Este é um tema muito joanino. E, diríamos, muito evangélico. De fato, já no prólogo, o Evangelho de João nos afirma que “ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito que está no seio do Pai, este o deu a conhecer”. A medida do nosso conhecimento de Deus está na medida que o Filho está no Pai, ou seja, a medida em que ele pode nos dar a conhecer. Não é por outra razão que São João da Cruz nos ensina, no Livro da Subida do Monte Carmelo de São João da Cruz (Livro 2, 22) que “ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua única Palavra (e outra não há), disse-nos tudo de uma vez nessa Palavra e nada mais tem a dizer”. Ora, se as Pessoas não estão perfeitamente umas nas outras, não poderiam ser a perfeita revelação de Deus para nós. E isto inclui necessariamente o Espírito Santo, como fica evidente em João 16, 13: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará para a verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido”.
Pessoalmente, gosto de imaginar que, uma vez que Deus é amor, cada Pessoa está totalmente na outra, age totalmente pela outra e para a outra, naquilo que os gregos chamavam de “pericorese”, u seja, esta brincadeira maravilhosa de ciranda que é a vida interna da Trindade: cada um, na Trindade, não tem mistérios para o outro, cada um não reserva em si nada que não seja para o outro ou pelo outro, cada um age totalmente para o outro e pelo outro, nunca para si mesmo ou por si mesmo. Assim, a Trindade é, em si mesma, totalmente doação.
Mesmo no amor humano há um grau em que isto é verdade. Como diziam os antigos, um filho sai do útero, mas nunca sai da cabeça. Nem do coração. Os amantes sabem exatamente o que é carregar o outro em si, tê-lo sempre na lembrança, mantê-lo no coração apesar da ausência física. Aqueles que já perderam um ente querido sabem o que é tê-lo presente, embora já tenha partido; ou, na bela poesia da canção de Chico Buarque, “a saudade é arrumar o quarto do filho que já perdi”. Eis a descrição poética da presença do outro em nós, nos limites humanos.
Mas não é de poesia que trataremos aqui, mas de teologia. Trata-se de estabelecer, com firmeza e argumentos sólidos, quilo que a fé e a própria sensibilidade já nos revelam: é exigência do amor perfeito na Trindade que cada Pessoa esteja integralmente na outra.
Voltemos então à questão proposta agora para debate.
A hipótese controvertida, aqui, é a de que o Filho não está totalmente no Pai e vice-versa; haveria, pois, algo no Pai que não está no Filho, ou algo que é do Filho e não é do Pai, e o mesmo se poderia dizer do Santo Espírito. A hipótese controvertida quer, então, determinar que haveria algo como espaços pessoais de privacidade dentro da própria Trindade. E o debate se inicia com três argumentos objetores.
O primeiro argumento lembra que, no âmbito da metafísica aristotélica, existem oito maneiras pelas quais podemos dizer que uma coisa existe em outra. (Mas o argumento não enumera estas maneiras, apenas pressupõe que o leitor as conheça; não é necessário conhecê-las, no entanto, para compreender o ponto do argumento). Ele prossegue, dizendo que, quem quer que se dê ao trabalho de examinar as Pessoas da Trindade sob estas oito maneiras verá claramente que nenhuma delas, diz o argumento, aplica-se a Deus. Assim, conclui que o Filho não está no Pai, nem o Pai no Filho.
O segundo argumento parte da ideia de que aquele que saiu de outro já não está nele, como a criança que saiu do ventre da mãe e já não está nela. O argumento chega a citar a profecia de Miqueias (5, 1), em que profeta diz que a origem do Messias é de “tempos imemoráveis”. Disso o argumento conclui que há elementos na Revelação para defender que o Filho já não está no Pai, e vice-versa.
Por fim, o terceiro argumento recupera a própria noção de relação para afirmar que aquilo que aponta para outro, numa relação, põe-se em oposição a ele. Ora, diz o argumento, coisas que se opõem, como o locador se opõe ao locatário, ou o empregado ao patrão, ou ainda o pai ao filho, não podem ser consideradas como estando uma na outra. Disso o argumento conclui que nem o Pai está no Filho, nem o Filho está no Pai.
O argumento sed contra cita o próprio Evangelho de João (14, 10), no qual Jesus diz claramente: “eu estou no Pai, como o Pai está em mim”.
Colocados, então, os termos do debate, Tomás passa a dar a sua resposta sintetizadora.
Há três aspectos a serem considerados aqui, nas Pessoas divinas para resolver a questão, diz Tomás. Estes aspectos são a essência (divina, única, indivisível), a origem (quer dizer, aquela pergunta sobre quem vem de quem) e a relação, que é aquilo que, em uma Pessoa, aponta para as outras.
Nos três casos, diz Tomás, fica muito claro que cada Pessoa está na outra integralmente. Tomando especificamente o exemplo do Pai e do Filho, São Tomás começa sua análise sob o aspecto da essência. Ora, o Pai é a sua essência, que, pela geração, ele comunica inteiramente ao Filho, sem mudança, sem separação, sem divisão. Se o Filho é gerado e recebe do Pai a única e indivisível essência divina (o mesmo se aplica à processão do Espírito, que é da mesma e única essência), isso significa que o Pai, sendo a única essência divina, está inteiramente no Filho; que, por seu turno, sendo a única e mesma essência, está inteiramente no Pai (o mesmo se pode dizer do Espírito). E Tomás cita aqui Santo Hilário, que nos ensina que Deus, sendo imutável, como que “segue sua natureza” quando gera Deus imutável; deste modo, podemos reconhecer nele a natureza subsistente de Deus, porque Deus está em Deus. Assim, considerando a unidade da essência divina, fica claro que o Filho está no Pai, e vice-versa. É próprio das Pessoas Trinitárias, uma vez que são de uma só e mesma essência, estarem umas nas outras.
Também sob o aspecto da relação, diz Tomás, não se pode compreender um dos opostos sem compreender o outro. Não se define um “pai” sem saber-se o que é um filho, como não se entende um esposo quando não se sabe o que é uma esposa. Neste sentido, cada oposto está, por sua razão mesma de ser, contido no outro, quanto à sua inteligibilidade. Então, também sob o aspecto da relação, é perfeitamente razoável afirmar que as Pessoas Trinitárias estão umas nas outras, como o Pai está no Filho e vice-versa.
Por fim, sob o aspecto da origem, São Tomás resgata a analogia entre a segunda Pessoa e o verbo ou palavra mental que se produz em nós pelo conhecimento. De fato, o conhecimento gera em nós o verbo mental, quer dizer, a posse daquilo que é conhecido como species absorvida e comunicável em nossa mente. Assim, o conhecimento gera em nós o verbo mental, mas de uma forma tal que ele está inteiramente em nós, no nosso intelecto. Bem assim com a procedência do amor: quando amamos alguém, o movimento do amor permanece inteiramente em nós, dirigindo nosso coração para o amado que conhecemos. Da mesma maneira, quando o Pai gera o Verbo e o Amor, na Trindade, ele o faz de uma maneira tal que, originando-os, tem-nos inteiramente em si, em Deus mesmo. E vice-versa.
Postos os princípios para responder ao debate, São Tomás passa a examinar às objeções iniciais.
A primeira objeção é aquela que diz que, dos oito modos metafísicos apresentados por Aristóteles para descrever as maneiras pelas quais uma coisa pode estar em outra, nenhuma poderia ser aplicada às Pessoas trinitárias, e disto conclui que elas não estão reciprocamente umas nas outras.
Mas São Tomás responde com firmeza que utilizar o instrumental da filosofia para fazer teologia não é tão simples assim. É preciso sempre tomar muito cuidado com o uso da analogia entre as criaturas e Deus, quando se utiliza o instrumental filosófico, ainda que seja uma filosofia tão rica e reta quanto a de Aristóteles. A metafísica em geral, tal como estudada pelos maiores filósofos, fala da estrutura do real tal como encontramos no reino criatural. Por isto, não pode simplesmente ser transposta para o reino da teologia. A filosofia não pode pautar o conhecimento teológico, mas ocorre exatamente o contrário: é a interpelação da Revelação que estabelece o valor dos instrumentos filosóficos, porque Deus é sempre o analogante, nunca o analogado; por isto, Deus não pode ser compreendido com os limites estabelecidos para compreender o reino criatural. É por isto que todas as maneiras para compreender como uma coisa pode estar em outra, em termos criaturais, não serve para compreender como uma Pessoa Trinitária pode estar em outra, ali na intimidade da Trindade. O modo que mais se aproximaria, diz Tomás, é aquele que diz que uma coisa está, ainda que virtualmente, no seu princípio originante, como a casa está na mente do arquiteto antes de ser construída. Mas, mesmo aqui, falamos de duas coisas que não se identificam por serem de uma e mesma essência, como no caso das Pessoas divinas. Mesmo quando dizemos que, de certa forma, os filhos encontram-se nos pais que se apresentam para o matrimônio, e mesmo neste caso, em que ambos, filhos e pais, têm a mesma natureza, faltaria aí a unidade de essência que é própria apenas da Trindade santa. Eis porque este raciocínio não é capaz de desaprovar ou infirmar a noção de que o Pai está no Filho e vice-versa.
O segundo argumento objetor cita Miqueias (5, 1) para tentar estabelecer que, se o Filho saiu do Pai desde toda eternidade (e do mesmo modo o Espírito Santo procedeu deles), então eles já não estão uns nos outros, porque, afinal, saíram uns dos outros.
São Tomás de novo responderá com a analogia da processão do verbo intelectual e do movimento de amor, em nós. Quando conhecemos alguma coisa, abstraímos dela sua forma, que, assimilada pelo nosso intelecto, forma em nós a palavra sobre a coisa, que podemos comunicar. Então, formado o conhecimento em nosso intelecto, a palavra procede de nós, mas está em nós. Do mesmo modo se dá com a processão do amor, no coração do ser humano: o movimento que nos impulsiona ao amado, quando o conhecemos e o queremos, projeta-se de n[os para o amado, mas está inteiramente em nós. Em Deus, diz Tomás, é este o movimento das processões: pessoas com a mesma essência, que se distinguem somente pela relação que as originam, uma a modo intelectual, outra a modo de amor. E é assim que, embora procedentes e realmente originadas, elas permanecem umas nas outras, como a analogia deixou claro.
Por fim, a terceira objeção parte da noção de relação como oposição – pai se opõe a filho, como empregado a patrão, esposo a esposa, etc. Disto, o argumento conclui que opostos não podem estar uns nos outros, e, portanto, o Pai não está no Filho e vice-versa.
São Tomás nos lembra que as relações divinas sã muito peculiares: elas de fato opõem, mas não separam a essência daqueles a quem opõem. Pai e Filho são de uma única e mesma essência. Mas, mesmo que encarássemos a questão sob o aspecto exclusivo das relações, São Tomás já nos tinha demonstrado, na sua resposta sintetizadora, que, pela sua própria concepção, as relações incluem, em cada oposto, a noção do outro oposto, para ser compreensível. Não se compreende um locador sem um locatário, ou marido sem esposa, um pai sem filho. Ainda sob este aspecto, é perfeitamente razoável compreender que o Pai está no Filho e vice-versa.
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