Na questão anterior, estudamos a criação do ponto de vista de sua causalidade, ou seja, de que modo podemos dizer que Deus é a causa fundamental e primeira da criação. Agora estudaremos a criação em si mesma, quanto ao modo pelo qual ela surge. Neste primeiro artigo o debate é sobre o que significa dizer que Deus cria do nada. Eis um conceito central para a visão cristã, que é a visão verdadeira, de que a criação, a partir do seu princípio absoluto que é Deus, significa fazer alguma coisa a partir do nada. É por isto que nenhuma noção de evolução jamais vai entrar em conflito com a ideia realmente cristã de criação; a evolução implica sempre algo, pressupõe sempre a existência de algo, e este algo caminha no sentido de tornar-se de algum modo melhor. A criação não pressupõe algo. É um ponto de partida absoluto. Nem entra em contradição com a ideia de que este algo, que passa a existir a partir do nada, possa evoluir, uma vez vindo a existir.

A hipótese controvertida aqui, proposta para estimular o debate, é a de que “criar“, no sentido teológico do termo, não consiste em fazer alguma coisa a partir do nada. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento traz uma citação de Santo Agostinho, em que o escritor sacro afirma que o verbo “fazer” significa produzir algo que antes era inexistente, enquanto “criar” designa a ação de transformar algo já existente em outra coisa. Logo, a partir da autoridade de Agostinho, o argumento conclui que “criar”, designando a ação de Deus, não significa tirar alguma coisa do nada.

O segundo argumento parte de um critério de classificação quanto à nobreza de uma ação. A nobreza de uma ação, diz o argumento, é tão maior quanto mais nobre e elevado for seu ponto de chegada, seu termo final. E o argumento prossegue, afirmando que uma ação que transforma uma coisa em outra é mais nobre do que uma ação que parte do nada e chega em alguma coisa, já que, no caso daquela ação que parte de algo para chegar em outra coisa há incidência sobre duas coisas, mas naquelas em que se parte de coisa nenhuma para chegar a alguma coisa há incidência sobre uma coisa só. Assim, conclui, a ação de Deus consistente em criar deve ser deste tipo de ação, a mais nobre possível, já que o que é divino deve ser sempre o mais nobre, e portanto o argumento conclui que criar não é fazer alguma coisa do nada.

O terceiro argumento objetor começa afirmando que a preposição “de” remete à causalidade material. Ou seja, quando dizemos que algo é feito “de” alguma coisa, referimo-nos à matéria que a compõe. Assim, se dizemos que aquela estátua é “de” bronze, queremos dizer que ela é feita de bronze, vale dizer, o bronze é a sua causa material. Ora, prossegue o argumento, se dizemos que algo é feito de nada, formamos uma proposição sem sentido, porque o nada não pode ser causa material de alguma coisa. Assim, conclui o argumento, seria sem sentido dizer que Deus criou do nada.

O argumento sed contra cita a glossa ordinária das Sagradas Escrituras; aquela coleção de observações dos Padres da Igreja e dos antigos estudiosos, sacerdotes e teólogos que, anotados às margens da Vulgata (Bíblia oficial católica), dirigia sua reta interpretação, com grande autoridade na Igreja. Assim, em Gênesis 1, 1 (“No princípio Deus criou o céu e a terra“), a Glosa ensina que “criar é fazer alguma coisa do nada“.

Postos os termos do debate, São Tomás passa a dar sua própria resposta sintetizadora.
O que debatemos aqui, diz Tomás, não é simplesmente o modo pelo qual um determinado ente em particular é produzido por um outro ente particular. Nosso debate vai além disso, e considera o modo pelo qual o conjunto completo dos entes, que se chama “universo” ou “criação“, procede da causa universal que é Deus. É este início radical, este fundamento universal do conjunto completo dos entes, que chamamos de criação no sentido próprio.

Quando examinamos o modo pelo qual as coisas particulares surgem, a própria ideia de que elas passam a existir pressupõe que elas sejam feitas daquilo que radicalmente não era elas. Ou seja, imaginemos a reprodução de um animal; digamos, de um cavalo. O criador tem dois animais, e quer ter três. A partir do encontro entre a égua e o garanhão, o cruzamento entre os dois determina que aquilo que era apenas um gameta masculino no garanhão e um gameta feminino na égua, encontrando-se, passe a ser um novo cavalo, que não existia. Ou ainda, imaginemos uma casa. Um terreno, uma pilha de tijolos e alguns sacos de cimento não são uma casa. Mas disso que não é uma casa o construtor, concebendo seu projeto, fará uma casa. É neste sentido que São Tomás nos ensina que, para que uma coisa particular se origine, pressupõe-se que ela surja daquilo que não era ela.

É assim que a própria noção de criação implica admitir que a existência universal das coisas, a criação como conjunto, pressuponha nada, ou seja, pressuponha o total não-ser. Então, falando analogicamente, do mesmo modo que o surgimento daquele potrinho pressupõe o não-potrinho, ou o surgimento da casa pressupõe que não havia casa, ou seja, a não-casa, o surgimento universal da criação, do “alguma coisa” universal, pressupõe a não-entidade, o nada.

Mas é preciso ter cuidado, como veremos a seguir, para não levar muito longe a analogia, e imaginar que, de modo análogo àquele pelo qual a origem da casa e do potrinho pressupõem que a não-casa e o não-potrinho sirvam de causa material ao novo ente (a casa ou o potrinho, no nosso exemplo), venhamos a imaginar que o nada seja a causa material da criação. Não é. Este raciocínio equivocado chama-se niilismo (que é a corrente filosófica que defende que, no fundo, tudo é nada, mera ilusão). São Tomás irá respondê-lo quando enfrentar a terceira objeção, abaixo.

Assim, postos os elementos da sua própria síntese, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor afirma que Santo Agostinho usava o verbo “criar” para designar uma mudança de algo inferior para superior, e o verbo “fazer” para designar a ação de originar alguma coisa a partir do nada. E da autoridade de Agostinho o argumento conclui que o verbo “criar” não pode designar a ação de originar alguma coisa a partir do nada.

Em sua resposta, São Tomás vai nos lembrar que mesmo a palavra de Santo Agostinho não pode ser tomada como inerrante, como regra absoluta. Neste caso, desta passagem de Santo Agostinho, diz São Tomás, o verbo “criar” não está sendo usado para designar a ação de Deus ao dar origem, de modo absoluto, à criação; na verdade, o verbo “criar” tem vários significados, equívocos entre si. Neste caso, diz Tomás, Santo Agostinho usa o verbo criar no mesmo sentido que a Igreja usa, quando diz de alguém que foi elevado à dignidade de Cardeal, que alguém foi “criado Cardeal” pelo Papa tal. Não é neste sentido que usamos o verbo criar aqui.

O segundo argumento afirma que uma ação é tão mais nobre à medida que seu termo, ou seja, seu ponto de chegada, seja nobre. Assim, diz o argumento, uma ação que parte de um ser para outro, de um bem para outro, envolve dois entes, dois bens, e portanto seria mais nobre do que uma ação que simplesmente parte do nada para um ente. Ali, há dois entes envolvidos, enquanto aqui há apenas um. Assim, conclui o argumento, uma vez que Deus só pode agir da maneira mais nobre, mais elevada possível, a criação deve partir de alguma coisa para chegar em outra, e não deve ser vista como fazer originar algo a partir do nada.

São Tomás passa a responder que a objeção comete um erro lógico: se a ação se qualifica pelo termo de chegada, ou seja, pelo seu ponto final, considerando-se o ponto de partida. Ora, diz Tomás, há três conceitos que envolvem a mudança nos entes: 1) a alteração, 2) a geração e 3) a criação. Humanamente, as coisas que fazemos representam uma alteração nos entes: quando, por exemplo, esculpimos uma estátua num pedaço de madeira, alteramos seu formato, mas não sua forma essencial de madeira. E assim com as coisas que geralmente surgem do labor humano. São, neste caso, uma alteração acidental de formato, porque a substância daquilo que se altera permanece, com sua forma essencial intacta. Não há, pois, a transição de um ente para outro, nem mesmo o originar-se radical de um ente, mas trata-se de um mesmo ente que sofre alguma alteração acidental, no seu formato, no seu tamanho, na sua posição, etc.

O segundo nível de mudança é aquele que envolve a transformação substancial de alguma coisa para que surja outra, ou, nos termos de Aristóteles, trata-se de um processo que envolve sempre a corrupção, ou seja, a aniquilação de alguma coisa para que haja a geração de outra. Pensemos na madeira que se queima para que surja o carvão, ou no alimento que é digerido para transformar-se em energia no organismo. Mesmo no caso da geração por reprodução, é necessário imaginar que os gametas sexuais são aniquilados e tornam-se o embrião de um novo ser. Há, portanto, um ponto de partida que envolve a aniquilação de algo para que haja o surgimento de algo novo.

Por fim, no caso da criação, no seu sentido teológico, algo surge ali onde nada havia. O termo inicial é o nada, e o termo final é alguma coisa.

Estudando os três casos, diz Tomás, percebe-se que a nobreza maior encontra-se na terceira opção, a criação, já que no primeiro caso, da alteração, não se trata de fazer algo passar a existir, e no segundo caso, para que uma coisa exista precisa-se aniquilar outra. No caso da criação, portanto, o termo final que é alguma coisa, implica uma distância incomensurável com relação ao termo inicial, que é o não-ser, distância que só poderia ser coberta por Deus.

Por fim, o terceiro argumento pretende que a preposição “de”, na locução “criar do nada”, remete a uma causa material da criação. Mas como o nada não pode ser causa material, a locução seria absurda e contraditória, porque nem Deus poderia originar alguma coisa feita de nada. Esta objeção traz um tema muito contemporâneo, o niilismo, que no fundo defende que, de fato, o nada é a estrutura mais básica sob o real, e que tudo o que existe, nós inclusive, não passa de ilusão.

Como Tomás responde a esta objeção niilista?

Ele vai nos explicar que a preposição “de” não tem como único significado remeter à causa material de alguma coisa, como na locução “estátua de bronze”. Esta preposição também tem a função de estabelecer uma ordem, como quando afirmamos que “da noite se fez dia”. Não queremos dizer, neste caso, que a noite é a causa material do dia, mas simplesmente indicamos uma ordem de procedência: o dia foi precedido pela noite, ou ainda da noite procede o dia. Neste sentido, dizer que a criação se fez do nada seria simplesmente indicar que nada precede à criação. Há um segundo sentido válido para esta proposição: dizer que algo vem “do nada” significaria o mesmo de dizer que algo “não vem de alguma coisa”, ou seja, trata-se de simplesmente negar que Deus precisasse de uma causa material anterior para criar todas as coisas. Assim, a causa material última das coisas continua sendo a matéria-prima, mas esta não preexistia à própria criação, como vimos quando debatemos a questão 44, artigo 3, em textos anteriores.

É muito bom percorrer estes velhos corredores da catedral de São Tomás, porque sempre nos surpreendemos com alguma coisa que ele deixou por aqui, como se prevendo que um dia encontraríamos; são diamantes, coisas surpreendentemente atuais no meio de um edifício tão aparentemente antigo!