A filosofia nasce do espanto, dizem os antigos. Mas a nossa contemporaneidade desencantada já não se espanta, e por isso não filosofa. Achamos que já conhecemos, que já dominamos, e por isto perdemos a possibilidade de fazer as perguntas mais simples, mais fundamentais, que são as mais propriamente filosóficas; por que há coisas? O que são as coisas? Por que elas são o que são? Por que elas mudam? Por que perecem? De que são feitas? A que se destinam? Por que podemos conhecê-las? Qual a sua estrutura interna, que as torna ordenadas e compreensíveis a nós? Como o universo pode, em última instância, apresentar ordem?
Não é que tenhamos perdido as respostas. Nunca tivemos tantas respostas. O que perdemos foram as perguntas. Mesmo quando um antigo filósofo elaborava suas respostas, ele (e seus leitores e seguidores) nunca perderam de vista as perguntas que ele tentava responder, e por isto acompanhavam com muito interesse as respostas. Hoje as perguntas já não interessam à maioria de nós. Talvez por isto já não temos tampouco interesse pelas respostas.
O fato é que os antigos precisavam responder a duas perguntas: por que as coisas são como são? E como podemos saber o que elas são? Vale dizer, há coisas, e mais, elas, na sua diversidade, carregam em si uma inteligibilidade que consigo perceber, mas que não fui eu quem deu. Por exemplo, constato que há um cão no meu quintal, e constato que ele traz em si as mesmas características do cão que ladra no quintal do meu vizinho, e que, embora de raças diferentes, consigo perceber que são da mesma espécie. A partir dessas duas constatações, Platão construiu uma resposta, que tentava explicar esses fatos assim: há um mundo mais real do que este nosso, e naquele mundo há apenas um exemplar de cada ser (por exemplo, apenas um cão) que guarda em si todas as características de todos os cães que já existiram ou que algum dia existirão aqui na Terra. E eu consigo conhecer os diferentes e imperfeitos cães que vejo no meu cotidiano porque, antes de ser um humano, eu fui uma alma que vivia naquele mundo perfeito, e um dia caí de lá e encarnei aqui. Quando vejo um cão, portanto, posso reconhecê-lo porque inconscientemente me lembro do cão exemplar que vi antes do meu nascimento por aqui.
Aristóteles percebeu o quanto esta hipótese trazia de problemas e a reelaborou, dizendo que as coisas que existem são compostas de forma e matéria; as formas dão a inteligibilidade da coisa, ou seja, fazem com que “aquilo” seja um cão e não, digamos, uma galinha. A matéria individualiza, e faz com que o meu cão seja outro com relação ao cão do meu vizinho. As formas, dizia Aristóteles, não preexistem num mundo esotérico, como queria Platão. Elas existem nas coisas e nas mentes. Nas coisas as formas existem como inteligibilidade, e nas mentes elas existem de duas maneiras: 1. Como conhecimento, quando as abstraio das muitas coisas individuais com que me deparo por aí. 2. Como causa exemplar, quando planejo fazer com minhas mãos alguma coisa nova. É o caso do arquiteto: a forma da casa preexiste como causa exemplar na mente do arquiteto, antes mesmo que a casa venha a ser construída. Mas como os gregos não possuíam a nocão de criação, não lhes passou pela cabeça propor que, de modo análogo ao artesão que possui em sua mente a causa exemplar de sua arte, Deus, sendo criador, possui em sua mente a causa exemplar de tudo o que é criado. Esta resposta, nascida da interpelação que a Revelação traz à razão, pode harmonizar surpreendentemente as posições de Platão e Aristóteles.
Mas a pergunta que o nosso artigo dirige (a nós e, de certa forma a Aristóteles e a Platão) é a seguinte: as coisas que são feitas pelos seres humanos têm sua causa exemplar na mente humana. Mas onde está a causa exemplar daquilo que não é feito, mas que existe como coisa, e interpela o nosso conhecimento? O artigo então propôe buscar esta causa exemplar, e mais, propôe que esta causa exemplar seja algo diferente de Deus, já que nem Platão, nem Aristóteles, jamais propuseram que Deus mesmo traria em si a causa exemplar de tudo o que existe.
O artigo traz, então, três argumentos objetores iniciais, no sentido de negar que a causa exemplar seja o próprio Deus.
O primeiro argumento objetor afirma que, se Deus mesmo é a causa exemplar de tudo o que foi criado, então tudo deveria parecer-se com Deus. No entanto, diz o argumento, aa coisas criadas são, na verdade, muito diferentes de Deus. Assim, o argumento conclui que Deus não é a causa exemplar das criaturas.
O segundo argumento objetor parte de uma visão alinhada com a física do seu tempo, para chegar à metafísica. De fato, diz o argumento, tudo aquilo que existe por participação remete a algo que existe por si mesmo. Assim, se algo é quente, é porque de alguma maneira participa do calor, que existe no fogo por si mesmo. Ora, prossegue o argumento, todas as coisas materialmente existentes participam de alguma espécie de coisas, e individualizam-se por seus acidentes. Ora, diz o argumento, cada ser individual participa da espécie, mas não esgota a espécie. Logo, de maneira análoga àquela pela qual as coisas participam do calor, mas ele existe por si mesmo no fogo, então, se as coisas participam da espécie, então ela, a espécie, deve existir por si mesma em algum lugar; como o fogo é o calor em si mesmo, então deve existir o cão em si mesmo, o cavalo em si mesmo, e assim por diante. Ora, é exatamente a estas “espécies em si mesmas” que chamamos “exemplos” ou “exemplares”, dos quais todas as coisas materiais individuais participam. Logo, há causas exemplares “em si mesmas”, fora de Deus. Este é o argumento platônico por excelência.
O terceiro argumento parte da concepção clássica da ciência: a ciência, que contém as definições das coisas, refere-se às espécies, ou seja, à forma como abstraída de qualquer individualização. Não é possível haver ciência de coisas individuais, particulares. Nem há definição científica de seres individuais. Ora, se o objeto da ciência são as espécies, então elas devem existir efetivamente como exemplares das coisas, sem se confundirem com Deus, porque senão toda ciência seria, no fundo, teologia. Assim, o argumento conclui que Deus mesmo não é a causa exemplar da criação.
Por fim, o quarto argumento traz uma citação do pseudo-Dionísio Areopagita, em que ele se refere ao “ser em si” como anterior à “vida em si” e à “sabedoria em si”. A citação dá a entender que esse escritor cristão muito respeitado por Tomás acreditava na noção de que havia “ideias das coisas em si” fora de Deus, como defendia Platão. E da autoridade dessa citação o argumento conclui que as causas exemplares são diferentes de Deus.
Como argumento sed contra, uma citação de Santo Agostinho. O argumento começa lembrando que a causa exemplar é sempre uma ideia. Ora, prossegue, as ideias, segundo Santo Agostinho, são aquelas formas que são princípio de todas as coisas, e que estão na mente de Deus. Assim, conclui o argumento, as causas exemplares não existem fora de Deus.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
Deixe um comentário