou já existe, e não se pode imaginar que algo que existe esteja ao mesmo tempo sendo feito, ou que algo que está sendo feito já exista. Assim, há sempre um vir a ser, um estar-se fazendo, que precede aquilo que já é como a possibilidade precede a própria existência de alguma coisa. Assim, seria impossível, mesmo para Deus, conclui o argumento, fazer algo do nada.
Por fim, o quarto argumento objetor afirma que um processo infinito seria como um caminho infinito. Ninguém pode alcançar o final de uma estrada infinita. Ora, diz o argumento, a distância entre o nada e alguma coisa é simplesmente infinita. No entanto, as criaturas de fato existem, o que comprova que este processo de criação foi de fato percorrido e concluído. Mas se o ponto de partida fosse o nada, essa distância seria infinita e este processo não poderia jamais chegar ao fim. Logo, o argumento conclui que nem Deus poderia criar algo do nada.
O argumento cita o mesmo versículo do argumento sed contra do artigo anterior, Gênesis 1,1 : “No princípio Deus criou o céu e a terra”. Ora, se isto ocorreu no princípio, então não pressupôs nada. Dai a autoridade da Bíblia nos indica, diz este argumento contrário, que Deus cria as coisas do nada.
Postos os termos do debate, São Tomás passa a nos apresentar sua própria resposta sintetizadora.
Não somente não é impossível que Deus origine alguma coisa do nada, diz Tomás, como é necessário admitir que este verbo “criar”, descrevendo esta noção de fazer com que algo se origine do nada, aplica-se somente a Deus e à sua relação com a universalidade da criação.
Se alguém, algum agente individual, faz alguma coisa a partir de outra, diz Tomás, aquela coisa que serve como ponto de partida para a outra é pressuposta pela atividade do agente particular, e, portanto, não foi produzida por ele, mas foi apenas encontrada e assumida em seu fazer, de modo a originar algo novo. Assim, o artesão que entalha a madeira encontra a madeira na natureza, como o castor a encontra para fazer suas barragens aquáticas.
Assim, o artesão pressupõe, em seu agir, as coisas naturais.
Por sua vez, a natureza pressupõe, para as coisas que gera, que haja a matéria necessária e suficiente para que a nova coisa surja. Este princípio seria enunciado pelo químico Antoine Lavoisier (1743-1794), nos seguintes termos: “na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Vale dizer, a natureza conserva a matéria, mas altera as formas, de modo a fazer, pela corrupção substancial de alguma coisa, que uma outra coisa seja gerada.
Se a ação de Deus, como princípio fundamental da própria natureza, precisasse que alguma coisa precedesse a criação, esta “alguma coisa” precedente seria estranha ao próprio Deus e, portanto, não teria sido causado por ele. Neste caso, ele já não seria o princípio fundamenta do ser, porque alguma coisa teria precedido o seu agir criador e portanto não teria vindo dele. Mas na questão 44, que nos já estudamos por aqui, já ficou bem estabelecido que Deus, sendo o princípio absoluto e o fundamento do ser de todas as coisas, antecede todas as coisas no ser. Por isto, é forçoso admitir que Deus cria do nada; e mais, que só Deus cria do nada.
Estabelecidos assim os princípios, São Tomás passa a enfrentar as objeções iniciais.
A primeira objeção lembra que os filósofos são unânimes em defender que há um princípio universal que reza que “do nada, nada surge”. Assim, nem Deus poderia fazer surgir alguma coisa do nada, diz o argumento.
São Tomás diz que este princípio existe e é válido, mas ele diz respeito ao surgimento de coisas particulares a partir de causas particulares, porque foi somente este tipo de origem que os filósofos consideraram quando estabeleceram este princípio. Neste caso, como vimos na resposta sintetizadora, sempre se pressupõe a existência de alguma coisa, quando algo particular é originado de algo particular. Mas isto não se aplica à criação, que é o surgimento da universalidade das coisas a partir da sua causa fundamental e universal que é Deus.
O segundo argumento objetor diz que chamar o ato de criação de “mudança” é impreciso, e decorre da nossa forma limitada de entender as coisas divinas e de usar a analogia para falar delas. De fato, diz Tomás, a gente concebe a criação dentro da categoria da mudança porque é uma forma mais fácil para compreendê-la, mas temos que tomar os devidos cuidados. É próprio da mudança que ela faça alguma coisa sr diferente, agora, do que era antes. Isto pode dar-se tanto pela alteração em algum acidente da coisa (digamos, uma mudança de cor, de tamanho, de posição), quanto pela destruição de uma coisa e geração de outra, a partir da matéria daquela que foi destruída, como no caso da madeira que é transformada em carvão; neste caso a mudança não é apenas acidental, mas verdadeiramente substancial; o sujeito (ou como diríamos na terminologia atual, o objeto) da mudança é a matéria, neste último caso. A matéria-prima, que, como vimos, é plenamente potencial para vir a ser qualquer coisa, para receber qualquer forma.
No caso da criação, a situação é bem diferente. Aqui, Deus origina, por seu agir, toda a substância da coisa, inclusive a matéria-prima que subjaz a ela. Neste caso, na nossa mente humana, pensamos em termo de mudança: ali onde havia um não-ente, há agora um ente. Mas é claro que não se trata, a rigor, de uma mudança. Porque não há um objeto a ser mudado, neste caso, que venha a sofrer a ação criadora.
São Tomás nos explica que, no processo de mudança, existe uma relação de atividade e passividade frente ao mesmo movimento: aquele que promove a mudança é o lado ativo desta relação, enquanto aquele que sofre a mudança está no lado passivo. Ora, no caso da criação, não se trata de um processo, porque não existe uma transformação em curso; excluído o processo, no entanto, fica a relação, e pode-se dizer que há, aí, criatura e criador. A criatura é aquilo que não existia antes e agora existe. O criador é aquele que a fez surgir do nada.
Uma vez que a noção de mudança sempre envolve um processo, São Tomás propõe que talvez ela não seja a mais adequada para compreender a criação. Ele propõe, então, que usemos a noção de fazer. A noção de fazer e de ser feito traz em si esta ideia da relação entre a causa e o efeito e vice-versa, entre o efeito e a causa, sem envolver aquela noção de processo que subjaz ao conceito de mudança. Ou, como diz Tomás, a noção de fazer, diferentemente da noção de mudar, implica causa e efeito sem envolver a ideia de processo, ou seja, de consequência.
O terceiro argumento segue na mesma ideia de que, na criação, existe algo que pode vir a ser e que de fato vem a ser. Assim, a possibilidade de vi a ser tem que existir, para que algo exista. Ora, diz o argumento, se algo é feito do nada, então esta etapa do vir-a-ser coincide com o próprio ser, o que seria contraditório, já que o que pode vir a ser não pode ao mesmo tempo ser, e o que já é não está mais na situação de vir a ser. Assim, o argumento conclui que seria impensável que Deus criasse do nada.
Mais uma vez, diz Tomás, o argumento pensa na criação em termos de processo, diz Tomás. Se o uso da concepção de mudança, como vimos na resposta anterior, torna inescapável pensar em termos de processo, já que toda mudança implica um processo, esta ideia de fazer-se não envolve necessariamente um processo, um movimento, porque algo pode fazer-se de modo instantâneo, tanto do lado passivo como do lado ativo. São Tomás dá como exemplo o acendimento de uma lâmpada, que instantaneamente ilumina e, no polo passivo, recebendo a luz, faz com que as coisas fiquem iluminadas. É claro que a física contemporânea comprovou que há um lapso, ainda que mínimo, entre o acendimento e o clareamento das coisas. É por isto que São Tomás traz ainda outro exemplo, a formação do verbo mental, no processo de aprendizagem. Entre a mente que aprende e concebe, por um lado, e o conceito assim formado, por outro, há um fazer-se recíproco e instantâneo, que talvez seja a analogia mais adequada para compreender a criação: entre o verbo divino que ordena fazer-se e o próprio surgimento da coisa não há processo, mas reciprocidade de ocorrência. Ou, como diz o Gênesis, 1, 3: “Deus disse: haja luz; e houve luz”. Não há espaço, não há distância, não há processo entre a palavra que Deus pronuncia chamando tudo à existência e este “passar a existir” do que antes não era. É o mesmo fato, é a mesma ocorrência, vista de dois pontos opostos.
Por fim, o quarto argumento afirma que entre o nada e o ser há uma distância infinita, e nem Deus pode chegar ao fim de uma estrada infinita. Mas as coisas existem, o que prova que seu existir é um caminho que pode ser percorrido. Logo, o argumento conclui que Deus não cria a partir do nada.
Em sua resposta, muito direta, São Tomás diz mais uma vez que trata-se do erro de tentar imaginar, de tentar ver a criação como um processo, fazendo uma analogia entre o criar e o caminhar. Mas a criação não é um processo, mas um ato de vontade divina. Não há um “momento médio” entre o ser e o nada, que tivesse que ser percorrido por Deus na criação. Trata-se de um simples “faça-se”, eficaz, completo, instantâneo. Que não deve ser imaginado por nós de modo processual.
É preciso, pois, compreender este “faça-se” de Deus como instantâneo, pleno e eficaz. Próprio de Deus. Não há a possibilidade de que uma criatura conjugasse o verbo “criar” colocando-se na condição de sujeito. Quer dizer, à exceção, talvez, do “faça-se” que um dia uma virgem de Israel pronunciou para um anjo. Mas isto seria uma história para outras tantas páginas.
Deixe um comentário