No texto passado, colocamos os termos do debate sobre a possibilidade de uma missão visível do Espírito Santo e, em sua resposta sintetizadora, São Tomás nos mostrou que uma missão visível seria muito conveniente, uma vez que, como seres materiais que somos, o nosso conhecimento necessita do contato com os seres materiais, que impressionam nossos sentidos, para aperfeiçoar-se. As missões invisíveis do Espírito Santo são, realmente, perceptíveis para a nossa intuição; e São Tomás registra o ensinamento de Santo Agostinho, no sentido de que a missão pode ser percebida por seu destinatário, quando é levado, pela graça, no caminho da santificação. Mas a missão visível tem a função de autenticar esta percepção interior, dar os critérios objetivos para discernir a presença de Deus em nós. Porque, de fato, como lembra São Paulo, Satanás sabe se disfarçar em anjo de luz (2 Cor 11, 14). Ao manifestar-se visivelmente, portanto, o Espírito Santo se faz intelectualmente conhecido a nós e evita enganos quanto a intuições interiores que, muitas vezes, podem ser simplesmente enganosas. Neste sentido, as missões visíveis do Espírito Santo, como veremos, aparecem no contexto da autenticação da santidade da missão visível de Jesus e, mais tarde, como autenticação da missão da Sua Igreja.
Mas a resposta sintetizadora de Tomás, que vimos no texto anterior, será muito enriquecida, agora, com as respostas que ele dá aos argumentos objetores iniciais, e que passamos a examinar.
O primeiro argumento objetor lembra que as Escrituras afirmam que o Filho, enquanto esteve encarnado em sua missão pré-pascal, era inferior ao Pai (Jo 14, 28). A visibilidade, decorrente da encarnação, como missão visível, é uma kenosis , um esvaziar-se, um diminuir-se da Pessoa divina (Filipenses 2, 7) Mas não há nenhum registro escriturístico de que o Espírito Santo tivesse, em qualquer momento, passado por alguma situação que o deixasse menor do que o Pai. Portanto, conclui o argumento, não se poderia imaginar uma missão visível do Espírito Santo.
São Tomás vai responder com uma verdadeira aula de cristologia. A missão visível do Filho ocorreu, diz Tomás, porque o Filho assumiu uma natureza humana que, com a sua natureza divina, constituiu-se numa Pessoa humano-divina, com unidade substancial. O que quer dizer isto? Quer dizer simplesmente que a missão do Filho era vir como a pessoa maravilhosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, que era uma só pessoa com duas naturezas, humana e divina. Exatamente o fato de ter assumido em si a natureza humana, diz Tomás, determina que o Filho, na sua missão visível, fosse considerado menor que o Pai, na exata medida que a natureza humana assumida é menor do que a divina. Por isto, diz Tomás, é que tudo aquilo que dizemos a respeito do ser humano Jesus Cristo, dizemos igualmente da Pessoa divina do Filho, devido à unidade substancial do Filho encarnado. O Filho assumiu perfeitamente a natureza criatural do ser humano numa unidade substancial, quer dizer, Jesus e o Filho são uma só e mesma pessoa.
Mas isto nunca aconteceu com o Espírito Santo. Nas suas missões visíveis, ele jamais assumiu uma natureza criatural em unidade substancial com sua natureza divina. Vale dizer, o Espírito Santo jamais se fez um com alguma criatura, como ocorreu com o Filho, de uma maneira tal que tudo aquilo que disséssemos da criatura, fosse dito também do Espírito Santo. Ninguém jamais diria, por exemplo, que o Espírito Santo é uma língua de fogo composta de comburente e combustível, que queima a 200 graus, etc, como dizemos que Jesus tinha cabelo, unhas, etc. Assim, diz Tomás, se é em razão da unidade substancial com uma natureza criatural que se diz que “o Pai é maior do que o Filho”, esta afirmação não se aplica a nenhuma missão visível do Espírito. Portanto, esta objeção não é válida.
O segundo argumento objetor é sutil, como é sutil a sua resposta. Devemos acompanhá-la com atenção.
A missão visível, diz o argumento, pode ser definida como aquela missão na qual uma criatura visível é assumida por uma Pessoa divina, que torna-se, assim, presente aos sentidos humanos de maneira concreta, existente no mundo real: pode ser vista, ouvida, tateada, e assim por diante. Isso se deu com a Pessoa do Filho, que assumiu a humanidade em Jesus Cristo e, portanto, podia ser visto, ouvido e experimentado mesmo por quem não tinha fé. Mas, diz o argumento, o Espírito Santo nunca assumiu nenhuma criatura (humana ou não) como o Filho assumiu a humanidade em Jesus. De fato, todas as criaturas revelam, de algum modo, a presença e a ação da Trindade santa, mas apenas de uma forma ordinária, como as criaturas ordinariamente revelam o Criador, sem que nenhuma delas o faça de um modo mais especial que qualquer outra. Não se pode considerar como “missão visível”, diz o argumento, as visões simbólicas dos Profetas e videntes do Antigo Testamento, ou mesmo as figuras de ventos, raios, águias ou nuvens por eles experimentadas como revelando simbolicamente a ação de Deus, nem mesmo a presença do Espírito Santo nos sacramentos da Nova Aliança como o óleo da unção, a água do batismo ou a imposição das mãos da ordenação, porque há, aí, uma presença instrumental destinada a ser canal da graça para quem recebe o respectivo sacramento. Assim, como este tipo de presença é muito diferente daquela manifestada na missão visível do Filho em Jesus, ou nós mudamos o sentido da expressão “missão visível” para incluir a presença instrumental ou simbólica, ou temos que admitir, conclui o argumento, que não há missões visíveis do Espírito Santo.
São Tomás diz que a visão imaginária ou espiritual, na qual o Espírito Santo se dá à imaginação do profeta, existe de fato em toda a história da salvação. Neste caso, porém, vê-se o Espírito de Deus com os olhos da fé, mas não com os olhos do rosto. Mas não é disto que estamos falando, diz Tomás, quando as Escrituras narram a aparição do Espírito Santo como pomba, no batismo de Nosso Senhor (Mc 1, 10 e paralelos). Tampouco é o caso das línguas de fogo que vieram aos Apóstolos em Pentecostes. Nos dois casos, trata-se de aparições que se deram visivelmente, por criaturas reais, que eram reais não somente ao senso profético, à imaginação da fé de quem os viu, mas objetivamente a todos os que estavam presentes, já que eram missões que se concretizaram em criaturas reais, como o fogo e a pomba.
Neste caso, diz Tomás, a situação é diferente daquela em que alguma realidade preexistente é tomada para significar a ação de uma Pessoa trinitária em favor do povo, como é o caso da rocha que brotou água para Israel no deserto, e que, segundo São Paulo, era figura de Cristo seguindo seu povo e saciando-o (1 Cor 10, 4). A O fato de que a pedra era, segundo São Paulo, figura de Cristo não a transforma em suporte material de missão visível do Filho, como a pomba e o fogo eram suporte material de missões visíveis do Espírito. A própria existência material destes seres, a pomba e o fogo, é irrelevante fora da própria missão. Não se trata, pois, de interpretar o seu surgimento em determinado tempo e lugar como algo que significa ou figura o Espírito Santo, conforme alguém possa interpretar profeticamente, mas são elas mesmas, as próprias coisas, que presentificam o Espírito aos que testemunham aquela situação. Neste sentido, diz Tomás, a pomba e as línguas de fogo são similares à sarça ardente que apareceu a Moisés (Ex 3, 2 e seguintes), que não era algo como uma imagem simbólica de Deus ou uma visão profética do tipo que Ezequiel descreve em Ez 1, 4 e seguintes. A visão profética, diz Agostinho, não se dá aos olhos do rosto, mas à visão do espírito. Neste sentido, a pomba e as línguas de fogo são similares à sarça ardente, à coluna de nuvens que seguia o povo no deserto e aos raios e trovões que se manifestam no Sinai na entrega da lei. Em todos estes casos, diz Tomás, há verdadeiramente missões visíveis. Neste caso, diz Tomás, estas coisas existiram simplesmente para trazer à tangibilidade do mundo criatural a realidade das Pessoas cuja missão elas tornaram palpável. Diferem, assim, tanto: 1) das visões e figuras proféticas, experiências reais, mas subjetivas, quanto 2) das coisas que, sendo em si mesmas significativas, como o óleo e a água, são assumidas como sinais da graça nos sacramentos, de modo instrumental, para santificar quem os recebe. No caso dos sinais sacramentais, diz Tomás, é preciso tomar água, pão ou óleo, subtraí-los do seu uso ordinário para consagrá-los a tornarem-se sinais visíveis da graça. Nas missões visíveis, a coisa que revela tangivelmente a missão existe em função dela e para ela, sendo irrelevante que eventualmente preexistisse materialmente. Neste sentido, por exemplo, as línguas de fogo de Pentecostes não dependeram, para a sua existência, da prévia disposição de velas, candeeiros ou combustível que viessem a ser assumidos pelo Espírito Santo em sua missão visível, como a presença eucarística do Senhor depende do pão e vinho ofertados na missa.
O terceiro argumento objetor lembra que todas as criaturas são efeitos que demonstram a existência e a presença da Trindade Santa, pela sua mera existência (cf. Rom 1, 19 – 20). Assim, a rigor, se as criaturas revelam Deus, teríamos dizer que cada criatura é uma “missão visível da Trindade”, e seria redundante afirmar que determinada criatura pudesse consistir numa missão visível do Espírito Santo – ele não é mais enviado visivelmente do que qualquer das Pessoas da Trindade.
São Tomás responde que, de fato, pela simples razão de ser criatura, vê-la significa, para nós, pela sua simples existência, uma revelação da Trindade criadora. Mas, uma vez que a missão divina consiste exatamente em estar de maneira nova, especial, ali onde já se estava da maneira, digamos, ordinária, as coisas que tornam tangível uma Pessoa divina numa missão visível são criadas ou assumidas para fazê-las presentes de modo especial, ou seja, para presentificar a missão daquela pessoa distinta; isto não significa, diz Tomás, nenhuma separação da Trindade criadora na relação com a existência criatural daquele ser, senão que a distinção mesma das Pessoas na Trindade permite que uma criatura manifeste especialmente uma delas numa missão, significando-a especificamente na sua distinção sem separação, sem que daí se possa deduzir que a sua existência criatural não revele a própria Trindade criadora.
Veremos as demais objeções no próximo texto.
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