No texto anterior, discutimos a respeito da marca da criaturalidade nos entes. Será que todos os entes têm em si esta marca, a marca da sua dependência de Deus, ou seja, será que a condição de “criatura” pode ser estendida a todos os entes?
Lembramos que foram três argumentos contra a criaturalidade universal dos seres. O primeiro argumento afirma que a criaturalidade não é um elemento necessário para explicar a essência dos próprios seres. O segundo argumento vai mais longe, defendendo que a ideia de causa eficiente, que está envolvida na ideia de criação, só se aplica àqueles seres que entram e saem da existência, não àqueles cuja existência não é contingente, mas necessária. E por fim há o argumento quanto aos entes de razão, como os matemáticos; a criaturalidade não está envolvida na matemática de modo algum, diz o argumento; os entes matemáticos são pressupostos pela própria estrutura do universo, e, portanto, de certo modo, o próprio Deus teria que obedecer à matemática. Asim, diz o argumento, os entes matemáticos não decorrem de alguma criação divina. O argumento contrário recorre à autoridade das Escrituras (Rom 11, 36) para sustentar que a criaturalidade é uma característica de todos os seres.
E é neste sentido a resposta sintetizadora de São Tomás. Tudo o que existe traz em si a marca da criaturalidade. E ele vai dar uma resposta que precisa ser seguida com muita atenção, porque parte de uma física que já foi ultrapassada. Mas os princípios que ele traz são ainda válidos.
Para Tomás, em razão da ciência do seu tempo, o fogo era um ente, e não, como sabemos hoje, o epifenômeno de uma reação química. Então, no tempo de Tomás, acreditava-se que o calor pertencia essencialmente ao ente “fogo”; assim,se qualquer outro ente, por naturza inanimado, como um pedaço de ferro, apresentasse calor, isto ocorreria porque de algum modo ele foi exposto ao fogo, portanto ele não tem o calor em si, mas apenas como recebido do fogo: ele “participa” de um calor que é essencial no fogo, mas acidental no pedaço de ferro. Se o fogo for afastado do ferro, o mineral esfriará.
Ele prossegue, lembrando que, quando estudamos, em textos anteriores, o ser de Deus, aprendemos que Deus não sofre mudança, nem começa a existir, nem pode não existir, nem tem em seu ser alguma coisa que não seja a existência. E, se Deus é o próprio existir subsistente, lembra Tomás, ele é o único existir subsistente que pode haver; São Tomás passa a fazer uma comparação com a brancura. O que é a brancura? É um acidente de cor. Portanto, é algo que existe sempre em outra coisa: uma parede branca, uma flor branca. Ela é o exemplo perfeito de um ser não subsistente. Mas imaginemos qu o branco não fosse uma cor, mas fosse um ser subsistente. Isto significaria que ela nunca poderia existir em outra coisa, porque ela jamais teria um ser acidental. Assim, se o branco fosse um ser subsistente, ele seria apenas um, porque jamais poderia existir como um acidente em algo que não fosse ele mesmo… como Deus é a existência subsistente e é apenas um! Não haveria no mundo algum ente de cor branca, mas haveria o branco absoluto como ente, e coisas que, se recebessem dele a brancura, poderiam ser brancas apenas e enquanto estivessem nele. Do mesmo modo, se a própria existência é um ser subsistente, Tomás quer nos ensinar que há apenas um que existe mesmo… a nossa existência, como o calor daquele pedaço de ferro, depende inteiramente da presença de Deus a nos manter nela!
Comparando mal, e usando a analogia do fogo (e pedindo licença para usar a ciência ultrapassada do tempo de Tomás), do mesmo modo que o calor é essencialmente pertencente ao fogo, isto é, o fogo pode ser descrito como”o calor em si mesmo”, (por isto, qualquer coisa que apresente em si algum calor está, de algum modo, no próprio momento em que apresenta calor, participando acidentalmente daquilo que é essencialmente do fogo), poderíamos dizer que o existir é essencialmente pertencente a Deus. Usando a analogia de Tomás, diríamos que o existir está para Deus como o calor está para o fogo. Onde há calor, há fogo, ou há alguma coisa participando presentemente daquilo que pertence só ao fogo. Retire-se o fogo, e tudo esfria. Assim, onde há existir há Deus, ou alguma coisa participando presentemente daquilo que pertence só a Deus. E Tomás conclui, usando este raciocínio, que todos os entes que não são Deus não são existentes por si mesmos, porque existir é o próprio ser subsistente de Deus. Os outros seres existem de modo análogo àquele pelo qual o ferro é aquecido quando se lhe põe fogo: pela participação que decorre da criação, na qual Deus traz à existência tudo aquilo que não é ele. E esta existência participada, diz Tomás, conhece graus de perfeição, conforme participe mais ou participe menos da existência plena que é Deus. Aquilo que apenas existe, mas é inanimado, ou aquilo que, existindo, tem em si a fonte do seu movimento involuntário, como as plantas, ou ainda aquilo que tem sensibilidade e é capaz de mover seus apetites para aquilo que lhe apontam os sentidos, como os animais, e por fim os seres inteligentes, que participam da pessoalidade divina. A pluralidade de formas de participação na existência, diz Tomás, uma vez que pode ser medida por estar mais próxima ou mais distante da plenitude do existir, nos indica que existe um critério, um medidor absoluto de perfeição no existir, que nos permite saber qual ser existe mais perfeitamente do que outro. Por isto, diz Tomás, por entender que unidade da perfeição deve ocorrer antes de podermos medir a pluralidade das perfeições existentes nas coisas, que Platão dizia que a unidade deve preceder a pluralidade – intuindo a perfeição de Deus que ele não chegou a receber por revelação. Também Aristóteles intuiu isto, ao dizer que aquilo que é perfeito no ser e na verdade é causa daquilo que não é, como aquilo que é perfeito no calor é causa de calor naquilo que ainda pode ser aquecido, mas o contrário não é verdadeiro. É um raciocínio um tanto difícil de seguir, mas podemos usar a imaginação: de fato, uma fornalha quentíssima aquele uma barra de ferro, que está fria, mas a barra de ferro, fria como está, não poderia aquecer a fornalha. É neste sentido que Aristóteles diz que aquilo que é sumamente perfeito ou sumamente verdadeiro pode causar a perfeição e a verdade naquilo que não é; São Tomás vê nesta afirmação uma verdadeira intuição teológica em Aristóteles.
Havendo apresentado sua resposta sintetizadora, São Tomás vai enfrentar as objeções iniciais.
A primeira objeção, como lembramos no começo deste texto, é aquela que diz que a criaturalidade não é um elemento necessário para definir a essência das coisas, porque elas podem ser definidas perfeitamente sem remissão a este elemento; São Tomás vai responder que, embora de fato a criaturalidade não seja um elemento necessário para definir a essência de alguma coisa, como a risada não é um elemento necessário para definir o ser humano, que pode perfeitamente ser conceituado sem remissão a este elemento do riso, no entanto, diz ele, rir é algo que faz parte do ser humano, indelevelmente. Assim, não é porque algum elemento constitutivo do ser não seja necessário para defini-lo como tal que este elemento não faça parte, de modo muito profundo, daquilo que o ente é. Assim, a criaturalidade é um elemento presente em todos os entes que não existem por si mesmos (lembrando que há um ente que existe por si mesmo, Deus). Assim, a criaturalidade não é um elemento necessário para explicar o próprio ente, já que há ao menos um ente que não traz essa nota, que é Deus. Asim, e por dois motivos, podemos conceituar o entes sem a remissão à nota da criaturalidade: 1. porque não é uma nota necessária para explicar o próprio ser do ente em geral, já que, como dissemos, há ao menos um ente em cujo ser esta nota não entra (Deus), e 2. Esta nota é comum a todas as criaturas; por isto, ela é subetendida quando definimos cada uma delas, já que não é uma nota de distinção entre os seres, mas de união, já que é uma nota comum a todos eles. Todas as criaturas são causadas por Deus em seu poder criador, portanto, e esta é uma nota muito profunda nelas, já que diz respeito à sua existência mesma.
O segundo argumento objetor traz de volta a ideia dos seres necessários, cuja existência não é contingente, ou seja, aqueles seres que não são sujeitos a entrar e sair da existência e, portanto, não precisariam da ideia de criaturalidade para explicá-los. Na Física de Aristóteles, havia muitos seres assim, como os corpos supralunares ou mesmo os motores imóveis e a própria matéria. Hoje, a ciência busca a partícula fundamental, aquele elemento dos entes que, segundo acreditam os pesquisadores, dá origem a tudo sem ser originado por nada e, portanto, não pode ser destruído porque não é composto de outros elementos, mas compõe todos os outros. A existência de um ente assim, imaginam os pesquisadores, seria necessária, e portanto, não seria causada, mas originante.
São Tomás não vai discutir, aqui, nem com a ciência do seu tempo, nem com a ciência do nosso tempo. De fato, diz Tomás, a estrutura do cosmos pode conter seres que não estão sujeitos à contingência, e este é um fato a ser submetido à filosofia da natureza e às ciências empíricas, como a própria física molecular. Mesmo que os corpos supralunares, como se pensava antigamente, ou a partícula submolecular fundamental, como se busca hoje, sejam entes deste tipo, que não são contingentes e portanto não podem ser destruídos (é o caso das criaturas angélicas, na teologia), isto não retira a necessidade de explicar sua existência mesma. Sua existência é necessária, no sentido de ser não eliminável, não destrutível, mas não é necessária no sentido de encerrar em si mesma a razão de existir. Em Deus o existir é sua própria essência, mas nos outros entes, mesmo que existam de modo incorruptível e permanente, não encontram na sua própria essência a razão do seu existir, nem sequer a causa da sua própria necessidade. Como diria Leibniz, a pergunta fundamental aqui continua: por que existe alguma coisa ali, e não nada? Exatamente porque a sua existência continua necessitando de explicação é que ela remete a Deus: a própria necessidade de sua existência remete à existência de um ser necessário por si mesmo, como causa da sua necessidade mesma. Por isto, a existência de criaturas não contingentes não exclui delas a condição de criaturas, porque nelas continua a haver a heterogeneidade entre a essência e a existência, que somente em Deus não ocorre. Em Deus a essência e a existência são homogêneas, e por isto nele não são causadas, mas causadoras.
Por fim, o terceiro argumento diz que a matemática pode lidar com seus entes, que são entes de razão, como os números e as operações, sem necessidade de recorrer a uma causa eficiente para a sua existência mesma. Isto parece indicar que a matemática escapa da noção da criaturalidade, e pode existir sem que se pense na própria ideia de um ser criador. Disto o argumento conclui que a criaturalidade não seria uma marca universal dos entes não divinos, já que os entes matemáticos são não divinos, mas não trazem a marca da criaturalidade.
São Tomás diz que os entes abstratos, como os entes matemáticos, são abstratos pela razão, mas não pelo ser. O que significa isto? Isto significa que, uma vez que são entes de razão, eles podem ser compreendidos e manipulados pela matemática sem remissão à sua causa eficiente. A matemática cuida da relação entre os entes matemáticos, não da relação entre eles e sua causa eficiente, que é a mente de Deus. Assim, o fato de que a causa eficiente dos entes de razão é a mente divina não tem influência no modo com que as ciências abstratas, em especial a matemática, lida com eles. Assim, o fato de que a causa eficiente dos entes de razão é indiferente para as ciências abstratas que lidam com eles não significa que eles não tenham causa eficiente. Negar, pois, a criaturalidade a partir da metodologia científica é fazer má teologia, concluímos. E má ciência. Aquilo que está fora do objeto de uma ciência não pode ser provado ou desaprovado a partir dela mesma.
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