Vimos, no artigo anterior, que a noção de missão não é adequada ao Pai. A missão pressupõe ser uma pessoa que procede de outra, porque pressupõe, para o envio, uma origem. Mas o Pai não tem origem; vale dizer, ele é a própria origem ingênita. Não haveria, pois, quem o enviasse.

O debate, agora, diz respeito à adequação da noção de “missão invisível” ao Filho. De fato, não há problema em conceber o envio do Filho na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo; esta é a sua missão visível, tangível, palpável. Encarnado. Mesmo a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na eucaristia é sacramental e, portanto, tem um suporte material, visível, palpável, Mas como conceber o envio do Filho numa missão invisível? Este é exatamente o ponto em debate aqui. Parece que não é adequado falar numa missão invisível do Filho, diz a hipótese controvertida, para provocar o debate. São três os argumentos objetores, colecionados para tentar fundamentar esta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento objetor resgata o debate feito no terceiro artigo desta questão. A missão invisível se dá sob os dons da graça santificante, conclui o debate feito ali. A partir disto, o argumento resgata a citação bíblica de 1 Coríntios 12, 11, que diz: “Mas é o único e mesmo Espírito que isso tudo realiza, distribuindo a cada um os seus dons, conforme lhe apraz”. Disso, o argumento conclui que, uma vez que as Escrituras dizem que a graça é livremente distribuída especificamente pelo Espírito, deveríamos concluir que só dele se deve dizer que é enviado em missão invisível. Segundo o argumento, portanto, não seria adequado dizer que o Filho pode ser enviado invisivelmente.

O segundo argumento também parte do mesmo princípio, de que a graça santificante é pressuposto da missão invisível. Mas ocorre que o simples conhecimento, ou seja, ter informações sobre alguma coisa, ou mesmo possuir intelectualmente a ciência, mesmo que se refira às coisas divinas, não necessariamente envolve a presença da graça santificante na pessoa que adquire tais conhecimentos ou ciência. E, para fundamentar sua afirmação, o argumento cita 1 Coríntios 13, 2: “Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, e não tivesse a caridade, eu nada seria”. Ora, diz o argumento, o Filho procede do Pai como Palavra, ou seja, como conhecimento divino de si mesmo. É o Espírito que procede como amor, ou seja, como caridade. Se o conhecimento não depende da graça, e se o Filho está no campo do intelecto, é o Espírito, que está no campo do amor, que está envolvido na missão invisível de santificação pela caridade. Assim, conclui o argumento, a missão invisível convém apenas ao Espírito, não ao Filho.

O terceiro argumento lembra que a missão pressupõe a processão trinitária, imanente, sendo ela própria uma espécie de processão, mas, como dizem os teólogos, econômica, ou seja, dirigida às criaturas. A origem da missão é a processão. Mas o argumento constata que a noção de processão, na Trindade, é genérica, e se especifica de diferentes modos no Filho (cuja processão é a geração) e no Espírito Santo (cuja processão advém da espiração comum). Ora, prossegue, se são diferentes as processões, também serão diferentes as missões, porque originam-se de modo diferente. Mas não deveria ser necessário haver duas missões diferentes para a santificação da criatura; sendo missões divinas, apenas uma missão seria necessária para a santificação. Havendo duas, uma seria supérflua, diz o argumento. Assim, conclui, como nada em Deus é supérfluo, não seria necessário pensar numa missão invisível para o Filho, que fosse distinta da missão santificante do Espírito.

Como argumento sed contra, uma citação retirada do Livro da Sabedoria de Salomão. O Filho, diz o argumento, é a sabedoria de Deus, já que é gerado como Palavra no intelecto divino. E, sobre a sabedoria de Deus, o Livro da Sabedoria (9, 10) pede: “Dos céus sagrados, envia-a; manda-a de teu trono de Glória”. Há, portanto, diz o argumento, fundamento bíblico para defender que existe uma missão invisível do Filho, que seria a missão do envio da Sabedoria.

Postos os termos do debate, São Tomás passará a dar sua resposta sintetizadora.

É verdade, diz São Tomás que, pela graça santificante, é a Trindade inteira que vem habitar em nós. Isto é especificamente revelado em João 14, 23, já citado nos artigos anteriores: “viremos a ele, e nele estabeleceremos morada”.

dois elementos na missão, lembra Tomás. O primeiro elemento é habitar na criatura de um novo modo, e este de certa forma convém à Trindade inteira, conforme a citação bíblica acima transcrita. Este é o elemento relacionado com o destino da missão.

O segundo elemento é que a Pessoa enviada tenha sua origem em outra Pessoa. Não existe missão trinitária de si mesmo. Esta é a origem da missão, que, em Deus, se confunde com a própria origem da pessoa enviada.

Na Trindade, somente duas Pessoas correspondem a este segundo critério: o Filho e o Espírito. O Pai não tem origem em outro, e por isto não se pode dizer que ele seja enviado em missão. Faltaria o elemento “origem” da missão.

Com isto, podemos concluir que tanto o Filho quanto o Espírito satisfazem aos dois elementos necessários para que haja uma missão: a origem intratrinitária e o destino criatural. Na Trindade, o Pai compartilha do destino da missão, mas não de sua origem. Somente do Pai, portanto, não convém dizer que venha em missão; do Filho e do Espírito é perfeitamente adequado dizer que sejam enviados em missão invisível para a nossa santificação, porque eles de fato o são.

São Tomás passa, então, a responder às objeções iniciais, enriquecendo o tema.

O primeiro argumento objetor cita 1 Coríntios 12, 11, para afirmar que, uma vez que as Escrituras dizem que a graça é livremente distribuída especificamente pelo Espírito, deveríamos concluir que só dele se deve dizer que é enviado em missão invisível.

São Tomás nos diz que, de fato, usualmente nós apropriamos ao Espírito Santo tudo aquilo que é dom de Deus, porque o próprio Espírito é o Dom de Deus por excelência, porque ele é o próprio Amor de Deus feito Pessoa divina. Mas o fato é que Deus tem muito o que nos dar, e ele próprio, Trindade, se dá a nós – como vimos, é a Trindade que se dá a nós, na santificação, e não apenas o Espírito Santo. Portanto, usando aqui a ideia de apropriação, quando falamos em dom, de regra o apropriamos ao Espírito; no entanto, aqueles dons divinos que se relacionam ao nosso intelecto são apropriados ao Filho, que é a Palavra de Deus. A sabedoria da fé, por exemplo, tradicionalmente é citada como uma virtude teologal intelectual, e, portanto, é apropriada ao Filho. Quanto a tais dons, que aperfeiçoam o nosso intelecto, assimilando-os a Deus, é que se fala numa missão invisível do Filho. E Tomás cita Santo Agostinho, que, sobre a missão invisível do Filho, diz que sabemos que o Filho nos é enviado quando nós o percebemos e conhecemos. Vale dizer, é a missão invisível do Filho que nos faz estabelecer, pela graça, uma relação interpessoal e concreta de conhecimento com ele.

O segundo argumento parte da ideia de que o conhecimento como mera informação não se relaciona com a graça, e que saber sobre as coisas divinas simplesmente, sem que haja a caridade, não torna ninguém santo, como diz o belo hino paulino em 1 Coríntios 13, 2. Assim, não seria o Filho, que procede intelectualmente, mas o Espírito, que procede como amor divino, que está envolvido na missão invisível de santificação pela caridade. Assim, conclui o argumento, a missão invisível convém apenas ao Espírito, não ao Filho.

São Tomás nos lembra, neste passo, dos limites da teologia, do discurso metodológico sobre a fé, e de como não podemos imaginar que ele esgota esta relação misteriosa que há entre aquela criatura que se santifica, e a Trindade que o santifica. De fato, diz Tomás, esta relação se estabelece, pela graça santificante, de tal modo que a criatura destinatária da missão conforma-se progressivamente a Deus. Ora, diz Tomás, é claro que pelo dom da caridade a criatura assimila-se a Deus fortemente; e uma vez que a caridade é apropriada ao Espírito Santo, também é evidente que a santificação pela graça da caridade é resultado da missão invisível do Espírito Santo. Mas há criaturas que assimilam-se a Deus pelo caminho do conhecimento do amor; não por aquele conhecimento impessoal, informativo, mero acúmulo de erudição estéril e orgulhosa, mas o conhecimento de Deus pelo Filho que, no final das contas, espira o Amor. Este conhecimento que inspira e aspira o amor, que move, que transforma, é o conhecimento que santifica, que assimila a criatura a Deus, e que revela a missão invisível do Filho nela. E São Tomás chama este conhecimento, decorrente da missão invisível do Filho na alma, de “conhecimento saboroso”, para ressaltar seu lado experiencial, de encontro, de convivência; tal como o conhecimento entre dois amigos, ou entre esposos, que os leva a estreitar laços e a partilhar a vida. O Filho é o Verbo, diz Santo Agostinho, não de qualquer maneira, não como erudição florida, mas como o Verbo que espira o amor! Eis aqui mais uma vez a importância da chamada cláusula filioque, aquela que nos ensina que o Espírito procede do Pai e do Filho. É este Filho, este Verbbo que espira o amor, que nos santifica intelectualmente, inflamando em nós o amor. E é esta a perfeição do intelecto nos santos: o intelecto que, movido pelo conhecimento experiencial, relacional, de Deus, encaminha a vontade a inflamar-se de amor. É assim que Santo Agostinho diz, naquela passagem já citada na resposta anterior, que o Filho é enviado quando é percebido e conhecido; trata-se de um conhecimento vivencial, existencial, experimental, e não simplesmente teórico e erudito. E São Tomás vai citar algumas passagens bíblicas riquíssimas, neste mesmo sentido: João 6, 45: “quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende vem a mim”, para mostrar que o verdadeiro conhecimento santificante de Deus, que resulta da missão invisível do Filho, move o coração da criatura. Ou o Salmo 39 (38), 4: “”Meu coração queimava dentro de mim; ao meditar nisto o fogo se inflamava”. Ou, ainda, Eclesiástico 6, 23: “porque a sabedoria merece bem o seu nome”, isto é, a sabedoria divina é essencialmente amor. Nisto se mostra que, no fundo, estas missões podem ser vistas de modo separado por nós, para fins didáticos, mas, como veremos na próxima resposta, ela não implica e nem pode implicar uma separação entre o Filho e o Espírito.

Por fim, o terceiro argumento objetor quer provar que a ideia de uma missão invisível do Filho seria supérflua, porque a missão invisível do Espírito, no amor, deveria ser suficiente para a santificação da criatura.

São Tomás vai lembrar, mais uma vez, os elementos da missão: a origem intratrinitária e o destino de santificação pela habitação da Trindade em nós. Assim, quanto à origem, diz Tomás, a missão do Filho se distingue da missão do Espírito Santo, uma vez que, na origem, a processão do Filho por geração se distingue da processão do Espírito pela espiração comum. No destino, diz ele, as missões estão unidas pela mesma graça santificante que nos capacita a recebê-las, mas distinguem-se em que uma delas, a do Filho, destina-se a iluminar o intelecto para encaminhar a criatura ao amor, enquanto ao do Espírito faz arder a caridade na criatura, mas em ordem a assimilá-la a Deus, o que não é possível sem a – virtude teologal intelectual. São missões distintas, diz Tomás, mas não são separadas: nenhuma das duas existe sem a mesma graça santificante, e nunca uma Pessoa se separa da outra.

Poderíamos, então, como comentário final, aduzir que percebemos claramente, nos caminhos da Igreja, aqueles santos que, movidos pelo intelecto, chegaram a uma profunda intimidade com Deus – como o próprio Tomás, ou Agostinho, ou mesmo Santo Afonso de Ligório ou São João Paulo II. Outros, porém, foram movidos por um amor ardente, inseriram o amor de Deus na história, como São Vicente de Paula, Santa Tereza de Calcutá ou Santa Dulce dos Pobres. Estes santos são, assim, sinais das missões invisíveis das Pessoas, em sua unidade essencial e sua distinção pessoal, e, de certa forma, são a prova prática daquilo que São Tomás nos ensina aqui.