No último texto, conversamos sobre a questão da chamada “causa exemplar da criação”. A hipótese controvertida, proposta para aquecer o debate, era a de que essa causa seria, platonicamente, algo distinto de Deus, e os argumentos objetores caminharam no sentido de reafirmar a enorme diferença entre Deus e a criação, entre a questão de que as espécies devem existir de algum modo para além dos respectivos indivíduos mas não se confundem com o próprio Deus e, enfim, em uma citação teológica que parece remeter ao conceito platônico de que as ideias são reais, são “coisas em si” subsistentes. O argumento sed contra cita Agostinho para estabelecer que as ideias que representam os princípios exemplares causais de todas as coisas estão em primeiro lugar na mente de Deus.
Passamos a examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.
Deus é a unidade perfeita, lembremos. Ele é indivisível, e, se às vezes temos que falar sobre a “mente” de Deus ou sobre a sua vontade, isto se dá por um limite de nossa linguagem, não porque houvesse em Deus mesmo alguma distinção entre sua sabedoria e sua vontade.
Assim, afirmar que as causas exemplares da criação estão em Deus ou afirmar que Deus mesmo é a causa exemplar da criação é dizer rigorosamente a mesma coisa.
Ora, diz Tomás, a produção de qualquer coisa pressupõe uma causa exemplar, quer dizer, a ideia preexistente que, à guisa de projeto, guiará o efeito na coisa produzida. É claro que esta concepção da criação é muito distante da que é apresentada, hoje, como “científica” que é a ideia de que a ordem no mundo resulta do acaso. Não é assim que Tomás concebe o cosmos. Para ele, como para todo o cristianismo consequente, a ordem no universo decorre do plano de Deus; tudo o que existe foi antes pensado e querido por Deus.
Quando se produz alguma coisa, diz Tomás, é preciso que haja um modelo, um projeto que preveja como a coisa será. Esse modelo ou projeto é exatamente o que se chama de “causa exemplar”. O artesão produz sua arte olhando para seu projeto, ou para algum modelo que retrata, ou simplesmente reproduzindo a concepção que tem na sua mente. No caso da criação, as criaturas são produzidas conforme o modelo que é na mente divina; cada coisa foi pensada, concebida e querida de antemão por Deus em si mesmo. Se assim não fosse, não haveria a ordem universal, nem a cognoscibilidade das coisas criadas, nem sequer existiriam espécies ou a partilha de formas comuns aos indivíduos. A sabedoria divina, que, como já sabemos, é o próprio Deus, traz em si as razões, ou seja, a ideia de cada coisa que existe. É assim que a criação é marcada pelo logos, o sentido (Jo 1, 1) e este sentido é o próprio Deus. É muito forte perceber que a contemplação da criação, no fundo, nos revela o próprio Deus (Rm 1, 20).
Platão, portanto, intuiu corretamente que as coisas refletem o modelo transcendente que as origina como causa exemplar, e Aristóteles intuiu corretamente que as formas (ideias) só existem nas coisas e nas inteligências. Foi assim que a teologia cristã pode simplesmente pleitear que a causa exemplar das coisas de fato existe de modo transcendente, como queria Platão, e numa inteligência, de conformidade com Aristóteles. Trata-se da inteligência divina do Criador, e até aí não poderia chegar a filosofia grega.
O fato de que Deus é a causa exemplar primeira da criação não exclui o fato de que as coisas criadas possam ser causas exemplares de outras coisas. A criação é uma obra aberta, e Deus não é ciumento da sua autoria. Somos verdadeiros colaboradores, capazes de produzir a partir daquilo que Deus nos concede. Mas a nossa capacidade não pode desrespeitar a natureza daquilo que nos é dado; o avião voa porque respeita a natureza do ar.
Esta solução evita cuidadosamente tanto os riscos do panteísmo – aquela ideia complicada de que Deus e a criação se confundem num só ser – quanto aquilo que Erich Przywara, grande padre jesuíta da primeira metade do século XX, chamava de “teopanismo”, um total estranhamento entre Deus e o cosmos. A realidade criatural revela Deus, tem Deus como causa exemplar mas não é, ela mesma, divina.
Colocados os termos de sua resposta sintetizadora, Tomás passa a enfrentar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor afirma que as coisas que são feitas conforme uma causa exemplar são semelhantes àquilo que lhes serviu de modelo. Mas é muito claro que as criaturas são muito diferentes de Deus. Disso o argumento conclui que Deus não é causa exemplar da criação.
São Tomás admite, é claro, que há uma diferença fundamental, intransponível, entre o Criador e as criaturas. De fato, as criaturas são semelhantes entre si por vários graus de semelhança; podem ser seres da mesma espécie, ou do mesmo gênero, ou ainda assemelham-se ao menos na criaturalidade. Assim, entre um ser humano e seu filho, por exemplo, há a semelhança genética e a semelhança específica – os dois são humanos. No caso das criaturas com o criador, diz São Tomás, há a semelhança entre a concepção divina e o concebido. Vale dizer, as criaturas são concebidas na inteligência divina, como uma casa é concebida na inteligência do seu arquiteto. As coisas são, portanto, semelhantes a Deus na medida que são verdadeiras, ou seja, estão conformes à concepção que a sabedoria de Deus tem delas. É neste sentido, por exemplo, que um pecador é menos parecido com Deus, porque o pecado o afasta da concepção pura que Deus tem dele. A verdade, pois, é a medida da semelhança entre as criaturas e Deus!
O segundo argumento parte da ideia de que há realidades “em si” e “realidades por participação”. E dá um exemplo: se aproximo uma barra de metal do fogo, o metal se torna quente por participação, enquanto o fogo é quente por si mesmo. De fato, se afastamos a barra de metal daquela fonte de calor, ele esfriará, porque não possui uma fonte de calor em si. Assim, prossegue o argumento, a existência do fogo é necessária para que o calor exista na barra de metal. Do mesmo modo, prossegue o argumento, a espécie existe em cada indivíduo por participação, já que a morte de um indivíduo não afeta a existência da espécie. Logo, analogicamente ao caso do calor e do fogo, a existência da espécie como uma realidade em si mesma é necessária para que os indivíduos daquela espécie possam existir, participando dela. Disso o argumento conclui que Deus não é causa exemplar da criação, mas as causas exemplares da criação existem por si mesmas fora de Deus. Este é, portanto, um argumento muito platônico.
Em sua resposta, São Tomás explica com o exemplo do ser humano: somos seres materiais por essência. Assim, seria inimaginável que houvesse um “ser humano em si” por aí, não individualizado, mas genérico e imaterial, existindo em si mesmo sem corpo, sem acidentes, concentrando em si tudo o que realiza a espécie humana em todos os humanos que já existiram, existem e existirão. Os seres humanos de fato existem individualmente, por participarem todos da mesma espécie humana, e gozarem assim exatamente da mesma dignidade humana. Mas aquilo em que participam, vale dizer, a própria ideia de “espécie humana”, não pode ser, por sua vez, algo efetivamente existente fora da matéria, sem individualização nenhuma, porque um ente assim já não seria, ele próprio, um humano; é da essência do ser humano a materialidade, a carne que individualiza; um “ser humano” existente em si sem individualização e esgotando em si a plenitude da espécie, se existisse, já não seria um ser humano, mas um anjo, talvez. Certamente não é de um ente assim que os seres humanos participam na sua humanidade. O mesmo se aplica a qualquer ente material: a sua ideia, que é a causa exemplar de cada ser individual, jamais poderia ser remetida a uma ideia imaterial efetivamente existente sem individualização em algum lugar. É por isso que a ideia de ser humano, que é a causa exemplar de cada ser humano, só pode existir como pensamento de Deus, e assim também toda e qualquer criatura.
O terceiro argumento afirma que a nossa inteligência conhece as coisas abstratamente; só há ciência, ou seja, conhecimento verdadeiro e sistemático, das ideias, ou seja, das essências abstraídas de todos os acidentes que as particularizam. Ora, conclui o argumento, a ciência nos dá um conhecimento verdadeiro daquilo que é real. Se ela só pode nos dar o conhecimento das espécies, quer dizer, das essências abstraídas de toda individualização, o argumento conclui que essa abstração, a “espécie”, é um ente real, concreto, e é causa exemplar de todas as coisas que existem individualmente. Portanto, o argumento conclui que a causa exemplar é algo diverso do próprio Deus.
Esse raciocínio é equivocado, diz São Tomás. As coisas têm um modo próprio de existir no mundo criado e outro modo próprio de existir nas inteligências. No mundo criado, elas existem concretamente, individualizadas por seus acidentes, pela matéria que as assinala. Nas inteligências, as mesmas coisas existem abstratamente, como espécies universais que são assimiladas pela abstração das formas presentes nas coisas individuais. Trata-se da mesma coisa, embora sob diversos modos de existir: a existência concreta e particular do real, a existência abstrata e intencional das inteligências. O erro está, portanto, em pleitear que aquilo que existe numa inteligência deve existir do mesmo modo, como abstração intencional, também na realidade concreta da criação. Esse é o erro dos platônicos, acrescento, e dos idealistas em geral. As causas exemplares existem na inteligência divina, pois, por um modo de existir diverso daquele que é próprio das criaturas. Estas existem e subsistem em sua particularidade individual. Aquelas subsistem como universais.
Por fim, o último argumento cita o pseudo-Dionísio, que parece admitir a teoria platônica do “reino das ideias”, quando menciona que “o ser em si mesmo é anterior ao que é a vida em si mesma e a sabedoria em si mesma”. Desta citação o argumento conclui que há “ideias em si mesmas” que são a causa exemplar de tudo e cuja existência não se confunde com a existência divina.
São Tomás propõe, então, reler o pseudo-Dionísio de um modo que o devolve à verdade e à ortodoxia da qual ele nunca saiu: é claro, diz São Tomás, que quando ele fala em “ser em si” ou “sabedoria em si”, ou “vida em si”, ele não está falando de uma realidade ideal, platônica, mas do próprio Deus e daquilo que dele nós participamos.
E é assim que São Tomás nos mostra como a contemplação da natureza nos leva à sabedoria divina, que tudo quis, tudo previu e tudo criou. Não somos frutos do acaso, mas da sabedoria amantíssima e infinita de Deus.
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