Este artigo pode parecer, à primeira vista, um artigo quase arcaico, e de certo modo impenetrável, porque São Tomás usa, aqui, fortemente, o instrumental da filosofia aristotélica para falar de criação. Mas devemos lembrar que Aristóteles não somente viveu quatrocentos anos antes de Jesus, como também o fato de que ele vem de outro contexto cultural, o contexto grego; no qual, aliás, a noção de “criação” não existia. Assim, o instrumental de Aristóteles apresentava dois tipos de seres, os seres contingentes, que são passageiros, e cujo aparecimento e desaparecimento individual não abala a própria estrutura cósmica, e os seres necessários, ou seja, aqueles seres que sempre existiram e não poderiam deixar de existir sem que o universo deixasse de ser o que é. Dentre estes, no universo aristotélico, estão as esferas do Cosmos, os motores imóveis e os seres supralunares, além da própria Terra. Também os entes de razão, como a matéria-prima ou a própria matemática, não podem deixar de existir, e, portanto, não começam ou terminam de existir. Num universo assim é fácil perceber que a noção de um Deus criador é impensável; quando muito, teríamos algum demiurgo fazendo as coisas contingentes, mas um criador absoluto da qual dependem coisas que não entraram na existência nem sairão dela seria contraditório.
Há, aqui, um ponto em que parte do pensamento contemporâneo voltou a parecer com o grego: trata-se de crer que, de algum modo, o universo não precisa de explicação para existir, porque as coisas são como são pelo simples fato de serem. Neste sentido, a teoria da evolução pleiteia um universo que saiu do nada por acaso, desenvolve-se por acaso e caminha não se sabe para onde, de qualquer modo sem precisar de alguma dependência com um criador externo a ele mesmo. De qualquer modo, se há um criador assim, capaz de colocar as próprias regras do sistema que ele tira do nada (e sabemos que há), ele não seria jamais um objeto para a ciência. Josef Pieper, filósofo alemão, chega a dizer que a marca do nosso tempo é exatamente a perda da noção de criaturalidade. Em todo caso, não parece ser inteligente negar alguma coisa simplesmente por estar fora do escopo do seu próprio instrumental de pequisa. Seria como alguém munido de um detector de metais querer negar a existência da madeira.
Em todo caso, para estabelecer todo o universo como criatural, é preciso estabelecer exatamente em que sentido ele o é. E este é o objeto deste artigo: existem seres no universo cuja existência é necessária, quer dizer, não contingente, auto-explicativa, fundada em si mesma, e que, portanto, escapariam da própria definição de “criatura”? Ou tudo o que existe traz em si a marca da dependência no ser, e portanto existe de modo derivado, secundário, dependente? O hipótese controvertida, aqui, é que nem todos os seres são causados por Deus, ou seja, não é necessário recorrer à ideia de criaturalidade para explicar tudo o que existe no universo.
Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento lembra que as coisas são aquilo que eles são, ou seja, a sua essência determina o seu modo de existir. Ora, prossegue o argumento, as coisas podem ser perfeitamente compreendidas, em sua essência, sem fazer remissão ao elemento “criação”. Do mesmo jeito que podemos entender perfeitamente, por exemplo, os seres humanos, sem fazer remissão ao fato de que eles são desta ou daquela cor, deste ou daquele peso, desta ou daquela altura, também podemos compreendê-los sem fazer remissão ao fato de que são criaturas. E, de fato, a ciência moderna tem uma compreensão profunda dos seres sem nenhuma remissão ao fato de que sejam criados por Deus. Disto, o argumento conclui que a noção de criaturalidade, como uma noção de ser causado por Deus, não está necessariamente ligada aos seres, e portanto não podemos com necessidade dizer que todos os seres são, também, criaturas. Nada impediria que a evolução, a própria natureza das coisas ou mesmo as leis da física pudessem explicar muitos dos seres que existem, sem nenhuma remissão à ideia de criaturalidade. Disto, o argumento conclui que não é necessário afirmar que todos os seres são criados por Deus.
O segundo argumento lembra que tudo o que passa a existir precisa de alguma causa eficiente para explicar exatamente como aquilo que não existia passou a existir. A causa eficiente do filhote são os pais, a casa eficiente da montanha pode ser o terremoto, e assim por diante. Mas, diz o argumento, há coisas que existem por necessidade, sempre existiram e sempre existirão, como a própria matéria, ou como o cosmos, ou ainda, como pensavam os gregos, os corpos celestes. Ora, conclui o argumento, se há seres que não começaram a existir, então não há como concluir que todos os seres são criaturas,ou seja, o argumento conclui que nem todos os seres dependem de uma noção de “criação” divina para justificar sua existência.
O terceiro argumento lembra que a própria noção de causa pode ser defnida como aquilo que explica os seres. As coisas são explicadas por suas causas. Especialmente a causa eficiente, diz o argumento, tem a caracteristica de fazer deduzir seu efeito: de um animal prenhe saira sempre um animalzinho da mesma espécie, como de uma semente sairá uma planta da mesma espécie. Mas esta regra, diz o argumento, não se aplica aos entes matemáticos, por exemplo. As demonstraçõees matemáticas não são feitas a partir de alguma causa eficiente, porque a noção de causa eficiente é estranha ao próprio raciocínio matematico. Oora, conclui o argumento, se os entes matemáticos não precisam de remissão a uma causa eficiente da qual sejam deduzidos, então eles tampouco precisam da remissão a alguma ideia de criaturalidade: a matemática não precisa que haja um Deus que a conceba, para existir. Assim, conclui o argumento, a ideia de criaturalidade não pode ser universalizada como explicação da existência de todos os seres.
Como argumento sed contra, a autoridade da Bíblia, que diz (Rom 11, 36): “porque dele, por ele e para ele são todas as coisas”. É, portanto, a partir do dado revelado que o argumento contrário tira a sua autoridade. Trata-se, pois, diferentemente das chamadas “cinco vias”, em que há um apelo à razão para chegar a Deus a partir das estruuturas metafísicas, aqui o fundamento é teológico mesmo; trata-se não de chegar “àquele a quem todos chamam Deus”, mas de desvendar teologicamente a criação como processão a partir da Trindade.
No próximo texto veremos as respostas de São Tomás.
2 Pingback