No texto anterior, vimos às respostas de Tomás aos argumentos de números um, dois e três. Examinaremos agora os argumentos quatro, cinco e seis.

O quarto argumento é um argumento de congruência. De fato, diz o argumento, quando o Filho foi enviado visivelmente, ele o foi assumindo uma natureza humana. Sabemos, prossegue o argumento, que a natureza humana é a mais digna dentre as coisas criadas, dada a sua inteligência e a sua vontade, que lhe dão a espiritualidade, tornando-a a mais digna de todas as naturezas criadas. Não seria de se esperar, portanto, que o Espírito Santo, se fosse enviado visivelmente, assumisse igualmente uma natureza humana, de igual dignidade com aquela assumida pelo Filho? Como imaginar que o Espírito Santo viesse a manifestar-se na forma de coisas inanimadas, como as línguas de fogo, ou mesmo de animais irracionais, como a pomba? Desta constatação o argumento se nega a reconhecer, em tais manifestações, missões visíveis da Pessoa do Espírito.

São Tomás inicia sua resposta lembrando o princípio, já estabelecido aqui neste artigo, de que, sendo o Filho aquele que é autor do Espírito Santo pela espiração comum com o Pai, é também o autor da nossa santificação no amor. Assim, na sua missão visível, era conveniente que ele se manifestasse como pessoa humana, capaz de agir livremente e, portanto, capaz de nos ensinar, na prática, o caminho da santificação, por palavras e gestos dotados de amor. O Espírito Santo é, ele próprio, o dom de Deus para a nossa santificação; assim, sua missão é apenas a de manifestar sua presença tangivelmente, de modo a atestar visivelmente a missão invisível de santificação que ele realiza em nós. Está ausente, pois, da missão do Espírito Santo a dimensão de exemplo, de caminho manifestado; suas missões são, digamos assim, para atestar sua ação invisível. Por isto, não seria inconveniente que ele assumisse naturezas menos nobres do que aquela assumida pelo Filho, se tais naturezas fossem adequadas (e o são) para manifestar o objetivo de sua missão naquele momento. É por isto que não é inconveniente que ele se manifeste como línguas de fogo, ou como pomba, porque ele não quer exemplificar, apenas sinalizar. O Espírito Santo não se manifesta como pomba para nos ensinar a ser pomba, senão para atestar a sua presença na divina missão do Filho.

O quinto argumento lembra que, como ensina Agostinho, o papel dos anjos é exatamente o de mensageiros entre o mundo divino, espiritual, e o nosso mundo material. Assim, diz o argumento, se determinadas manifestações materiais surgem para tornar tangíveis as coisas divinas, não deveríamos ver nelas missões visíveis do Espírito Santo, mas apenas manifestações tangíveis dos anjos, conclui o argumento.

São Tomás responde que ninguém quer excluir a participação dos anjos nas manifestações tangíveis que são as missões visíveis do Espírito Santo, como tampouco eles estiveram ausentes da missão visível do Filho (cf., por exemplo, Lc 1, 26, Mc 16, 5). Nada impede que, por exemplo, as línguas de fogo tenham sido materialmente formadas pelo ministério dos anjos. Mas o certo é que elas foram formadas para tornar visível e significar a presença do Espírito Santo, não dos anjos. É por isto que estas missões visíveis são missões do Espírito Santo, não dos anjos.

A sexta objeção qualquer associar de modo inexorável a missão invisível a uma missão visível, para negar que a missão visível seja necessária, ou mesmo conveniente. Se a missão visível existe, diz o argumento, é para tornar manifesta a missão invisível, e não haveria outro modo, diz o argumento, pelo qual a missão invisível ficasse manifesta, senão quando acompanhada por uma missão visível. Ora, prossegue, a Escritura narra muitos acontecimentos que são missões invisíveis do Espírito, como os carismas enumerados em 1 Cor 12, 4 – 11. Assim, prossegue, seria de se esperar que cada missão invisível registrada na Bíblia fosse acompanhada de uma missão visível que a tornasse manifesta, para que pudesse ser objetivamente conhecida e registrada por escrito. Mas isto obviamente não ocorre na Bíblia, porque há diversos fatos registrados que manifestam carismas e graças sem que haja registro de alguma missão visível simultânea a eles. Disso o argumento conclui que falar de missões visíveis do Espírito Santo não é conveniente.

Esta conexão não é necessária, diz São Tomás em sua resposta. Não é impositivo que cada missão invisível do Espírito Santo seja acompanhada por uma missão visível que a manifeste. A missão do Espírito, diz São Paulo em 1 Cor 12, 7, tem como critério ser “para o bem de todos”, ou seja, para o bem da Igreja, que é a comunidade d da salvação. Portanto, aquelas missões cuja utilidade se esgota na graça resultante da própria missão invisível não precisa acompanhar-se por alguma missão visível. A missão visível ocorre, portanto, diz Tomás, quando a própria visibilidade de algum modo faz com que a missão atinja seu objetivo, isto é, fazer bem à Igreja. Neste caso, a visibilidade concorre para confirmar ou propagar a fé, autenticando-a. Mas quando a visibilidade seria apenas um acréscimo gratuito, ou seja, transformaria a missão num espetáculo, numa exibição, ela não somente é desnecessária como seria inconveniente. Deus tem muito pudor quanto a si mesmo, como lembra Provérbios 25, 2: a glória de Deus é ocultar-se, a glória do rei é buscá-lo.

Neste sentido, e obedecendo a estes princípios, é de se esperar que missões visíveis do Espírito Santo tenham ocorrido, para o bem da Igreja, para autenticar o ministério de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos seus Apóstolos, de modo a tornar evidente a assistência do Espírito Santo no estabelecimento dos próprios pilares da fé e na sua transmissão autêntica, tornando segura a sua recepção, sua conservação e sua transmissão. Neste ponto, São Tomás cita a Carta aos Hebreus, 2, 3: a salvação começou a ser anunciada pelo Senhor; depois, foi-nos fielmente transmitida por aqueles que a ouviram.

Assim, diz Tomás, é evidente a utilidade das missões visíveis que autenticaram, primeiro, o magistério de Jesus Cristo e, depois, o magistério dos Apóstolos e a recepção e transmissão de fé pelos primeiros santos. As missões visíveis lançam, portanto, os próprios alicerces da Igreja. E São Tomás passa a visitar cada uma destas missões, demonstrando sua conveniência.

A concepção de Jesus, como narrada em Lucas 1, 35, deu-se por uma missão invisível do Espírito Santo. Não se tratou de um fato público, mas de uma relação de amor muito particular de Deus com Nossa Senhora. Mas o início do ministério público de Jesus é acompanhado por uma missão visível do Espírito Santo, que aparece no batismo em forma de pomba, inclusive para autenticar a origem divina de Jesus que ocorreu naquela missão invisível da concepção, agora manifestada.

Assim, a missão visível do Espírito Santo no batismo dá-se pela aparição em forma de pomba; a pomba, diz Tomás, sendo um animal fecundo, atesta a fecundidade do ministério de Jesus, que nos gera para Deus. É esta fecundidade, diz Tomás, na nossa regeneração para a filiação divina, que fica ressaltada pela voz do Pai, que declara: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3, 17). Poderíamos completar que a pomba nos remete à paz estabelecida entre Deus e a humanidade, em Noé, em Gn 8, 8.

Em seguida, Tomás lembra da missão visível do Espírito Santo na oportunidade da transfiguração; nesta oportunidade, o Espírito Santo manifesta-se como nuvem luminosa, mostrando a densidade, a grandeza do ensinamento de Jesus. É por isto que nesta oportunidade ouve-se a voz do Pai nos aconselhando: ouvi-o.

Quanto às missões visíveis feitas aos apóstolos, São Tomás lembra que o Evangelho de João (20, 22) registra que o Ressuscitado sopra sobre eles o Espírito; este sopro, como missão visível do Espírito, manifesta o poder sacerdotal, concedido aos Apóstolos, para dispensar aos fiéis os sacramentos; é por isto que, dispensando o Espírito como sopro, Jesus ressuscitado lhes declara: “Recebei o Espírito Santo; aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados”.

Quanto à missão visível do Espírito em Pentecostes, na forma de línguas de fogo, ela existiu para autenticar o encargo, dado a eles, de anunciar o Evangelho a todas as criaturas, ensinando a observar o que Jesus lhes tinha ordenado; isto se evidencia, diz Tomás, pelo registro que o livro de Atos dos Apóstolos faz do fato de que, havendo recebido o Espírito, eles “começaram a falar em várias línguas” (At 2, 4).

Por fim, São Tomás revisita as manifestações divinas no Antigo Testamento. Seriam elas também missões visíveis do Espírito Santo? A rigor, não, diz Tomás. Era necessário que a missão visível do Filho se cumprisse antes daquela do Espírito Santo, diz Tomás. Na ordem trinitária, o Espírito Santo manifesta o Filho, e o Filho manifesta o Pai. Assim, antes que o Filho fosse manifestado, não haveria sentido em haver uma missão visível do Espírito Santo. É certo que há manifestações divinas na Antiga Aliança, diz Tomás. Mas elas não se caracterizam como missões visíveis, a rigor. A missão visível, diz Tomás, é a manifestação da própria Pessoa que foi enviada em missão, para levar à inabitação da Trindade na alma do destinatário. As manifestações divinas na Antiga Aliança, no entanto, manifestavam outras coisas (profecias, eleição de reis, castigos divinos, por exemplo). Não podem, portanto, ser chamadas de “missões visíveis”.