Como todos notaram, nós saímos daquela parte da Suma dedicada ao estudo do que sabemos, pela razão e por revelação, a respeito do próprio Deus e estudamos agora a criação, ou seja, o cosmos em sua relação com o Criador. Naquela antiga ideia de que a Suma Teológica seja uma grande catedral medieval, poderíamos dizer que saímos dos fundamentos e entramos no corpo visível da Catedral: nesta construção peculiar, suas fundações são o cume e seu corpo, sua estrutura visível, é o andar de baixo!
Mas o andar de baixo existe para o cume, Isto é o que estudamos aqui: a Criação existe para Deus. Ela tem uma razão, um propósito, uma finalidade: encontrar sua perfeição, seu bem, seu ato, sua completude, em Deus. É neste sentido que dizemos que Deus é a causa final da criação.

Hoje em dia, talvez a noção de causa final esteja esquecida e desvalorizada, e talvez por isto estejamos pagando um alto preço ambiental e humano. Tanto o cientificismo quanto o existencialismo ensinam que as causas finais não existem, e que podemos fazer conosco e com a natureza aquilo que pudermos e quisermos. Daí o desequilíbrio ambiental e a depressão, a ansiedade e o suicídio serem males tão agudos em nosso tempo: não é que não conseguimos achar sentido nas coisas ou em nossa vida. O sentido está aqui desde o princípio (Jo 1, 1), mas nós nos esforçamos conscientemente para desconsiderá-lo ou mesmo bani-lo.
Precisamos lembrar, aqui, que, na visão aristotélica, as coisas são explicadas a partir de quatro causas fundamentais: a causa formal, ou estrutura interna da coisa, nos diz o que a coisa é. A causa material nos diz de que ela é feita. A causa eficiente nos diz como ela foi feita e a causa final nos ensina para que ela existe. São duas, portanto, as causas intrínsecas às coisas: a causa material e a formal. E são duas as causas extrínsecas ou externas: a causa eficiente e a causa final. Notemos que somente as coisas contingentes, que se transformam, que entram e saem na existência, prestam-se a ser explicadas por meio de causas. Deus, sendo eterno, necessário, não sujeito a transformação ou a extinção, não tem causas.
Nesta questão 44, debatemos exatamente em que sentido podemos afirmar que Deus é a causa primeira de todas as coisas. Vimos, no artigo primeiro, se podemos dizer que Ele é causa primeira de tudo o que existe. No artigo segundo, a discussão versou sobre a matéria-prima. No artigo terceiro, debatemos sobre Deus como causa exemplar da criação. Agora debateremos sobre a causa final. Em que sentido podemos dizer que Deus mesmo é a causa final de toda a criação?
A noção de causa final é, hoje, pouco conhecida. Para nós parece estranho imaginar que tudo tenha um fim. E, com a perda da noção de fim, perdemos também a noção de bem, já que o fim das coisas é também o seu bem. As coisas existem para um fim, que está inserto como potência em sua essência mesma, mas que pode não existir num determinado momento histórico. Assim, as coisas, na visão clássica, são mais do que aquilo que se mostra delas aqui e agora. Onde está o pé de feijão quando contemplamos um pequeno caroço de feijão? Ainda não existe como realidade fática; mas podemos esperar, com certeza, que daquele feijãozinho nasça um pé de feijão e não, digamos, um pé de milho ou uma cerejeira. E onde está esse pé de feijão que ainda não existe, mas para o qual o feijãozinho aponta como seu fim? Estaria ele na mente de Deus?
A hipótese controvertida aqui é a de que este fim, o fim para o qual todas as coisas apontam, sem que se dê num ponto da história senão como potencial, não está em Deus. Ou seja, Deus não seria a causa final de todas as coisas.
São quatro os argumentos objetores iniciais que procuram fundamentar esta hipótese controvertida.
O primeiro argumento parte exatamente da ideia de que a própria noção de causa só se aplica àquilo que é mutável, transitório, imperfeito. A Deus, portanto, não se podem atribuir causas, porque ele é pleno, perfeito, não sujeito a transformação. Não se poderia, portanto, dizer que Deus age em razão de algum fim, porque a noção de fim relaciona-se indissoluvelmente com a noção de causa final, que é inaplicável a Deus. Assim, conclui o argumento, não poderíamos dizer que Deus é causa final da criação, porque Deus não age por causa de um fim.
O segundo argumento parte da noção de geração. Como sabemos, a noção aristotélica de geração envolve a ideia de que alguma coisa que não era passe a ser. Este argumento afirma, então, que devemos separar, na geração: 1) O fim da geração e a forma do gerado e 2) O agente que gera. São necessariamente coisas distintas, diz o argumento, fundamentando-se numa citação da “Física” de Aristóteles. Vale dizer, o fim da geração é a forma do gerado; e aquela coisa que é gerada é, necessariamente, distinta do agente que a gera. É fácil perceber, na lógica do argumento, que de fato o agente gerador tem que ser distinto da coisa gerada, porque aquele que gera tem que preexistir àquilo que é gerado. Ora, diz o argumento, se o fim da geração é o ente gerado, e o agente gerador tem que ser outra coisa que não o ente gerado, então Deus, que é o agente gerador primeiro, não poderia ser a um só tempo o agente gerador e o fim da geração. Disso o argumento conclui que Deus não pode ser causa final da criação.
O terceiro argumento afirma que, de fato, todas as coisas aspiram pelo fim. Aliás, diríamos, este é o conteúdo do célebre primeiro parágrafo da “Ética a Nicômaco” de Aristóteles, em que ele diz que todas as atividades tendem a um fim, e conclui que o bem é aquilo a que todas as coisas anseiam. Mas nem todas as coisas anseiam por Deus; aliás, a imensa maioria das coisas nem sequer se dá conta de Deus, ou poderia sequer conhecê-lo. Daí o argumento conclui que Deus não é o fim de todas as coisas.
Por fim, o quarto argumento lembra que a causa final é a mais importante das causas, ou, como se dizia na filosofia clássica, ela é a primeira das causas. Mas se Deus, como vimos desde o início desta questão, é causa eficiente e causa final da criação, então é possível distinguir em Deus algo ue é mais importante (ser causa final) e algo que é menos importante (ser causa eficiente). Se isto fosse verdade, seria possível classificar partes em Deus, distinguindo nele partes mais importantes que outras. Mas Deus não tem partes, ou, como diziam os escolásticos, não há anterior e posterior em Deus. Assim, o argumento conclui que Deus não pode ser a um só tempo causa eficiente e final da criação.
O argumento sed contra cita Provérbios 16, 4, que São Tomás lê assim: “Deus fez todas as coisas por causa de si mesmo”. A Vulgata e as traduções contemporâneas trazem um texto que aponta que “Deus fez todas as coisas com finalidade” (ou propósito). Em todo caso, o argumento pretende provar que este fim é o próprio Deus, na linha da questão 2 desta parte da Suma, que fala da causa final como uma das vias para chegar a Deus – especificamente a quinta via.
Postos os termos do debate, São Tomás passa a dar sua resposta sintetizadora. Para começar, ele nos lembra da própria noção de causa final. Todo agente age por um fim, ensina-nos ele. Eis uma noção que precisa ser lembrada para nós. Se as coisas não atuassem por um fim, diz Tomás, então alguma coisa só resultaria de outra por mero acaso: o gelo poderia incendiar, ou o fogo poderia nos congelar. As bananeiras poderiam dar abacaxis ou mesmo baleias, e as baleias poderiam engendrar vacas. Mas isto não acontece, porque a causa final do gelo é esfriar, e a do fogo, aquecer.

São Tomás lembra, no entanto, que, no mundo das criaturas, a causação é sempre uma via de mão dupla. Imaginemos uma fogueira em chamas: se jogo uma barra de gelo nela, tanto o gelo causa o esfriar da fogueira, quanto o fogo causa o derreter da barra de gelo. Ambos os agentes, diz Tomás, têm o mesmo fim, que é o de trocar energia; mas eles o fazem em sentidos diferentes. Neste sentido, a troca de energia é um só fenômeno, em que um dos agentes causa o frio e sofre o calor e vice-versa.

Mas isto se dá, diz Tomás, porque o gelo e a fogueira são agentes imperfeitos, ou seja, eles estão simultaneamente em ato para alguns aspectos e em potência para outros. A madeira em chamas está em ato para o calor, mas em potência para o resfriamento. O gelo, por outro lado, está em ato para o frio e o estado sólido, mas em potência para o calor e a liquidez. É por isto, por estarem em ato e em potência para diferentes aspectos, que, na interação da causalidade final, eles são simultaneamente agentes e pacientes, sob diferentes aspectos.

Mas Deus, que é o agente primeiro, não tem nenhum aspecto de potencialidade. Ele é ato puro, e portanto ele não sofre a ação das coisas, mas age em todas as coisas. Ou seja, Deus não está em busca de alcançar algum fim para s mesmo. Mas ele dirige todas as coisas para o seu fim, que é a perfeição completa, ou seja, o próprio Deus. A perfeição das coisas é que venham a ser tudo o que Deus, em sua bondade infinita, pensou para elas. Ora, se o fim tem o valor de bem, então o fim das coisas, seu bem completo, é Deus mesmo. Porque nele está a causa exemplar, e só ele guarda a perfeição do que todas as coisas são e devem ser.

Havendo, pois, respondido assim, ele passa a enfrentar as objeções iniciais. Como veremos no próximo texto.