Para qualquer um que conheça minimamente a história da salvação, parece ser óbvio associar a “missão visível”, aquela que se dá aos sentidos, que ocorre no mundo real, que pode ser percebida externamente por nós, ao envio do Filho para, encarnando-se na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, operar nossa salvação pelo mistério pascal. Ao Espírito Santo parece convir a missão invisível, aquela que percebemos pela nossa inteligência, pela nossa intuição, pelos nossos sentidos internos, mas que não é aparente, senão indiretamente, para os demais. A experiência interior de caminhar com Deus sempre foi muito relacionada ao Espírito Santo, sua graça, seus carismas, suas consolações, a caridade que ele derrama em nós.

A experiência de ver Jesus, em sua caminhada terrena (e mesmo em sua ressurreição) era a experiência de ver alguém concreto, no mundo exterior, e foi igualmente compartilhada por quem tinha fé e por quem não a tinha. Mesmo o Ressuscitado, aparecendo a Paulo no caminho de Damasco, deixou-se perceber pelos companheiros de Paulo, ou seja, foi uma aparição real, externa, objetiva, que deu-se aos sentidos de quem estava por perto. Mas do Espírito Santo dificilmente pensamos em termos de envio perceptível, de missão visível. Será que existem missões visíveis do Espírito Santo? Em outras palavras, será que o Espírito Santo alguma vez se materializa, ou mesmo se encarna?

Esta é exatamente a hipótese controvertida, que inicia o debate nesta questão. Parece que não é adequado ao Espírito Santo ser enviado visivelmente, ou seja, receber missões que o tornem fenomenologicamente perceptível no mundo das coisas. Não seria próprio do Espírito Santo materializar-se, ou mesmo encarnar, diz a hipótese. Este é um artigo longo, e há nada menos do que seis argumentos objetores, no sentido da hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento objetor lembra que, segundo as Escrituras, o Filho, quando foi enviado visivelmente ao mundo, declarou que, na sua encarnação, considerava-se “menor do que o Pai” (João 14, 28). Logo, a missão que envolve materialização, visibilidade, faz com que a Pessoa fique numa condição de kenosis, de diminuição com relação ao Pai (Filipenses 2, 6 – 7). Mas, diz o argumento, enquanto há vários registros, quanto ao Filho, relativos a esta “diminuição” causada pelo envio em missão visível, não há, nas Escrituras, nenhum registro de que, em algum momento ou por qualquer razão, o Espírito seja menor do que o Pai. Disso o argumento conclui que a missão visível é inadequada ao Espírito Santo.

O segundo argumento parte da ideia de que uma missão visível implica admitir que a Pessoa divina surgiu como criatura, tendo assumido a própria existência da criatura como sua. Foi o caso da natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja existência na natureza criatural foi plenamente assumida pelo Filho de tal modo que as duas naturezas, humana e divina, formavam uma só e mesma Pessoa. Não podemos considerar como análogos à encarnação do Filho a simples presença do Espírito Santo nos sinais sacramentais ou mesmo nos símbolos e nas visões proféticas do Antigo Testamento, diz o argumento, porque, nestes casos, a relação entre o sinal e o Espírito não é de consubstancialidade, mas apenas uma relação acidental, passageira, que depende de fé para ser observado e interpretado; pode ser, portanto, reduzido a um caso de percepção interna de uma realidade invisível, mas não equiparado a uma missão visível. Disto tudo, e uma vez que as Escrituras sempre relacionam as manifestações do Espírito Santo a sinais deste tipo, o argumento conclui que não se pode falar em missão visível do Espírito Santo em sentido próprio.

O terceiro argumento parte da ideia de que as criaturas, por sua existência mesma, são, para nós, sinais do Criador; assim, diz o argumento, toda criatura, de alguma maneira, nos revela Deus, e Deus, sabemos nós, é Trindade. Ora, se as criaturas são sinais concretos, existentes, de Deus, então, se as enxergamos como sinais de missões visíveis, teriam que ser missões da Trindade inteira, não apenas do Espírito Santo. E o argumento conclui que seria impróprio, portanto, falar em missões visíveis especificamente do Espírito Santo.

O quarto argumento parte da ideia de que a Pessoa do Filho manifestou-se assumindo a natureza humana em Jesus Cristo; ora, diz o argumento, a natureza humana é a mais alta dentre as coisas materiais. Não seria digno, pois, que o Espírito Santo se manifestasse visivelmente, senão assumindo uma natureza de igual dignidade àquela assumida pelo Filho, vale dizer, uma natureza humana. Como não se tem notícia de que o Espírito Santo tenha encarnado como ser humano, então o argumento conclui que não seria adequado falar numa missão visível do Espírito Santo.

O quinto argumento afirma que, aquilo que Deus realiza visivelmente em nosso mundo, como manifestação material de sua providência, ele o faz, segundo Santo Agostinho, através dos anjos, que são, por definição, estes mensageiros entre a realidade divina e a nossa. Assim, diz o argumento, se vier a acontecer alguma manifestação divina visível, perceptível fisicamente pelos sentidos, ela ocorreria através do envio dos anjos, não por missão visível do Espírito Santo.

O sexto argumento faz uma relação de necessidade entre a missão visível e a missão invisível. Se há uma missão visível, diz o argumento, sua única razão de ser seria manifestar a existência de uma missão invisível relacionada a ela, já que as coisas invisíveis tornam-se conhecidas apenas quando são manifestadas visivelmente. Deste princípio que o argumento assume, ele tira duas conclusões: 1) se não há uma missão invisível, tampouco deveria haver uma visível. 2) Observado este princípio, teríamos que admitir que, toda vez que houve uma missão invisível do Espírito Santo, ainda que no Antigo Testamento, deveria ter havido também, e simultaneamente, uma missão visível para torná-la manifesta. Mas é claro que isto não ocorreu, diz o argumento. As missões invisíveis do Espírito Santo, registradas nas Escrituras, não estão relacionadas inseparavelmente com alguma missão visível da mesma Pessoa. Disso, ele conclui que o Espírito Santo nunca é enviado em missão visível.

Por fim, o argumento sed contra cita Mateus 3, 16, que narra que o Espírito Santo desceu sobre Jesus, em seu batismo, na forma de uma pomba, para provar que as Escrituras registram, de modo indiscutível, missões visíveis do Espírito Santo.

Postos assim os termos do debate, São Tomás passa a dar sua própria resposta sintetizadora.

Somos seres humanos, diz São Tomás. Essencialmente seres de corpo e alma, seres de matéria e espírito. Para nós, portanto, o meio ordinário de ter acesso às coisas invisíveis, como as abstrações, as formas, os conceitos, as definições, é pelas coisas materiais. É, por exemplo, contando pedrinhas que chegamos ao reino altamente abstrato e invisível da matemática. Não é à toa que a mesma palavra, cálculo, signifique “pedrinha” e também signifique a ciência de fazer contas.

Com relação à Revelação divina, algo similar ocorre. Para que a Revelação nos alcance, é preciso que as realidades divinas, invisíveis para nós, tornem-se de algum modo visíveis, de forma a nos permitir conhecê-las. Foi assim que ele se revelou a nós, em sua realidade maravilhosa e, em especial, em sua intimidade trinitária. É assim que a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, expressa esta dialética do visível e do invisível na Revelação divina, ao nos ensinar que “a ‘economia’ da revelação realiza-se por meio de ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido.” (DV 2)

A Revelação dos mistérios invisíveis de Deus, para nós, deu-se por meio de suas criaturas, que o manifestam por certos sinais visíveis e indícios que tornam Deus manifesto para nós, e nos possibilitam conhecê-lo e, principalmente, entrar em comunhão com ele. Mas, diante da própria distinção de relações entre o Filho e o Espírito, diz Tomás, seria de esperar que suas missões visíveis também fossem diversas, diferentes mesmo entre si. Assim, o Espírito é amor, é o próprio dom de Deus para a nossa santificação. O Filho é princípio do Espírito Santo, espirando-o conjuntamente com o Pai. É, portanto, autor do Espírito, e, por consequência, da nossa santificação, lembra Tomás. Assim, o Filho é enviado visivelmente como autor de nossa santificação, enquanto o Espírito, quando foi enviado visivelmente, isto ocorreu como marca, como indício, prova de certificação da nossa santificação. Esta diferença será explorada ainda mais profundamente nas respostas às objeções iniciais, que são um tanto longas neste artigo, e que examinaremos no próximo texto.