A questão tratada aqui é de novo central e muito importante, e ao mesmo tempo pode parecer difícil e muito técnica, mas não é; trata-se apenas de compreendê-la adequadamente. A pergunta a responder diz respeito a adequar estas noções rígidas e teológicas de Deus como motor imóvel, imutável, autossuficiente, perfeito, eterno e pleno, cuja origem aristotélica é inegável, mas cuja utilidade é indiscutível, com a revelação de Deus como Trindade, relação e amor, e, portanto, com uma preocupação e um envolvimento muito reais com a criação. Passar da rígida visão de Deus como totalmente outro, indiferente a tudo o que é mutável, próprio da filosofia, para uma visão cristã, de Deus como relação em si mesmo e, portanto, essencialmente amor. Se alguém me perguntasse qual é o maior mistério na revelação trinitária, eu responderia que, para mim, é o mistério de três pessoas que vivem numa harmonia perfeita, numa total comunhão, na unidade plena, sem nenhum tipo de autoridade, coação, hierarquia ou uso de poder, mas apenas pelo compartilhamento da perfeita compreensão e desejo do bem, como é a Trindade. Não há, na mais profunda intimidade de Deus, uma estrutura de poder e obediência, mas de amor e concórdia.
Esta é, portanto, a importância deste artigo: se a teoria das processões trinitárias pode dar conta de nos permitir falar sobre Deus em sua intimidade mais profunda, ali onde ele se revela comunidade de amor sem perder a plenitude de sua unidade, o debate sobre as missões pode nos revelar pistas importantíssimas sobre o modo como a Trindade se relaciona conosco. O que não é, de modo algum, nem desimportante, nem aridamente técnico, mas essencial para compreendermos como esta categoria da relação, que em Deus é substancial, atinge-nos e nos inclui plenamente na dinâmica de amor divino. Então trata-se de responder, ou ao menos de encontrar pistas que nos possam indicar o modo pelo qual Deus, sendo em si mesmo pleno, completo, imutável, pode relacionar-se conosco, que somos contingentes, provisórios, incompletos, passageiros e mutáveis. Se a missão, como vimos no artigo anterior, é própria das Pessoas divinas, e tem como fundamento seu emanar mesmo, que implica uma nova maneira de estar na criação, como compatibilizar esta nova maneira, que parece implicar uma mudança na própria Pessoa, com a sua essência plenamente divina, e portanto eterna, plena e imutável?
A hipótese controvertida, aqui, é uma tentativa de conciliar esta dimensão passageira, contingente, da realidade criada que somos nós, que somos os destinatários dessas missões, com a eternidade essencial das Pessoas trinitárias. A hipótese, portanto, vai estabelecer-se assim: parece que a missão das Pessoas trinitárias pode caracterizar-se apenas como eterna.
São três os argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento apela para a autoridade de São Gregório Magno, que afirmou que “o Filho é enviado tal como é gerado”. Ora, prossegue o argumento, a geração do Filho, como já vimos, é eterna. Logo, conclui, também a missão, o envio, caracteriza-se pela eternidade.
O segundo argumento diz que aquilo que é mutável é próprio de coisas mutáveis. Só seres que mudam, diz o argumento, podem ser sujeitos de atributos mutáveis. Mas Deus não é mutável, então a ele não se pode atribuir atributos mutáveis. Assim, conclui o argumento, se podemos falar em missões divinas, estas missões não podem ser temporais, mas eternas.
O terceiro argumento lembra que a missão importa envio, saída, e portanto é uma processão. Ora, diz o argumento, já vimos que as processões, em Deus, são eternas. Logo, as missões divinas são eternas, conclui.
O argumento sed contra apela para uma citação bíblica expressa, da Carta de São Paulo aos Gálatas, 4, 4: “quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho”. Ora, se ele enviou por atenção a um tempo que chegou, então a missão não se esgota como eternidade.
Postos os fundamentos do debate, São Tomás passa a dar sua resposta sintetizadora.
Na sua resposta, São Tomás fará uma distinção: quanto às pessoas divinas, os termos que dizem respeito às suas relações têm referência apenas com o respectivo princípio, com a origem: é o caso dos termos processão e saída. Estes termos significam apenas a relação da pessoa com a sua respectiva origem. É assim que dizemos que o Filho saiu do Pai, e o Espírito procede do Pai e do Filho.
Mas há outros termos, diz Tomás, que trazem em sua significação uma referência não somente à origem da Pessoa, mas também ao seu termo, seu destino, seu ponto de chegada. É o caso do termo geração, que designa não somente a saída do Pai, mas também a própria Pessoa do Filho, que é o Gerado. Este é, também, o caso do termo espiração, que, fazendo referência à terceira Pessoa da Trindade, torna-se, de certo modo, seu nome: Espírito é substantivo derivado do verbo espirar. Nestes casos, diz Tomás, tanto a origem quanto o ponto de chegada, o termo, envolvem realidades eternas. Nenhum problema há, aí.
Há outros termos, porém, diz Tomás, que importam relação com um princípio eterno e com um termo ou ponto de chegada contingente, temporal, criado. É o caso dos termos doação e missão. Como vimos quando estudamos o Espírito Santo como dom, na questão 38, a noção de doação envolve uma origem eterna, na própria Trindade, e tem como ponto de chegada uma realidade temporal, contingente, que é o coração do ser humano que recebe o Espírito Santo. Este é o caso, também, do termo missão. Trata-se de uma Pessoa que é enviada a partir de sua origem eterna para estar de nova maneira junto à criação. Também neste caso, diz Tomás, trata-se de um termo temporal.
Assim, Tomás passa a fazer uma purificação terminológica.
Os termos doação e missão, em Deus, sempre descrevem uma realidade temporal, por causa do seu termo.
Os termos processão e saída, em Deus, podem descrever uma realidade eterna, mas também podem descrever uma realidade temporal, quando, por exemplo, Jesus diz que saiu do Pai, como testificado em João 8, 42. São termos que têm referência certa quanto à origem, mas não quanto ao termo.
Por fim, os termos geração e espiração descrevem sempre realidades eternas. São termos que têm referência certa tanto para origem, quanto para o termo; é por isto que dizemos que o Filho é gerado eternamente para ser Deus, mas é enviado em missão, visivelmente, para ser homem, e o Espírito, invisivelmente, para estar nos seres humanos.
Assim, estabelecidos com rigor estes aclaramentos terminológicos, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento, como nos lembramos, cita São Gregório, que disse que o Filho é enviado como fora gerado. E conclui que, sendo a geração eterna, também o é o envio em missão.
São Tomás fará uma interpretação da frase de São Gregório de modo a torná-la adequada; há duas maneiras de interpretar esta colocação:
1. São Gregório refere-se não à geração eterna pela qual o Filho sai do Pai, mas à geração humana, pela qual ele sai de sua mãe, Maria Santíssima. Ou
2. Ele pode ser compreendido também como fazendo referência ao fato de que o envio em missão do Filho, na pessoa de Jesus, pressupõe o fato de que ele é o Filho divino, eternamente gerado no seio da Trindade.
Compreendida assim, a colocação não leva a nenhuma contradição com o ensinamento que Tomás nos dá, aqui.
O segundo argumento objetor é aquele que diz que aquilo que é mutável é próprio de coisas mutáveis, ou seja, criaturais. Assim, se podemos falar em missões divinas, diz o argumento, serão sempre missões eternas.
Tomás responde que o fato de que uma Pessoa trinitária estar de um novo modo no mundo ou mesmo numa pessoa humana não implica nenhuma mudança na Pessoa divina, mas apenas nas criaturas. Do mesmo modo que chamamos Deus de Senhor, e ele de fato o é, mas ele é nosso Senhor somente na exata medida em que somos alguma coisa. Aqui fica bem claro como essa relação pode ser temporal, tendo como origem um ser eterno. Ela é real e temporal por seu termo. Não por sua origem.
Por fim, a terceira objeção diz que, se a missão importa envio, saída, ela é uma processão. Ora, diz o argumento, as processões, em Deus, são eternas. Logo, as missões divinas são eternas, conclui.
São Tomás responde que a noção de processão, como já foi visto na resposta sintetizadora, estabelece sempre a relação de uma Pessoa Trinitária com a sua origem, que é eterna. Mas é uma noção aberta quanto ao seu termo ou ponto de chegada. Assim, há processões eternas, como a geração e a espiração, e processões temporais, como a doação e a missão, conforme o termo seja eterno ou temporal. De fato, no caso das missões trinitárias, seu termo é sempre uma criatura, um ser temporal.
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