No último artigo, estudamos a missão do ponto de vista do seu receptor, ou seja, daquele que é o destinatário das missões: nós. Agora, estudaremos o outro lado da linha, ou seja, quem, dentre as Pessoas divinas, pode ser enviado. Já vimos que a missão tem uma estrutura que se fundamenta em dois pressupostos: a processão da Pessoa na Trindade, do ponto de vista da sua imanência, e o novo modo de estar na criatura, do ponto de vista do destinatário da missão. Este novo modo, diz Tomás, é exatamente o de estar na inteligência da criatura, como conhecido, e na sua vontade, como amado. Não como uma mera informação, ou mesmo como um conceito, senão como species, ou seja, é a própria essência de Deus que, pela graça santificadora, passa a habitar na inteligência e na vontade de criatura, e é nisto que consiste o “novo modo de estar” que constitui a missão invisível das Pessoas divinas. Também lembramos que esta afirmação está perfeitamente em sintonia com a teoria aristotélico-tomista de conhecimento, que diz que, quando conhecemos, não simplesmente criamos nomes ou conceitos para as coisas que estão fora de nós; recebemo-las verdadeiramente, por sua essência, em nosso espírito, que as assimila e se conforma a elas. É por isto que Aristóteles dizia que “a alma é, em certo sentido, todas as coisas”. E é claro que este ensinamento está perfeitamente em harmonia com a visão trinitária de Tomás, na qual o Filho procede como verbo e o Espírito, como amor. Muito conveniente que a união das duas visões tenha resultado numa concepção da missão perfeitamente coerente com a nossa santificação real.
Mas o debate agora é sobre o Pai. Será que ele pode ser enviado? Seria conveniente imaginar uma “missão” do Pai para a nossa santificação? Não é o próprio Jesus que diz que, se alguém o ama, ele e o Pai virão e farão nele morada (Jo 14, 23)? Ora, se o Pai faz morada em nós, como poderíamos negar que ele também nos vem em missão?
Esta é exatamente a hipótese controvertida, aqui: parece que é adequado dizer que o Pai também pode ser enviado em missão.
São três os argumentos objetores aqui, no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento afirma que, para as Pessoas divinas, ser enviada é o mesmo que ser dada. Quer dizer, o argumento considera que missão e doação são sinônimos. E prossegue: o Pai dá a si mesmo, porque se ele não se desse, ninguém poderia possuí-lo. E que ele vem e habita em quem ele escolhe é um fato revelado. Disto tudo o argumento conclui que o Pai é enviado em missão por ele mesmo.
O segundo argumento cita exatamente João 14, 23, em que Jesus afirma que ele e o Pai virão e farão morada em quem escutar sua palavra. A Pessoa divina é enviada para, pela graça santificante, habitar em nós, diz o argumento. Mas, pela graça santificante, é a Trindade que habita em nós. Ora, se o Pai também habita em nós, diz o argumento, então deve-se concluir que ele, tanto quanto qualquer outra Pessoa divina, também é enviado em missão.
O terceiro argumento lembra que as Pessoas trinitárias têm tudo em comum, salvo a relação que a identifica (ser Pai, ser Filho, ser Espírito) e as noções, que são próprias de cada um (ser ingênito é próprio do Pai, assim como a paternidade, ser gerado é próprio do Filho, a espiração comum é própria dos dois, a processão é própria do Espírito Santo). Nada mais separa as Pessoas em sua unidade essencial. Ora, diz o argumento, a missão não é algo próprio de uma ou de algumas Pessoas, como as noções, porque não é uma noção. Também não é algo que identifica a Pessoa, como a relação. Então, conclui o argumento, a missão tem que ser algo comum às três Pessoas, porque não pode haver algo além das noções e das relações que não seja comum. Disso, o argumento deduz que ao Pai também convém ser enviado em missão, como a qualquer Pessoa divina.
O argumento sed contra vai usar a autoridade de Santo Agostinho, que afirma que só do Pai nunca se afirmou, em nenhuma parte das coisas que ele leu, que tenha sido enviado em missão.
A resposta de São Tomás é simples e curta. Ele lembra que a noção de missão envolve dois elementos: um elemento, digamos, imanente, que é a processão da Pessoa, na Trindade. E o outro elemento, digamos, econômico (no sentido teológico da palavra economia, ou seja, aquilo que diz respeito à relação da Trindade conosco), que é estar de um modo novo no destinatário da missão. Ora, prossegue, há duas Pessoas trinitárias que procedem de outra: o Filho e o Espírito. O Pai não procede de outro, porque é ingênito, ou seja, ele é origem das outras Pessoas. Falta ao Pai, portanto, o primeiro elemento da missão, que é o de ser uma Pessoa trinitária procedente. Esta noção de missão, portanto, aplica-se somente ao Filho e ao Espírito.
A resposta sintetizadora é breve, técnica e clara. Por isto, as respostas aos argumentos objetores iniciais, que passamos a examinar, são tão importantes para estabelecer claramente a amplitude do debate.
O primeiro argumento parte da ideia de que o Pai também se dá a nós; ora, diz o argumento, dar-se e ser enviado em missão são sinônimos; disso conclui que ao Pai também é conveniente ser enviado em missão.
São Tomás vai dizer que o Pai pode dar-se a nós, porque ele se possui perfeitamente. Dar-se, então, significa compartilhar-se, porque possui plenamente a si mesmo e é de generosidade infinita. É isto que o Pai faz consigo mesmo, para nós. Doa-se à criatura, para ser possuído por ela, na santificação. Mas isto não faz da autodoação um sinônimo de missão. A missão tem um elemento a mais que a doação: significa ser enviado por outro, que tem alguma espécie de precedência ou autoridade sobre si. Isto não se aplica ao Pai, que não procede de ninguém. Portanto, não há ninguém que tenha precedência sobre ele. Assim, a autodoação do Pai, para morar no coração da criatura santa, não é uma missão, mas o envio do Filho e do Espírito, que procedem do Pai, de fato o é.
O segundo argumento objetor parte do debate que fizemos no artigo anterior. Se a missão consiste na inabitação da Trindade em nós pela graça santificante, diz o argumento, então a graça, que realiza a missão, também inclui a habitação do Pai. Logo, a noção de missão pode aplicar-se também ao Pai.
Sim, o efeito da graça santificante, diz Tomás, que é a inabitação trinitária, provém também do Pai, porque o envolve nessa doação maravilhosa que a Trindade faz de si mesma a nós. Mas, uma vez que o Pai não procede de outro, mas é ingênito, originário, não se pode dizer que ele seja enviado. E São Tomás cita, aqui, Santo Agostinho: o fato de que o Pai é conhecido e amado pelas suas criaturas, não significa que ele venha a elas como enviado, porque não há ninguém que o envie.
Por fim, a terceira objeção diz que tudo o que diz respeito às Pessoas é comum, salvo as noções e as relações que as identificam. Como a missão não é relação intratrinitária nem noção, deve estar entre aquelas características comuns, próprias da unidade essencial de Deus. Portanto, conclui o argumento, a ideia de missão seria adequada para qualquer Pessoa trinitária, portanto também ao Pai.
São Tomás vai responder que as noções (inascibilidade, paternidade, filiação, espiração comum, processão) estão diretamente ligadas à missão, na medida que um dos elementos da missão, o elemento imanente, envolve sempre uma Pessoa que procede, seja como gerada, seja como espirada. Só são enviadas em missão as Pessoas cujas noções envolvem provir de outro. A noção de inascibilidade, própria do Pai, torna-o inadequado para a missão, porque ser ingênito significa exatamente não provir de outro. Então, como a missão inclui em sua definição as noções que implicam originar-se de outro, pode-se dizer que ela não precisa ser um dos aspectos de Deus visto na sua unidade essencial, mas envolve a distinção das pessoas em sua definição mesma. Somente aquelas Pessoas cuja noção envolve vir de outro é que adequam-se à definição de missão, e podem, portanto, ser enviadas.
Para concluir, portanto, podemos dizer que não é adequado falar numa “missão do Pai”. O Pai envia em missão, e este envio é sempre de outro. Como o Pai é origem da Trindade, não haveria ninguém, digamos, “antes” dele, para enviá-lo. Isto não significa que ele não se dê a nós, como Jesus nos ensina na passagem do Evangelho de João citada acima. Esta doação não é, no entanto, uma missão.
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