Estamos nas discussões sobre a igualdade entre as Pessoas divinas. E já podemos perceber, nos debates anteriores, quão importante é estabelecer os seus termos, inclusive para fins antropológicos; de fato, se a igualdade é um tema da maior importância hoje, é na Trindade que descobrimos como Pessoas diversas podem ser tão perfeitamente iguais que podem estabelecer o padrão daquilo que é a igualdade das pessoas, no mundo criatural. Tanto no que se aproxima, quanto no que se afasta da igualdade entre as Pessoas divinas. Perder esta noção perfeita de igualdade é perder a possibilidade de ter critérios para estabelecer a noção antropológica de igualdade entre as pessoas. Aquele velho axioma que diz que, quando atiramos pedras em Deus, elas nos caem de volta na cabeça.

O fato é que, no uso corrente, e mesmo nos meios eclesiais, vemos referências a Nosso Senhor Jesus Cristo como “segunda Pessoa da Trindade”, e às vezes o Espírito Santo é chamado de “terceira Pessoa”. Mas em que sentido este uso é correto?

A hipótese controvertida, aqui, é de que este uso não é correto. Dada a igualdade essencial e absoluta entre as pessoas, diz esta hipótese, não se poderia admitir, entre as Pessoas, algum tipo de ordem na respectiva natureza, de tal modo que pudéssemos chamá-las de primeira, segunda ou terceira. São quatro os argumentos objetores aqui.

O primeiro argumento lembra que, dada a simplicidade de Deus, tudo o que se pode distinguir nele são a essência, sempre simples e una, as pessoas e as noções (as cinco noções, que posicionam as Pessoas quanto às relações, são a inascibilidade, a paternidade, a filiação, a espiração comum e a processão, que aprendemos na questão 32). Assim, se podemos distinguir também alguma ordem interna de natureza, inserir-se-ia um elemento novo de distinção, na própria intimidade divina, que não se identifica nem com a essência, nem com as próprias Pessoas, nem com as noções. Assim, o argumento conclui que não se pode admitir algo como qualquer ordem ou precedência na natureza divina.

O segundo argumento explora a ideia de que, onde há ordem de natureza, há seres que são anteriores, mais fundamentais do que os outros, ou naturalmente, ou logicamente. Por exemplo, para entender o conceito de triângulo equilátero, eu preciso entender o conceito de triângulo, e, portanto, este (o conceito de triângulo) é, do ponto de vista lógico, mais fundamental, anterior, ao de triângulo equilátero. Para entender, por exemplo, a noção de “paisagem”, preciso entender cada um dos elementos que a compõem, como a floresta só é compreensível a partir das árvores. Se, além disso, Mas o credo atanasiano, diz o argumento, garante que não há, dentro da Trindade, nenhuma Pessoa que seja anterior ou mais fundamental que a outra. Assim, conclui o argumento, não se pode admitir uma ordem de natureza na Trindade.

O terceiro argumento diz que reconhecer uma ordem é reconhecer distinções. Mas não pode haver distinções na própria natureza divina, diz o argumento, porque Deus é naturalmente uno. Reconhecer uma ordem assim seria, portanto, reconhecer divisões na natureza divina mesma. Assim, conclui que não pode haver ordem de natureza em Deus.

É a mesma linha do quarto e último argumento objetor. Se a natureza divina é sua essência mesma, diz o argumento, e se não se pode reconhecer nenhum tipo de ordem intrínseca na essência divina, absolutamente simples e unitária, tampouco, conclui, poder-se-ia reconhecer alguma ordem desse tipo na sua natureza.

Como argumento sed contra, mais uma vez a autoridade do credo atanasiano, símbolo de ortodoxia em matéria trinitária – e em tudo o mais relativo à fé católica. Se existe pluralidade sem ordem, então não há clareza, mas confusão, em tal pluralidade. Mas o credo atanasiano nos assegura que não há confusão no interior da Trindade. Logo, conclui o argumento, é necessário admitir que há, ali, ordem.

Em sua resposta sintetizadora, São Tomás inicia afirmando que toda ordem tem relação com um princípio. E a noção de princípio tem vários significados, lembra Tomás. Por exemplo, o princípio da organização do espaço é o ponto, e toda ordem espacial se estabelece com relação a ele. É assim que para localizar alguma coisa num mapa, por exemplo, eu preciso das coordenadas que localizam o ponto preciso em que aquilo está situado. O princípio do conhecimento é o que permite a respectiva demonstração lógica, como, por exemplo, os princípios da identidade e da não contradição são capazes de demonstrar que um conhecimento é falso. O princípio do efeito é a respectiva causa, e assim por diante. A ordem, pois, é estabelecida a partir do respectivo princípio.

No caso da Trindade, da própria intimidade divina, no debate da questão 33, artigo primeiro, ficou bem estabelecido que o único princípio é a origem, uma vez que, na Trindade, algumas Pessoas originam, outras são originadas. Mas este princípio de origem, que estabelece a própria pluralidade na Trindade, não implica nenhuma prioridade, nenhuma diferença de importância, nenhuma anterioridade ou superioridade entre as Pessoas. Nenhuma Pessoa trinitária é mais fundamental do que a outra por ser originante ou originada. No entanto, não se pode negar que há uma ordem de origem: o Pai é ingênito, e portanto origina sem ser originado. O Filho é gerado, e portanto originado, mas com o Pai dá origem ao Espírito Santo. Este, por sua vez, é originado, mas não origina nenhuma outra Pessoa. Isto, conclui Tomás, estabelece entre eles uma ordem de natureza, sem estabelecer nenhuma prioridade. Nenhuma Pessoa é anterior ou superior, mas algumas originam e outras são originadas. É neste sentido, e somente neste, que podemos falar num “primeira Pessoa da Trindade”, que é o Pai, numa “segunda Pessoa”, o Filho, e numa terceira Pessoa, o Espírito Santo, resguardando, no entanto, a perfeita igualdade entre eles.

Estabelecidos, pois, os princípios que encaminham o debate, São Tomás passa a enfrentar as questões iniciais.

O primeiro argumento objetor lembra que, na simplicidade divina, apenas podemos identificar a essência, em sua unidade absoluta, as Pessoas e as noções que as identificam. Assim, diz o argumento, não há lugar para introduzir uma “ordem de natureza” como mais um elemento na intimidade divina, já que ele não se identifica nem com a essência, nem com as Pessoas, nem com as noções. Mas São Tomás responderá que a ordem de natureza se estabelece a partir das noções. De fato, diz Tomás, a ordem de natureza é estabelecida pelas noções, não como algo que de algum modo as modifica ou se acrescenta a elas, mas exatamente tomando-as como exprimindo a origem, na intimidade trinitária, na forma explicada na resposta sintetizadora, acima.

O segundo argumento objetor é o mais complexo, e cuja resposta é a mais difícil de seguir. O argumento diz que, nas coisas criadas, há dois tipos de ordem de natureza: aquela decorrente do conhecimento (chamaríamos hoje de ordem lógica) e aquela decorrente da relação de causa e efeito (chamaríamos hoje de ordem ontológica). Quando há uma ordem lógica entre duas coisas, o conceito mais fundamental ordena o menos fundamental, e esta ordenação não é cronológica, mas de inteligibilidade. Pensemos num triângulo isósceles: o conceito de triângulo não precisa do conceito de “isósceles” para ser inteligível, mas o conceito de “isósceles”, para triângulos, somente é inteligível se o conceito de triângulo o precede.

No caso das ordens ontológicas, elas sempre envolvem relações de causa e efeito, e, neste caso, a causa é sempre cronologicamente precedente ao efeito, mesmo quando têm a mesma natureza, e, portanto, não haja prioridade lógica entre eles. Nas criaturas, o pai é sempre mais velho que o filho, mas a noção de “pai” não é mais fundamental do que a noção de “filho”, nem pode ser compreendida sem esta. Assim, diz o argumento, admitir uma ordem de natureza em Deus traria a necessidade de admitir ou uma superioridade lógica ou uma precedência ontológica, cronológica mesmo, entre as Pessoas.

Mas não é assim, diz Tomás. Não há, na Trindade, uma ordenação conceitual, de ordem lógica, como se o conceito de Pai fosse mais inteligível que o de Filho, ou mais fundamental e pressuposto para a compreensão do outro. Isto não existe. Só há um Filho porque há um Pai, e vice-versa. A noção de Filho só se intelige quando relacionada à de Pai, mas a noção de Pai também só se intelige com a de Filho.

Assim, em Deus, a ordem deveria vir da relação, e de fato vem dela. Mas, se nas criaturas a geração é um acidente com relação às substâncias envolvidas (o pai humano gera o filho, mas o filho é substancialmente um ser humano e continuará a sê-lo mesmo que o pai morra), em Deus a própria relação constitui a Pessoa, numa mesma e única natureza divina. Assim, nesta relação de origem divina, não haveria um Pai se não houvesse um Filho e vice-versa; o Filho não é outra coisa senão a única essência divina sob a noção de gerado. Daí, não se pode falar numa precedência cronológica entre as Pessoas, como aliás foi muito bem debatido no artigo anterior. Por isto, em Deus, a ordem da origem ordena a natureza, mas isto não implica nem precedência lógica, nem cronológica.

O terceiro argumento objetor diz que, se introduzíssemos ordem na própria natureza divina, romperíamos sua unidade. Mas não se rata disso, diz Tomás em sua breve resposta. Não estamos ordenando a natureza divina, como se ela fosse dividida e comparada consigo mesma; apenas estamos reconhecendo que, dada a própria origem das Pessoas divinas, podemos classificá-las numa ordem, sem implicar qualquer diferença entre elas.

O quarto argumento objetor, finalmente, diz que a natureza divina é a essência divina mesma. Ora, diz o argumento, se não pode haver uma ordem na essência divina, dada a unidade absoluta que há aí, tampouco poderia haver na natureza divina.

Mas não é assim, diz São Tomás. Uma vez que a natureza é a essência vista sob o aspecto da operação, e uma vez que a própria noção de origem está inscrita na natureza da Trindade, na sua dinâmica que a constitui como plúrima em pessoalidades, é da natureza de Deus que as Pessoas se originem e deem origem umas às outras. Assim, é mais adequado falar de uma “ordem da natureza”, quando tratamos destas origens, do que de uma “ordem de essência”. Não há, aí, nenhuma multiplicação de natureza ou de essência, mas a própria ordenação das origens que distinguem as Pessoas na Trindade.

Este é um daqueles artigos em que a abstração torna necessário reler até compreender, mas cuja consequência é séria e evidente. Graças à sua fundamentação rigorosa e convincente, podemos falar em “primeira Pessoa”, “segunda” e “terceira” pessoas, sem gerar mal-entendidos.