Este artigo é desconcertante. Faz-nos deparar com várias noções que nos parecem remotas, difíceis, técnicas demais. Mas não podemos desanimar, nem fechar a Suma aos especialistas: lembremo-nos que São Tomás mesmo a qualifica como “texto para iniciantes”. Trata-se de pensar que as realidades espirituais de que ele fala, mesmo quando usa uma linguagem densa e técnica, são realidades relevantes para nós, tanto quanto eram para ele. A questão, às vezes, é retomar os parâmetros de concretude a respeito das realidades sobre as quais ele estava falando. Se a fé da Igreja não é privilégio de especialistas e doutos, porque não é uma realidade gnóstica, tampouco a teologia do seu maior mestre poderia ser. É claro que aproximar-se de Tomás requer um nível de informação que, se era relativamente comum naquela época, é muito rara hoje. Mas, por definição, não pode ser inacessível.

Nos dois artigos anteriores, vimos os fundamentos das missões, nas Pessoas divinas: proceder de outro e ser enviado para estar junto à criatura de um novo modo. Este novo modo de estar envolve a graça, e é esta referência à graça que debateremos aqui.

Vimos, no último artigo, que a missão é temporal, isto é, estabelece-se de uma Pessoa eterna para uma pessoa criada, contingente. Por isto, a missão não muda a Pessoa divina enviada; muda apenas aquele que é o destinatário da missão. E esta mudança se dá pela graça.

É preciso que nos lembremos um pouco da riqueza da noção de graça, em Tomás. Ele vê o próprio Deus (e as Pessoas trinitárias, é claro) como a própria Graça eterna, incriada. A imanência de Deus, sua intimidade, é pura doação. O Pai doa-se ao Filho, juntos doam-se ao Espírito, e o Espírito é o próprio Dom de Deus. Deus é amor, é dom total, e por isto ele é a própria graça eterna, plena, absoluta.

Mas a desproporção entre Deus e nós é total; assim, a nossa relação com Deus se dá pela graça criada – que é o dom divino que nos permite entrar em relação com ele. Neste artigo, São Tomás falará da graça santificante, que é aquela que nos capacita diretamente a entrar em relação com Deus, e a chamada “graça gratuita”, que é aquela que Deus nos dá para que façamos o bem a outros. Hoje, chamaríamos esta “graça gratuita” de “carismas”, dons especiais que Deus concede aos que escolhe, de modo a edificar o corpo da Igreja. Eles são mencionados por São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, 12, 7-11: “”7. A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum. 8.A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; 9.a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; 10.a outro, o dom de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas.* 11.Mas um e o mesmo Espírito distribui todos esses dons, repartindo a cada um como lhe apraz.

Não é disto que estamos falando aqui; não se trata de receber “algo” de Deus; não se trata de receber dons do Espírito Santo, embora isto seja importantíssimo. O que se trata, aqui, é de receber o próprio Jesus, ou o próprio Espírito Santo, dom de Deus, e não simplesmente receber dons do Espírito Santo. Todo erro, portanto, consiste em imaginar que a santificação, tanto em seu caminho quanto em seu destino que é a salvação eterna, são alguma coisa, uma espécie de lugar ou estado maravilhoso em que viveremos felizes para sempre num estado de vida superior, mas análogo ainda, ao presente. Mas não é isto. Santificação e salvação não são estados nem coisas. São Deus mesmo.

É bom lembrar, também, que São Tomás distingue entre a “missão visível” das Pessoas divinas (como a encarnação de Jesus) e a missão invisível, que é a nossa santificação. Neste artigo, tratamos apenas da missão invisível. É preciso lembrar que as Pessoas divinas já estão em toda parte – em nos inclusive. Assim, a sua missão, quanto à nossa santificação, não significa que elas passem a habitar em nós. Isto elas já fazem. Trata-se de estar em nós de um modo novo; novo para nós, que somos mutáveis, mas não novo para elas. Trata-se, pois, de saber exatamente o que muda em nós, o que nos faz mudar, quando somos objeto de uma missão divina invisível. É aqui que entra a questão da graça santificante.

Mas como a missão das Pessoas divinas pode resumir-se à graça santificante em nós? Se é assim, não estaríamos exatamente voltando àquela ideia de que não são as próprias Pessoas divinas aquilo que recebemos pela sua missão, mas apenas a graça que nos permite entrar em relação com elas? Não estaríamos então dizendo que, no fundo, pela missão das Pessoas trinitárias, recebemos alguma coisa de Deus, mas não o próprio Deus? Mas estamos adiantando o debate.

A hipótese controvertida, aqui, é a de que a missão invisível não se dá somente pela graça santificante. O que parece estranho de controverter, já que, por tudo quanto discutimos nos dois últimos artigos, pareceria razoável afirmar que a missão não se resume mesmo à graça santificante, que é criada, mas envolve a doação da própria Trindade. Como veremos no final, isto é verdade, mas ocorre pela graça santificante e só por ela. Assim, não há missão fora da graça santificante. Mas estamos nos adiantando de novo. Em todo caso, são quatro os argumentos objetores, no sentido da hipótese inicial.

O primeiro argumento objetor é exatamente aquele que diz que, se a missão somente se realizasse pelo dom da graça santificante, que é a graça criada que nos permite alcançar a salvação, então a missão não consiste numa doação da própria Pessoa trinitária à criatura, mas apenas na doação de alguma coisa que é, afinal, criada: a graça salvífica da santificação. E disto o argumento conclui que a missão invisível de uma Pessoa trinitária não realiza-se somente pelo dom da graça santificante.

O segundo argumento faz uma análise gramatical. Se afirmamos que a missão se dá “pela” graça santificante, diz o argumento, então a graça santificante seria a causa da nossa relação com as Pessoas trinitárias, já que a preposição “por” traz exatamente esta conotação causal. Mas isto não é o que diz a Escritura, prossegue. Ali, em Romanos 5, 5, está consignado que o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado. Ora, conclui, temos que concluir que a graça santificante só se dá por causa da missão, e não o contrário. Assim, diz o argumento, temos que afirmar que a missão não se dá somente pela graça santificante.

O terceiro argumento cita Santo Agostinho, que afirma que o Filho é enviado invisivelmente em missão, pois pode ser percebido por nós em meio à realidade criada. Ora, prossegue o argumento, o Filho não é percebido por nós, em meio à realidade criada, apenas pela graça santificante, mas também quando se manifesta nos muitos carismas dados à Igreja em seus fiéis, tais como o carisma da ciência das coisas divinas e o carisma do discernimento das coisas da fé. Ora, prossegue, tais carismas não se constituem em graça santificante”, mas propriamente em “graça dada gratuitamente”, ou seja, naqueles dons para o benefício dos outros que Paulo menciona em 1 Coríntios 12, 4-11. Assim, o argumento conclui que a missão invisível das Pessoas divinas não se realiza só pela graça santificante.

O quarto argumento objetor cita Rábano Mauro, monge beneditino da época carolíngea, que dizia que o Espírito Santo foi dado aos Apóstolos para que eles pudessem operar milagres. Disto, o argumento aduz que o dom do Espírito Santo não está referido à graça santificante, mas aos carismas, ou seja, àquilo que classicamente se chamava de “graça dada gratuitamente”, para a edificação da Igreja e o serviço ao outro. Disto, o argumento conclui que a missão invisível das Pessoas Divinas não se dá somente segundo a graça santificante.

O argumento sed contra cita Agostinho, para quem a processão temporal do Espírito Santo dá-se especificamente para a santificação das criaturas. Mas a missão nada mais é do que uma processão temporal. E a santificação das criaturas dá-se exatamente pela graça santificante. Assim, o argumento conclui que a missão invisível não se dá senão pela graça santificante.

Problema árduo. No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.