A discussão aqui tem a ver com missão, no sentido mais próprio da palavra: missão vem de “mittere”, que nós costumamos traduzir por “enviar”; assim, diríamos que um missionário é um enviado, antes de tudo. De certa forma, ainda temos elementos dessa nomenclatura, tanto no uso que fazemos da palavra “missa”, que tem a mesma raiz de “envio”, quanto na designação “emissário”, que usamos para designar alguém que é enviado por um governo numa missão.
De fato, para designar a própria origem das Pessoas trinitárias usamos a noção de processão, no sentido de que umas pessoas procedem das outras. Mas para designar a relação especial que elas estabelecem conosco, usamos a noção de “missão”. A processão, portanto, seria uma noção interna, que trata do que os teólogos chamam de “Trindade imanente”, ou seja, da própria constituição interna da Trindade, enquanto a noção de missão tem a ver com a relação da Trindade conosco. Ou seja, com aquilo que os teólogos chamam de “Trindade econômica”. Aqui, apresenta-se de novo aquele velho problema da relação de Deus, imutável, eterno, perfeito, com a criação, contingente, temporal, passageira, que já discutimos quando tratamos de aspectos de Deus que envolvem-no com a sua criação, como a providência divina, o conhecimento divino ou a própria bondade divina.
A pergunta, aqui, portanto, é sobre a própria conveniência da noção de missão, aplicada às Pessoas. Mais uma vez se vê, aqui, a importância da questão da pessoalidade, em Deus. Não podemos imaginar que Deus algumas vezes se comporta como uma estrutura unitária e impessoal, outras como uma trindade pessoal. Nada mais equivocado. Deus é trindade, e é como Trindade que ele se relaciona conosco. Daí a importância da doutrina das apropriações. Deus não é uma grande energia, não é um grande tudo ou um grande nada, ele é Trindade e sempre se dá pessoalmente, em relação. Ser relação não é acidente, em Deus, mas parte da sua própria essência, da sua própria forma de ser. A relação de Deus com a sua criação, portanto, poderia ser designada propriamente pela noção de missão.
Aqui também se vê a importância da encarnação na missão de Jesus, mas isto é assunto para mais adiante.
A hipótese controvertida, aqui, é a de que a noção de missão não seria conveniente para aplicar-se à Trindade. Seria inadequado dizer que uma Pessoa é emitida, ou enviada, pela Trindade, para entrar numa relação especial com a criação, diz a hipótese. São três os argumentos objetores no sentido desta hipótese controvertida.
O primeiro argumento trata da noção de missão a partir do seu aspecto subjetivo. Ou seja, de que a missão envolve alguém que manda, envia em missão e alguém que é enviado. Ora, diz o argumento, o emissor tem mais autoridade do que aquele que é enviado. Mas, na Trindade, nenhuma Pessoa tem mais ou menos autoridade que a outra, já que elas são, como foi debatido na questão anterior, iguais em poder. Assim, o argumento conclui que a noção de missão, implicando diferenças de poder entre as partes, conforme enviam ou são enviadas, é inadequada para aplicar-se às Pessoas da Trindade.
O segundo argumento também toma a noção de missão, mas no seu aspecto objetivo. Trata-se de investigar objetivamente a consequência de alguém ser enviado por outro – a separação entre emissor e emissário. De fato, diz o argumento, toda missão implica necessariamente que o enviado se separe do que envia, para cumprir a missão. O emissário real, por exemplo, não fica junto ao rei, mas parte para o outro reino para cumprir a missão, separando-se do emissor. Não se envia, diz São Jerônimo, senão aquilo que pode ser separado do que está enviando; o que compõe um só e mesmo corpo não pode ser enviado como emissário. Ora, conclui o argumento, as Pessoas divinas não podem separar-se umas das outras. Logo, não podem ser enviadas em missão.
Por fim, o terceiro argumento também toma a missão em seu aspecto objetivo da relação do emissário (ou missionário) com aquele a quem ele é enviado. O envio em missão pressupõe que o emissário seja enviado àquele ou àquilo em que ele ainda não está antes de ser enviado. Por exemplo, o embaixador de um país é escolhido entre nacionais do país emitente, e enviado ao país destinatário. Não há sentido em escolher, como embaixador de um país, um nacional do outro país a que a missão se destina, porque ele não representaria o emissor, mas o próprio destinatário. Ora, diz o argumento, As Pessoas, sendo elas próprias Deus único e onipresente, estão já em toda parte, e, portanto, conclui o argumento, a noção de missão, como envio a algum lugar em que não estão seria totalmente incompatível com sua natureza divina.
O argumento sed contra cita um versículo do Evangelho de João (8, 16): “Eu não estou só, mas comigo está o Pai que me enviou”. E vê na autoridade das Escrituras a revelação de que as Pessoas são enviadas em missão.
São Tomás passa a responder, ensinando logo que a noção de missão implica duas relações: 1) a relação do emissário, que é o enviado, com aquele que o envia, o emissor; e 2) a relação do emissário com aquele ou aquilo que é objeto, ou melhor, objetivo (termo) da missão.
No que toca à primeira relação, do emissor com o emitente, ela se dá de três maneiras, diz Tomás:
1) O emissor tem poder de mando sobre o emissário ou missionário, como um rei que envia um embaixador a outro país.
2) O emissor tem influência sapiencial sobre o emissário, como um velho sacerdote que dá um conselho a um marido que quer se separar para que volte para casa e faça as pazes com a sua esposa.
3) O emissor tem uma relação de origem com o emissário, como uma mãe que dá à luz um filho, ou uma bela roseira que emite (mittere, emitir aqui tem este duplo sentido de lançar para fora e de enviar em missão) uma flor para atrair os insetos polinizadores.
Quanto à relação entre o enviado (emissário ou missionário) e o termo da sua missão, pode ser vista sob dois modos:
1) Ou o emissário não estava no lugar para onde ele é enviado, e dirige-se para lá apenas em rezão da missão; ou
2) O emissário ou missionário já está no lugar da missão, mas agora passa a estar ali de um novo modo, como um filho de uma pequena aldeia que, de repente, é convocado para o serviço militar e, tendo recebido treinamento, passa a ser o comandante do destacamento militar da sua aldeia natal, nomeado pelo general comandante do exército nacional.
Assim, diz Tomás, pelo terceiro sentido da relação entre emissor e emitente (o sentido de origem, como a planta que emite uma flor, ou a mãe que dá à luz um filho) a noção de missão é adequada às Pessoas divinas. De fato, a noção de origem é muito adequada à Trindade, pois, como já vimos, é próprio da Trindade que umas pessoas tenham sua origem noutras. Assim, falar de missão como emissão é adequado à Trindade.
Quanto à relação entre o emissário e o termo da missão, o segundo sentido, aquele que fala de uma missão como um novo modo de estar num lugar também é adequado à Trindade; uma vez que as Pessoas são Deus Onipresente, as missões trinitárias são sempre algum novo modo pelo qual as Pessoas estão ali onde elas sempre estiveram, como por exemplo, diz Tomás, quando o Filho, que sempre esteve no mundo (Jo 1, 10), passa a estar aqui de novo modo, ao encarnar-se.
Havendo lançado os princípios na sua resposta maravilhosa, São Tomás passa a enfrentar as objeções iniciais.
A primeira objeção parte do aspecto subjetivo da noção de missão; afirma categoricamente que, uma vez que a própria noção de missão pressupõe que aquele que envia, o emissor, seja mais poderoso que o enviado, esta noção seria inaplicável à Trindade, na qual nenhuma diferença de poder seria admissível.
São Tomás nos remete à sua resposta sintetizadora; de fato, diz ele, no caso da missão fundada no poder de mando ou na influência sapiencial, há desigualdade entre o emissor e o enviado, já que, no primeiro caso, o emissor envia por ter maior autoridade, e no segundo por ter maior sabedoria do que o enviado. Mas no caso da missão vista sob o terceiro modo, na emissão por origem, não existe esta desigualdade de importância, mas apenas a relação de origem entre o emissor e o enviado, como o bebê é emitido pela mãe para a vida, mas não é menor do que ela em dignidade ou em humanidade. Sob estes dois aspectos, portanto, a objeção não é suficiente para impugnar o uso da noção de missão na Trindade; mas certamente serve para purificar seu uso.
A segunda objeção parte da ideia de que a própria noção de missão implica separação entre o emissor e o emitente, o que seria inadequado perante a unidade essencial na Trindade.
São Tomás responde que, de fato, quando o enviado começa a estar num lugar onde ele jamais esteve, por causa da missão, teríamos que admitir que ele deixou de estar no lugar de onde foi enviado antes; por exemplo, o embaixador deixa seu país (no qual já não estará no tempo de sua missão) e chega a um novo país. Mas no caso da missão divina, que envolve apenas um novo modo de estar onde já se estava, nem o missionário começa a estar em algum lugar onde ele já não estivesse (dada a onipresença divina), nem deixa de estar onde sempre esteve – o seio da Trindade Santa. Não há nenhuma inconveniência, portanto, se entendermos adequadamente a noção de missão trinitária.
Isto responde também à terceira objeção, aquela que defende que a noção de missão é inadequada para a Trindade porque pressupõe remeter o missionário a algum lugar em que ele não está, e as Pessoas da Trindade estão em todo lugar, pois são o mesmo Deus onipotente.
A missão, na Trindade, diz Tomás, não envolve movimento daqui para lá ou de lá para cá, mas estar de uma maneira nova ali onde já se estava. Não há, pois, fundamento para a objeção.
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