Eis um assunto que se tornou distante e obscuro para nós, da contemporaneidade: a graça. Como vimos no artigo 3 desta questão, a graça é a condição para a missão invisível das Pessoas Divinas em nós. Ou seja, cada vez que há uma missão divina, há o dom da graça santificante, criada em nós, para que possamos receber as Pessoas em missão e, mais do que isto, possamos nos tornar habitação da Trindade.
Mas a pergunta aqui é a inversa: cada vez que a graça age em alguém, em alguma pessoa humana, eu poderia afirmar, com certeza, que houve uma missão invisível de alguma Pessoa trinitária agindo nela? Muito interessante a questão. Seria, assim, uma espécie de indício, de rastro da relação especial da Trindade com seus filhos, se pudéssemos nos assegurar de que, cada vez que alguém foi movido pela graça, tratava-se de uma missão especial de Deus agindo nele. Os santos, então, seriam um testemunho vivo da intensa ocupação de Deus com os seus filhos amados. E mais: teríamos que reconhecer, na nossa vida, que fomos muitas vezes destinatários de missões trinitárias invisíveis, cada vez que fomos movidos a alguma atividade santa, como a caridade ou a participação sacramental. Num mundo para quem Deus parece tão distante e opaco, trata-se de uma transparência atordoante. Trata-se, além disso, de reconhecer que Deus toma sempre a iniciativa em nossa vida – aquilo que o Papa Francisco menciona, de modo alegre e curioso, quando diz que “Deus nos primeireia” na nossa própria santidade. Se pudermos ter certeza de que alguém agiu sob o poder da graça, poderemos ter certeza de que uma Pessoa divina o visitou em missão.
A hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, busca exatamente tornar incerta esta relação entre a missão invisível e a graça. A hipótese diz que parece que nem sempre se pode dizer que houve uma missão invisível, mesmo quando alguém participa da graça de algum modo.
São quatro os argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial. Cada um lida com um aspecto da santidade, comparando-o com a graça e com as missões invisíveis.
O primeiro argumento lembra a santidade na Antiga Aliança, entre os Patriarcas do Velho Testamento. Eles participaram da graça, não há dúvida, diz o argumento. Mas ocorre que, à época dos Patriarcas, o Espírito Santo não fora dado aos homens, como diz João 7, 39: “não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado”. Ora, prossegue o argumento, se não havia o Espírito, não poderia haver uma missão invisível, já que, como vimos no artigo interior, a missão das Pessoas é indivisível. Disso o argumento conclui que não há uma relação necessária entre a atuação da graça nas criaturas e a missão invisível das Pessoas divinas.
O segundo argumento trata do crescimento das virtudes na vida de santificação. Ele lembra que a vida virtuosa, especialmente quanto às chamadas virtudes teologais (fé, esperança e caridade) não transcorre ordinariamente aos saltos, miraculosamente, mas por crescimento paulatino, contínuo, ou seja, a vida virtuosa é construída por progresso, por caminhada. O argumento até chega a lembrar que a caridade, por exemplo, é uma daquelas virtudes que não pode ficar parada; ou cresce ou tende a desaparecer. Ora, diz o argumento, não há dúvida de que a graça santificante é essencial para a aquisição e o crescimento das virtudes na vida cristã, ou seja, a presença da graça santificante, na vida cristã que caminha para a santidade, é permanente. Mas, prossegue o argumento, se imaginássemos que a missão invisível fosse necessariamente relacionada, em toda a extensão, com a graça santificante, então teríamos que imaginar que a missão invisível seria contínua, na vida dos santos. Disso, o argumento conclui que a missão não é coextensiva com a graça santificante.
O terceiro argumento fala daqueles que atingiram a santidade, ou que são santos por definição, partindo da ideia de que em Cristo a graça é plena, assim como naqueles que vivem plenamente as bem-aventuranças, (como Nossa Senhora, exemplificaríamos). Eles já estão plenamente na presença de Deus. Mas a missão, diz o argumento, pressupõe que o seu destinatário não tenha a posse plena de Deus, porque envolve uma distância a ser vencida, uma estranheza que enseja, pela missão, um novo modo de a Trindade existir neles. Por isto, o argumento conclui que a presença da graça nem sempre está necessariamente relacionada com a atualidade das missões invisíveis.
O quarto argumento lembra a vida sacramental. Os sete sacramentos da Igreja, instituídos por Nosso Senhor na economia da nova aliança, são, por definição, sinais visíveis da graça invisível e eficaz. Mas, prossegue o argumento, não se poderia imaginar que houvesse uma “missão invisível” cujos destinatários fossem os próprios sacramentos, em sua materialidade (o pão, a água, o óleo, etc.). Então, conclui o argumento, as missões invisíveis não estão relacionadas necessariamente com a graça santificante.
Como argumento sed contra, uma citação de Santo Agostinho, que expressamente diz, no seu Tratado sobre a Trindade, que a missão invisível se realiza para santificar a criatura. Ora, diz o argumento, toda criatura que está na graça é santificada. Assim, conclui, a missão invisível se realiza em toda criatura que está na graça santificante.
Colocados os pressupostos do debate, examinemos a resposta sintetizadora de São Tomás.
Ele começa lembrando o conceito de missão. Entre nós, humanos, dizemos que alguém está em missão quando alguém passa a estar em algum lugar no qual antes não estava; no caso das missões divinas, dada a onipresença de Deus, não se trata de estar ali onde antes não estava, mas apenas de estar de maneira nova ali onde já se estava. Ou seja, a missão invisível das Pessoas divinas significa que estas pessoas passam a morar no intelecto da criatura, como conhecidas, e no seu coração, como amadas. Assim, naqueles que são destinatários da missão, diz Tomás, há dois efeitos: a inabitação da graça, que seria, assim, como a graça vista sob seu ponto de vista estático, e a movimentação ou provocação, vale dizer, uma inovação provocada pela graça. Seria, digamos, a dinâmica da graça. Ali, pois, onde há essas duas coisas (1. A permanência da graça e 2. este impulso, este caminhar para a novidade), há, com certeza, inseparavelmente, concomitantemente, a missão invisível das Pessoas divinas.
Postos, pois, os critérios para resolver o debate, São Tomás passa a examinar as objeções iniciais.
O primeiro argumento lembra que muitos homens e mulheres citados no Antigo Testamento participaram da graça divina, sendo considerados patriarcas na fé. Mas ocorre que, à época dos Patriarcas, o Espírito Santo não fora dado aos homens, como diz João 7, 39: “não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado”. Disso o argumento conclui que não houve eenvio do Espírito nem missão invisível, relativamente à graça que lhes fora dada.
São Tomás não concorda. A missão invisível, diz ele, efetivou-se de fato nos patriarcas e matriarcas da Antiga Aliança, que viveram, pela graça, uma vida agradável a Deus. De fato, em apoio à sua afirmação, ele resgata uma citação de Santo Agostinho, que expressamente afirma que o Filho, por sua missão invisível, “torna-se presente nos seres humanos e com os seres humanos, e isto realizou-se, noutros tempos, com os Patriarcas e os Profetas”. Por isto, diz Tomás, quando o Evangelho de João diz que “o Espírito ainda não fora dado” antes da glorificação de Jesus, diz Tomás, ele estava se referindo especificamente à doação visível do Espírito Santo à sua Igreja, em Pentecostes, e não a toda e qualquer missão invisível.
O segundo argumento trata do crescimento das virtudes na vida de santificação. Ele quer estabelecer que a missão invisível ocorre apenas quando há uma inovação, um salto, um evento de graça na vida do destinatário, mas não quando há o crescimento paulatino das virtudes no caminho de progresso na fé. Se fosse assim, diz o argumento, teríamos que admitir que a missão invisível seria contínua, permanente na vida dos santos, já que a graça santificante se faz presente neles não somente nos momentos de eventos transformadores, mas no próprio crescimento paulatino das virtudes; é fácil imaginar a presença permanente da graça, no crescimento das virtudes, conclui, mas se imaginássemos que a missão invisível é necessariamente relacionada, em toda a extensão, com a graça santificante, então teríamos que imaginar que a missão invisível seria contínua e permanente, na vida dos santos. Disso, o argumento conclui que a missão não é coextensiva com a graça santificante.
São Tomás discorda desta conclusão. O crescimento paulatino nas virtudes também revela que há a missão divina invisível para aquela criatura em seu processo de santificação. E para sustentar sua afirmação, cita mais uma vez Santo Agostinho; Agostinho nos diz que o Filho é enviado a cada alma racional que progride ou que é perfeito na graça, e que este envio é percebido na medida do progresso pessoal do destinatário nos caminhos da santificação. Ou seja, diz Tomás, há missão também quando há o crescimento progressivo e lento no caminho das virtudes. Porque este crescimento também é fruto da graça. Mas São Tomás ressalta que esta percepção da missão é muito mais clara, de fato, quando provoca um salto na graça, um novo ato ou um novo estado de santidade, ou mesmo um fruto visível na vida de alguém, como no caso dos carismas, dos milagres, do martírio e de outras obras extraordinárias da graça em nós. Mas nem só de milagres, saltos e carismas vive a nossa santificação: também recebemos de Deus, por missão invisível das Pessoas, o crescimento árduo e cotidiano das virtudes, caminho ordinário de santificação.
O terceiro argumento parte do fato indiscutível de que Jesus, em sua vida terrena, e Maria, chamada pelo anjo de “plena de graça” (Lucas 1, 28) vivem na graça plena, tendo atingido total intimidade com Deus; também os santos, bem-aventurados, têm Deus presente perfeitamente em sua vida. Se não há distância entre eles e Deus, diz o argumento, não se pode falar de missão, quanto a eles, porque a missão pressupõe a distância, a estranheza, o envio que causa um novo modo de estar no destinatário, e, nestes, Deus já está plenamente. Assim, o argumento conclui que a presença da graça não está inextrincavelmente ligada às missões invisíveis.
São Tomás vai responder que a missão invisível se realiza, nos bem-aventurados, desde o primeiro momento de sua bem-aventurança, até o juízo final, não porque não tenham o gozo pleno da graça, mas porque sempre lhes é concedida a penetração mais profunda nos mistérios divinos, inesgotáveis por definição. No caso de Jesus, a missão invisível deu-se no primeiro instante de sua concepção, conforme Lucas 1, 35; concebida Sua pessoa humana maravilhosa, plena de graça e sabedoria, ele tinha em si, com a sua natureza humana, visível, palpável, a natureza divina, de tal modo que se pode falar, aí, de missão visível de uma Pessoa trinitária.
O quarto argumento lembra que os sete sacramentos da Igreja são, por definição, sinais visíveis da graça invisível e eficaz. Mas, prossegue o argumento, não se poderia imaginar que houvesse uma “missão invisível” cujos destinatários fossem os próprios sacramentos, em sua materialidade (o pão, a água, o óleo, etc.). Então, conclui que as missões invisíveis não estão relacionadas necessariamente com a graça santificante.
Mas não é assim, diz Tomás. A graça não está nos próprios sacramentos como destinatários dela. Eles são apenas instrumentos da graça, cujo destinatário somos nós, os que caminham para a santificação. Assim, a missão está envolvida com os sacramentos, diz Tomás, tanto quanto o escultor está envolvido com o martelo e o cinzel, ou o cirurgião está envolvido com o bisturi: os sacramentos são os instrumentos que permitem à missão invisível alcançar eficazmente, na graça santificante, seus verdadeiros destinatários, que somos nós.
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