Durante todos estes textos que passaram, e ao longo de todas as questões que examinamos, estudamos a Revelação quanto ao que nos deu a conhecer a respeito de Deus em si mesmo. O esforço de Tomás sempre foi o de harmonizar os dados da razão com a Revelação cristã, tanto para criar um conhecimento sistemático sobre Deus a partir daquilo que a própria criação nos revela sobre ele quanto para mostrar a solidez, inclusive perante a razão, daquilo que ele próprio nos revela em Jesus. E isto significa um conhecimento que transforma, ou conhecimento com amor, como estudamos na questão 43. Assim, a Suma, até aqui, faz uma espécie de “olhada para cima”, isto é, tenta compreender melhor o que Deus nos revela sobre ele próprio, a partir do nosso modo humano de pensar.
Agora, a partir da questão 44, o olhar muda de rumo; trata-se de olhar “de cima para baixo”, ou seja, passamos a estudar a criação sob o enfoque de Deus. No tratado sobre a Trindade, já vimos como as Pessoas divinas procedem, em Deus, como relações, sem que Deus perca sua unidade essencial. Vale dizer, elas são realmente três Pessoas, e são realmente Deus uno. E já vimos que não faria sentido que elas fossem nem mais, nem menos do que três.
Mas, uma vez que Deus é amor, e que é próprio do amor difundir-se (o amor é difusivo de si mesmo, diziam os antigos), não seria de espantar que Deus arranjasse um meio de expandir os objetos do seu amor, ou melhor, os sujeitos das relações de amor, de forma a derramar o amor da Trindade para além dela mesma. E assim Deus cria. Não para submeter, não para controlar, não para dominar, não para exercer poder, mas para amar. E para difundir o amor para além de si mesmo. Vale dizer, diferentemente das relações intratrinitárias, que fazem proceder as Pessoas em sua diversidade sem que nenhuma delas seja outra coisa que não o próprio Deus, aqui estamos tratando daquilo que procede de Deus como criação, ou seja, como não-divino, como outro em relação a Deus mesmo. Aquilo que, sendo outro, será objeto do amor infinito de Deus, e, havendo saído dele, encontrará, no retorno livre a ele, a sua consumação. E o mais interessante é que o amor de Deus implica a total pessoalidade, a total doação, a total voluntariedade: o Filho está com o Pai porque quer, o Espírito Santo está com eles porque quer, não porque de algum modo seja obrigado ou seja necessário que seja assim. Em Deus, o que ele é e o que ele quer ser, a liberdade e a união, o amor e a unidade são exatamente a mesma coisa, e não envolvem outro poder senão o poder do amor.
E é assim que Deus nos cria, e é assim que ele nos quer de volta: na plenitude de nossa pessoalidade, integramo-nos a ele com a nossa vontade, pelo movimento pleno da nossa liberdade, exatamente porque, pela graça, tornamo-nos parte do amor que ele é por natureza. Esta é a base, este é o fundamento da nossa pessoalidade – somos pessoas, porque somos capazes de, pela graça que ele cria em nós, reconhecer que Deus é nosso ponto de partida e nosso fim, e somos capazes de receber a graça para voltar para ele, como fim da nossa existência, única fonte de felicidade para o nosso ser.
Na presente questão, estudaremos exatamente a nossa origem, ou seja, a radical dependência que nosso ser tem de Deus. Deus não é um relojoeiro distante, que um da fez uma grande máquina que deve funcionar muito bem sozinha. Também não é como que um daqueles deuses gregos que, existindo como seres superpoderosos num universo que eles não criaram e que preexiste a eles, são simplesmente entidades capazes de escapar das leis que prendem os mortais ou de exercer sobre eles um poder irresistível. Por fim, Deus não é uma espécie de adolescente jogando um grande videogame de simulação de realidade, com poder arbitrário sobre todos os seres; nem sequer é um grande e infinito tirano que cria seres com inteligência e vontade indiferente, apenas para submetê-los, por seu poder, às suas ordens, premiando quem obedece e destruindo quem não o faz. A vontade e a inteligência das criaturas não são indiferentes com relação ao bem e ao mal. Foram criados para conhecer o bem e procurá-lo, afastando-se do mal e rejeitando. Ser livre, assim, é ser capaz de chegar por si ao conhecimento do bem e de querê-lo, e a liberdade só se realiza quando se conhece Deus e se o quer, sem opressões, sem violência, sem poder, mas com toda a força da sua pessoalidade dirigida pela graça. E isto é assim porque a origem radical de tudo que existe é Deus. Ele é outro com relação à criação, mas não por ser alheio a ela, mas por estar além dela, sendo, no entanto, seu fundamento primeiro e seu destino último. E é exatamente esta radical dependência do ser da criação, com relação a Deus, que estudaremos nos quatro artigos desta questão 44. Vamos a eles.
Deixe um comentário