Continuamos o debate a respeito da igual dignidade das Pessoas divinas. Com já vimos, esta discussão tem enormes consequências antropológicas, porque permite estabelecer os critérios para fundamentar a igualdade de dignidade entre as pessoas humanas. E esta é exatamente a discussão agora: se cada aspecto debatido nesta questão 42 diz respeito à igualdade de dignidade entre as Pessoas divinas, aqui debateremos a questão da igualdade em perfeição, ou seja, se elas são “iguais em grandeza”. Lembremos que, nos artigos anteriores, São Tomás já nos ensinou que “grandeza”, com relação às pessoas divinas, diz respeito à integridade da sua perfeição, e não aos acidentes de quantidade, já que não há quantidades em Deus. Assim, discutir a igualdade de grandezas entre as Pessoas divinas significa afirmar que são iguais em perfeição; quer dizer, dentro da pluralidade de relações que configura a Trindade, todas as Pessoas são da mesma perfeição e, portanto, também sob este aspecto, têm a mesma dignidade.
Inegável, porém, que elas diferenciam-se pelas noções. Poderíamos dizer que elas se distinguem pelas relações que as constituem, sem diferenciar-se na mesma essência divina; mas, como debateremos neste artigo, é necessário perguntar se a diversidade de posições que ocupam nestas relações não determinam diferenças na própria dignidade das pessoas divinas. Então esta é a hipótese controvertida aqui. Parece que as Pessoas divinas não têm a mesma grandeza, vale dizer, não ostentam a mesma perfeição.
São três os argumentos objetores que São Tomás coleta, neste artigo.
O primeiro argumento é bíblico. Cita o Evangelho de João, 14, 28, no qual Jesus afirma: “o Pai é maior do que eu”, texto que deu margem a inúmeros debates trinitários ao longo dos séculos. Cita também 1 Coríntios 15, 28, onde São Paulo diz expressamente que o Filho, ao final, “prestará homenagem àquele que lhe sujeitou todas as coisas”, ou seja, ao Pai. Destas duas passagens o argumento conclui que o Filho não é igual em dignidade ao Pai, porque o Pai, conforme a própria Bíblia, seria maior do que o Filho.
O segundo argumento constrói um silogismo. Para que as Pessoas da Trindade tivessem igual grandeza, seria necessário que compartilhassem todas as perfeições. Mas paternidade é uma perfeição própria do Pai, que o Filho e o Espírito não compartilham. Logo, uma vez que as Pessoas não compartilham todas as perfeições, também não têm a mesma grandeza e, portanto, não têm dignidade igual, conclui o argumento.
O terceiro argumento tenta fazer metafísica com Deus, aplicando à Trindade o conceito metafísico de universal, individual, todo e partes. De fato, diz o argumento, quando há algum conceito universal que se aplica a várias coisas, a soma dessas coisas sempre é maior do que cada coisa que participa individualmente do universal. O argumento traz como exemplo o universal “ser humano”. Cada homem e cada mulher existente participa do universal “ser humano”; sendo uma participação individual num universal, os homens e mulheres são apenas parte do universal “ser humano”. Ora, é claro que a soma das partes é sempre maior do que cada parte tomada isoladamente; três homens são mais do que dois homens, e dois homens são mais do que um só. O argumento toma, então, as noções trinitárias, que já foram debatidas por nós (as cinco noções são a inascibilidade, a paternidade, a filiação, a espiração comum e a processão) e afirma que a expressão “noções trinitárias”, incluindo em si cinco elementos, é um universal, do qual cada elemento participa como um particular. Ora, prossegue o argumento, no Pai há três noções (inascibilidade, paternidade, espiração comum), enquanto no Filho há duas (filiação e espiração comum) e no Espírito Santo apenas uma (a processão). Disso o argumento conclui que, uma vez que o número de unidades de noções em cada Pessoa é diferente, a grandeza delas também é diferente, e, portanto, elas não têm a mesma dignidade.
Como argumento contrário, a autoridade das Sagradas Escrituras. O argumento sed contra cita o famoso hino da Carta aos Filipenses, 2, 6: “Ele não se prevaleceu de sua igualdade com Deus”. Ora, disso o argumento conclui que não pode haver diferenças ali na própria intimidade divina, mas há, ali, igualdade de todos em grandeza.
Em sua resposta sintetizadora, São Tomás começa logo reafirmando a igualdade de dignidade entre as Pessoas trinitárias, também sob este aspecto. A grandeza, em Deus, lembra mais uma vez São Tomás, não é nada mais do que a perfeição de sua natureza. Mas se o Filho tem a mesma natureza do Pai, que é a natureza divina, perfeita em si mesma, ele deve ter necessariamente a mesma perfeição.
É claro que, neste ponto, muita gente poderia dizer que não é assim, usando uma analogia com a geração humana. De fato, entre nós, humanos, a geração de um filho não produz desde logo um ser com a mesma perfeição de natureza dos pais, já que a criança nasce frágil, desprotegida e, certamente, inexperiente e ainda não informada, não educada, não virtuosa. Neste sentido, a geração biológica é progressiva, desencadeia um verdadeiro processo em que a perfeição do filho vai sendo desenvolvida até equiparar-se (e eventualmente superar) à dos pais. Isto não significa que há menor dignidade humana no filho, já que toda a natureza humana está nele, ainda que na maior parte em potência. As noções de ato e potência podem nos explicar a razão pela qual, entre as criaturas, a diferença de grandeza não implica a diferença em dignidade. Toda a dignidade humana está inteira em cada ser humano, porque a inteireza da natureza humana está em cada um de nós, embora num misto de ato e potência que nos torna sempre aperfeiçoáveis. Certamente, portanto, eles não são, ainda, iguais em perfeição, no sentido da necessidade do crescimento em autonomia, em perfeição, em plenitude de humanidade, pelo progressivo desenvolvimento das potências humanas em ato. O filho humano é gerado, desde a concepção até atingir a idade adulta, fase em que ele vai crescendo em virtude e graça perante Deus e perante os homens. A geração humana, portanto, é um processo, e, diríamos, um processo que só tem seu termo na morte.
Mas em Deus não é assim. A geração, em Deus, não é um processo. Para a natureza divina são inaplicáveis as noções metafísicas de ato e potência. Deus é ato puro, sem qualquer mistura de potência. De sempre e desde sempre, portanto, a geração divina é total, perfeita, atual e plena. Como tudo aquilo que é divino. Excluindo, pois, tudo o que, no ser humano, é progressivo crescimento na perfeição, a geração divina é perfeição plena eternamente, como ensina Santo Hilário, citado aqui por São Tomás. É preciso lembrar que, aqui como em tudo mais, Deus é o analogante, não o analogado. É Deus que estabelece o critério do que é a verdadeira paternidade, a verdadeira filiação, a verdadeira união no amor. Os defeitos da geração humana se dão exatamente porque nós nos afastamos, por sermos criaturas, daquilo que é a perfeição da geração divina: eternamente perfeita.
Isto implica que a processão das Pessoas divinas (do Filho e do Espírito), perfeitas que são, transmitem total, plena e eternamente a perfeição daquele que as origina, porque em Deus o poder de gerar e proceder é perfeito e infinito, eterno e pleno. Deus não seria perfeito se assim não fosse. Assim, os que procedem e aqueles dos quais se procede são iguais em grandeza, em dignidade, em perfeição.
Depois de estabelecer os princípios, Tomás passa a enfrentar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor é aquele que cita o Evangelho de João 14, 28 e 1Coríntios 15, 28 para afirmar que o Pai é maior que o Filho e que, portanto, eles não poderiam ser considerados como iguais em grandeza.
São Tomás vai lembrar daquele princípio cristológico do Concílio de Calcedônia, pelo qual se afirma que o Filho é uma só pessoa em duas naturezas, o chamado princípio da “união hipostática”. Assim, quanto à natureza humana, ele é menor que o Pai e está sujeito a ele. Mas, quanto à natureza divina, tem a mesma grandeza que ele. E São Tomás invoca, para demonstrar que sua resposta está perfeitamente de acordo com a tradição da Igreja, o testemunho do chamado “Credo atanasiano”, que diz que o Filho é “igual ao Pai, pela divindade; menor que o Pai, pela humanidade”. E cita ainda Santo Hilário, também grande autoridade em matéria de teologia trinitária, que dizia que “pela autoridade de doador, o Pai é maior, mas não é menor aquele a quem foi dado o mesmo ser”. E, lembrando que a virtude da piedade nada mais é do que a justiça para com Deus, ele completa que “a submissão do Filho é a sua piedade natural”, vale dizer, é a virtude da justiça como manifestada nele, que reconhece no Pai, origem não originada da Trindade, aquele a quem deve agradecer e louvar por seu ser originado. Mas a submissão de todos os outros seres, vale dizer, das criaturas, decorre do fato de que a criação não se sustenta por si mesma, ou seja, é débil no ser, é marcada pela provisoriedade no ser, vale dizer, encontra em Deus seu fundamento,
O segundo argumento retoma a ideia de que a paternidade é uma perfeição exclusiva do Pai, que não é compartilhada nem com o Filho, nem com o Espírito. Por isto o argumento conclui que, já que as Pessoas não compartilham todas as perfeições, também não têm a mesma grandeza e, portanto, uma vez que tudo em Deus é ato, sem potência, há uma diferença de perfeição entre as Pessoas que não se explica por qualquer processo de aperfeiçoamento progressivo, que não existe em Deus e, por isto, determina que as Pessoas não têm dignidade igual.
O que é ser igual? É ter a mesma grandeza, diz São Tomás; ter a mesma grandeza, no caso de Deus, significa ter a mesma perfeição. Ora, sabemos que a perfeição de Deus é a sua essência mesma, como vimos quando estudamos a questão 4 desta Primeira Parte.
Se a perfeição de Deus é a sua essência mesma, e se a essência não se divide com a distinção de Pessoas (são todas uma e a mesma essência), isto significa que as Pessoas são iguais em essência, e portanto igualmente perfeitas.
E quanto à distinção de Pessoas, pelas relações? Isto não determinaria diferenças entre elas, já que algumas perfeições existem em algumas pessoas e não em outras, como a paternidade existe no Pai e não no Filho?
Não, responde Tomás. A questão da diversidade de relações não insere diferenças em Deus, mas apenas especifica as origens das Pessoas. Tomás cita, então, Agostinho, que explica que “a questão da origem diz respeito apenas a saber de onde um ser provém; a questão da igualdade tem a ver com a qualidade que este ser tem”.
Assim, diz Tomás, no Pai a igualdade de perfeição essencial se manifesta como paternidade; no Filho, como filiação, e no Espírito, como amor de união, sem que isto signifique diferença de perfeição entre eles. A igualdade na perfeição é absoluta, diz Tomás, e se manifesta na riqueza da diversidade relativa. O Pai é igual na sua perfeição absoluta como doador, o Filho é igual na sua perfeição absoluta como receptor, e o Espírito é igual na sua perfeição absoluta como unificador.
A terceira objeção afirma que, uma vez que “relação” e “pessoa” são universais, e cada relação e cada pessoa trinitária é um particular, a soma de dois particulares tem que ser maior do que cada particular sozinho. É como se houvesse um conjunto chamado “noções” na qual cada noção fosse um elemento; neste caso, o Pai, em quem há três noções (inascibilidade, paternidade, espiração comum) tem que ser maior do que o Filho, no qual há apenas dois elementos deste conjunto (filiação, espiração comum) e do que o Espírito, em que apenas um elemento do conjunto das noções está presente (a processão). Assim, o argumento conclui que as Pessoas Trinitárias não são iguais em grandeza.
São Tomás vai responder que essa metafísica do particular e do universal (e, acrescentaríamos, esta matemática dos conjuntos e dos elementos) não se aplica a Deus. A relação, em Deus, não é um universal, isto é, não e como um conjunto que contém inúmeros elementos. No caso dos universais, como no caso dos conjuntos, é preciso que cada elemento particular seja algo diverso, no próprio ser, do respectivo universal (como, por exemplo, no caso dos seres humanos: cada indivíduo é um elemento, um particular do universal “ser humano”, e não esgota em si a humanidade, embora participe dela).
Mas em Deus não é assim. Não há, em Deus, um conjunto de relações, ou um conjunto de noções, ou um conjunto de pessoas. Cada relação, em Deus, é a única e mesma relação, e a própria noção de “pessoa”, em Deus, não é um universal, porque cada pessoa divina, embora realmente distinta das outras, é essencialmente um só e o mesmo Deus (ver questão 30, artigo 4). Assim, em Deus, não se aplica a matemática que diz que o todo é maior do que as partes, ou que a soma de dois é maior do que um. É por isso que as Pessoas, sendo distintas, têm a mesma grandeza.
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