Vimos, então, na primeira parte deste artigo, a discussão sobre a relação entre a missão (e a doação), por um lado, como realidades que envolvem as Pessoas trinitárias, e, por outro lado, a graça santificante, que é uma realidade criada. Este é exatamente o debate: como a graça santificante, que é criada, poderia ser a condição para a missão invisível (e a doação, no caso do Espírito Santo) das Pessoas trinitárias?

São Tomás agora passa a nos dar sua resposta sintetizadora, magistral como sempre. Ele começará explicando que a missão consiste em estar em algo “de maneira nova”, e a doação, em ser possuído por alguém. Podemos lembrar, então, que, no artigo anterior (questão 43, artigo 2) são Tomás concedeu que a missão e a doação não podem implicar mudanças nas Pessoas divinas, porque elas são eternas e perfeitas. Com isto, concluímos que este “estar de maneira nova” ou mesmo esse “usufruir da doação” são mudanças nas criaturas, não nas Pessoas divinas.

Ocorre que, como sabemos, o pecado original retirou de nós a convivência natural com Deus. Assim, é somente pela graça santificante, que é um dom criado por Deus em nós, que podemos estabelecer relações com Deus. O que significa dizer isto?

Traduzindo em termos atuais, devemos lembrar que, como São Tomás nos ensina,, cada aspecto da natureza implica uma correlação com algo que a complete. Se há a fome, há a comida, se há a sede, há a bebida, e assim por diante. É exatamente no terreno daquilo que é natural que podemos falar, como muitos falam hoje, numa “era dos direitos”: direito à comida, à bebida, à atividade produtiva, a convivência familiar, à moradia digna, e assim por diante. Mas no terreno da graça as coisas não são assim: não existe um direito à graça.

Fazendo uma analogia humana, poderíamos dizer que todo cidadão tem o direito de ser tratado com dignidade pelo governante; nenhum tem o direito a receber dele um convite para uma noite de intimidade familiar à mesa de sua casa. Eventualmente, uma pessoa pode ser convidada para sentar à sua mesa num momento familiar íntimo da família do governante; este convite não está no reino do direito, mas da graça. É assim que, a respeito desse comensal do governante, as pessoas podem dizer: “ele caiu nas boas graças do Presidente da República”…

E quanto a Deus? Ele está em tudo, e tudo lhe pertence. Mas nenhum de nós tem o direito de participar da sua intimidade trinitária. Ali, no mais profundo da sua imanência, ele chama quem ele quer: “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, terei compaixão de quem eu quiser”, diz Deus (Romanos 9, 15, citando Êxodo 33, 19), assinalando duas coisas importantíssimas: a primeira é a de que ninguém tem direitos contra Deus; ninguém pode pretender entrar à força em sua intimidade, ninguém pode reclamar na justiça o seu amor. A segunda é algo que o Papa Francisco vem ressaltando com um neologismo em seus pronunciamentos e documentos: Deus sempre nos primeireia, ou seja, ele sempre chega primeiro do que nós nos encontros com ele, ele sempre toma a iniciativa. Quando achamos que o encontramos, na verdade foi ele que nos encontrou.

Esta graça, no entanto, não é um simples convite a participar da sua intimidade. A desproporção entre nós e Deus é simplesmente grande demais para que isto fosse possível. Assim, a graça, além de nos abrir as portas para a imanência da Trindade, também nos eleva a ponto de podermos entrar ali, ou seja, torna-nos aptos a penetrar nesta convivência, torna-nos capazes de conviver com Deus. E este é o ponto aqui: se a missão invisível (e a doação) significam uma mudança em nós, mudança real que faz com que Deus esteja em nós de uma nova maneira, ou que possamos de fato usufruir de sua presença como um dom, é preciso que tudo isto seja precedido pela graça que nos eleva, que nos faz capazes de receber este convite e principalmente, de receber estas Pessoas. Mas notemos bem: a expressão “precedido”, aqui, não significa uma antecedência cronológica, mas uma antecedência lógica: é neste sentido que São Tomás nos diz que a missão (e a doação) acontecem pela graça santificante. E só por ela podemos receber essa presença nova de Deus em nós.

É neste sentido que São Tomás nos diz que a graça carismática, que ele chama de graça gratuita, não está envolvida neste processo de receber em nós as Pessoas divinas. Os carismas são dados para que façamos o bem aos outros, e nem sempre envolvem a santificação de quem os recebe. É só pensarmos em quantas vezes a profecia ou mesmo a cura nos foi concedida por Deus através de pessoas que são muito pouco santas. Não é, pois, da graça carismática, mas da graça santificante, que estamos tratando aqui.

São Tomás passa, então, a discutir a presença de Deus na sua criação, para nos permitir compreender exatamente em que consiste esta presença nova. É preciso entender em que consiste a presença, digamos, ordinária, para que possamos entender a presença extraordinária implicada na missão invisível e na doação. Duas coisas são essenciais aqui.

1) A primeira é entender que não estamos no terreno do deísmo, quer dizer, daquela visão equivocada de Deus que pode até conceber sua existência, mas o tem como um ser distante, indiferente ao criado, que simplesmente nos cria como um grande mecanismo autossuficiente e depois se afasta para que a criação possa funcionar por si mesma. Como se Deus fosse um grande relojoeiro que, ao fazer seu relógio, dá corda e o põe para funcionar, mas o relógio passa a funcionar sozinho, sem depender do relojoeiro. Tanto faz, na prática, para o relógio, que o relojoeiro continue a existir, embora ele tenha sido necessário para fabricar o relógio. Definitivamente não é este o Deus verdadeiro.

A presença de Deus na sua criação é plena, total e contínua, diz Tomás. Ele está na criação, esquematicamente falando, de três modos: por sua essência, por seu poder e por sua presença. Por sua essência significa lembrar que somente Deus existe por si mesmo; tudo o mais existe porque recebeu dele o existir. Assim, existir não é um atributo das criaturas. Existir é um atributo exclusivo de Deus. Por isto, para que as coisas existam, é preciso que ele as chame e conserve na existência. Neste sentido, Deus seria muito mais análogo a um flautista do que a um relojoeiro. Se o flautista parasse de soprar a nua flauta, os sons não seriam mais emitidos. Assim, se Deus não conservasse na existência tudo aquilo que é criação, a criação pereceria. É neste sentido que Deus está na criação por essência.

Ele também está por seu poder. Que se estende por toda a criação. Nada há que esteja subtraído ao poder de Deus, porque nada há que esteja fora do seu amor. Deus nem é um ditador arrogante, que exerça o seu poder pelo prazer de mandar, nem é indiferente a nada, do mais mínimo grão de poeira ao conglomerado de galáxias.

Por fim, ele está por sua presença. Nada lhe é estranho, nada lhe é alheio, nada lhe surpreende. Tudo está na presença de Deus, tudo está aberto a ele, tudo lhe é transparente, simultaneamente e completamente.

2) A teoria do conhecimento de Tomás, que pressupõe seu realismo aristotélico. Quando conhecemos, não simplesmente catalogamos coisas, nem simplesmente impomos a elas leis que as fazem trabalhar para nós, nem mesmo construímos conceitos que as descrevam. Conhecer é assimilar em nós a species da coisa, quer dizer, aquilo que ela é no mais profundo do seu ser, abstraindo seus condicionamentos individuais. São as próprias coisas, por sua essência mais profunda, que se dão a conhecer e passam a existir em nós mesmos, que somos criaturas inteligentes. Querer, neste contexto, é muito mais do que sentir apetite por este ou aquele objeto concreto, mas ser capaz de conduzir-se de conformidade com a estrutura mais profunda da existência. Ou seja, conhecer a Deus significa, sob este ponto de vista, assimilá-lo de algum modo na sua inteligibilidade inesgotável e desejá-lo na medida da sua desejabilidade, ou seja, infinitamente. Isto só é possível pela graça.

Vale dizer, quando conhecemos a Deus e o amamos, é o próprio Deus que passa a habitar em nossa inteligência e nossa vontade. Não é uma informação sobre Deus, não é um conceito sobre Deus, mas aquilo que ele é, ou seja, ele mesmo, passa a residir em nós. Eis aí a nova maneira de estar na criação que constitui a missão invisível das Pessoas divinas: ser conhecido pelas criaturas inteligentes e ser querido por elas, o que se realiza apenas e somente pela graça santificante. Conhecer Deus e amá-lo, diz Tomás, é ser destinatário de uma missão invisível, de uma doação do Espírito, porque significa assimilar Deus em nós. Em conclusão, diríamos que as Pessoas divinas se dão pela Graça, mas o que se dá pela graça não é simplesmente alguma coisa, mas as próprias Pessoas divinas. E recebendo as Pessoas divinas em nossa inteligência e em nossa vontade, santificamo-nos realmente.

Havendo estabelecido, pois, os critérios para encaminhar o debate, São Tomás passa a revisitar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor afirma que se a missão ocorre apenas pela concessão da graça santificante, e não é uma Pessoa divina que nos é dada, mas alguma coisa apenas, a própria graça santificante, que é uma realidade criada, e não divina.

Curiosa a atualidade deste argumento. Também hoje achamos que a salvação é o dom de alguma coisa, uma espécie de título de sócio que permite a entrada na vida eterna, que seria uma espécie de continuação da vida em algum tipo de planeta terra esotérico e mais elevado, para onde vão os que se associam a Deus em vida. Nada mais falso. A santificação é receber o próprio Deus e conformar-se verdadeiramente a ele.

E é assim que São Tomás responderá. A graça santificante, como dom criado, aperfeiçoa o destinatário da missão invisível e da doação do Espírito para que, assim elevado, possa usufruir das próprias Pessoas que lhe são enviadas. Ou seja, a missão ocorre pelo dom da graça, mas não se detém aí. Ela consiste na própria recepção e fruição das Pessoas enviadas, por parte da criatura destinatária elevada pela graça santificante.

A segunda objeção quer afirmar que é a posse da Pessoa divina por nós que nos leva a ter a graça santificante, e não o contrário. E cita Romanos 5, 5: o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado, querendo provar que é a posse da Pessoa por nós que gera a graça, e não o contrário.

São Tomás vai responder que a graça santificante é que dispõe a alma a receber a Pessoa divina; é neste sentido que afirmamos que a posse do Espírito Santo se dá pelo dom da graça. É, portanto, neste sentido que se afirma que a missão invisível se realiza somente pelo dom da graça santificante. Mas, lembra São Tomás, o dom da graça santificante que é criada em nós tem por fonte o próprio Espírito Santo, e é neste sentido que a Carta aos Romanos diz que o amor de Deus, quer dizer, sua graça incriada, é derramado em nossos corações como graça santificante criada, pelo Espírito Santo que nos foi dado.

O terceiro argumento objetor diz que não se poderia dizer que a missão invisível se realiza somente na graça santificante, porque Santo Agostinho afirma que “há missão invisível cada vez que a mente humana percebe o envio do Filho”; considerando, diz o argumento, que há outros modos de perceber a ação invisível do Filho na história, como por meio do resultado da graça enviada carismaticamente (gratia gratis data). Mas São Tomás responderá que o fato de que possamos perceber sinais da atuação do Filho no desempenho dos carismas, esta simples percepção não implica uma habitação do Filho em nós, como implicada no conhecimento dado pela graça santificante. E mais, acrescentaríamos; a própria possibilidade de reconhecer que os carismas resultam de uma graça divina já é algo que somente se torna transparente para quem, de algum modo, recebe a graça santificante. Pra quem vive sem a graça, ou a rejeita, a atuação divina não é, de modo algum, transparente.

Por fim, o quarto argumento objetor cita o monge Rábano Mauro, que dizia que o Espírito Santo foi dado aos Apóstolos para que eles pudessem operar milagres. Disto, o argumento aduz que o dom do Espírito Santo não está referido à graça santificante, mas aos carismas, ou seja, àquilo que classicamente se chamava de “graça dada gratuitamente”, para a edificação da Igreja e o serviço ao outro. Disto, o argumento conclui que a missão invisível das Pessoas Divinas não se dá somente segundo a graça santificante.

A resposta de São Tomás manifesta a profunda compreensão que ele tem da graça, notadamente do fato de que ela é uma realidade única, simples e indivisível, que submetemos a classificações para compreendê-la melhor, sem pretender pautá-la por nossos próprios critérios.

A graça santificante foi concedida aos apóstolos de forma visível, manifestativa, em razão da missão da Igreja. Por isto, os carismas de fazer milagres, realizar curas, profecias, dentre outros, foram-lhes concedidos não fora da graça santificante, mas para manifestá-la ao mundo, manifestando expressamente a doação do Espírito à sua Igreja por Jesus. É neste sentido que São Paulo registra, em 1 Coríntios 12, 7, que os carismas dados à Igreja servem para manifestar o Espírito para a utilidade de todos. E não se trata, aí, diz Tomás, de manifestar um espírito de cura, ou um espírito de profecia, como seria se o carisma fosse dado deste modo limitado, específico, mas manifestar o próprio Espírito Santo. É neste sentido que os carismas (gratia gratis data) dados aos apóstolos manifestam a graça santificante que realiza a inabitação do Espírito Santo em sua Igreja. A graça carismática, portanto, está em função da graça santificante, e a graça santificante está em função da inabitação das Pessoas divinas em nós.