Como vimos no texto anterior, a questão controvertida aqui é a igualdade das Pessoas divinas no seu aspecto de duração. São iguais em eternidade, ou o fato de que algumas são originantes e outras, originadas, estabelece diferenças entre elas, quanto à eternidade?

Postos os argumentos objetores, que tentam estabelecer a impossibilidade de admitir tal igualdade, e posto o argumento sed contra, que cita, com a autoridade do credo atanasiano, a igualdade das pessoas quanto à sua coeternidade como doutrina ortodoxa de fé na Igreja, São Tomás passa a dar sua própria resposta sintetizadora.

Para começar, ele afirma, com todas as letras, que é necessário afirmar a coeternidade das Pessoas divinas. Não se trata, aqui, de reconhecer como que uma coação legal, uma imposição de fé à qual se dobrar, mas uma afirmação que, sendo de fé, está em perfeita sintonia e harmonia com a inteligência, a razoabilidade, e que há fundamento para admiti-la coerentemente. A igualdade entre as pessoas é, portanto, uma verdade de fé que a razão aceita como perfeitamente adequada.

O debate, aqui, diz respeito à relação entre as coisas principiadas e aquilo que é seu princípio. Há duas razões para que as coisas principiadas sejam posteriores aos respectivos princípios, diz São Tomás. A primeira razão está no agente que dá origem, a segunda razão está na própria ação de originar.

Vendo o originar com relação ao agente, prossegue Tomás, há duas maneiras pelas quais um agente pode ser um originador de outra coisa. Ele pode ser um agente voluntário, como um artesão que faz uma escultura, ou pode ser um agente natural, como uma árvore que dá frutos. No caso do agente voluntário, a voluntariedade do seu agir leva a que o seu produto, aquilo que ele origina, seja necessariamente posterior a ele mesmo, já que a sua atividade voluntária envolve e pressupõe a escolha da oportunidade, do momento exato para agir. Ou seja, aquilo que o agente origina, aquilo que ele faz, tem que ser posterior a ele, porque seu ato de vontade pressupõe a escolha da oportunidade, e não é possível escolher uma oportunidade que anteceda o próprio agente. No caso do agente natural, como a árvore que dá frutos, é necessário que o agente possua a completude da capacidade de gerar seus efeitos, o que demanda algum tempo. Para que a árvore frutifique, precisa ter algum grau de maturidade, raízes suficientemente firmadas no solo, folhagem adequadamente disposta, caule com um grau mínimo de firmeza, e assim por diante. O mesmo caso se aplica à prole dos animais, já que a maturidade orgânica para a reprodução só se atinge quando se supera a infância.

Se estudarmos este originar a partir do enfoque da ação, também aqui fica patente a sucessividade, ou seja, o fato de que o originado sempre é posterior ao originante. De fato, para agir, ou seja, para que haja uma ação, é preciso que o agente exista; ainda que comece a agir tão logo entre no existir, teríamos que reconhecer que o seu próprio existir tem que preceder ao seu agir. E o efeito do seu agir, aquilo que foi originado, tem que suceder a ação.

E com relação a Deus? Bom, lembra Tomás, já estabelecemos que Deus gera por natureza, não por vontade (nesta primeira parte, ver a questão 41, artigo 2, que já debatemos). Logo, a ele não se aplica o enfoque do agente voluntário. Se ele fosse um agente voluntário, quando o Pai gerasse o Filho, então o Filho seria necessariamente posterior ao Pai, como São Tomás explicou acima. Mas ele não é um agente voluntário. Logo, não há contradição lógica em dizer que, não havendo nenhuma decisão envolvida na geração intratrinitária, não haveria, sob este enfoque, nada que nos compelisse a defender que o Filho deve ser posterior ao Pai.

O pai gera o Filho por natureza. O Espírito Santo procede deles por natureza. Mas a natureza divina é perfeita desde sempre, não está sujeita a aperfeiçoamento. Deus não melhora com o tempo, não se aperfeiçoa, ele é, desde sempre e para sempre, a perfeição absoluta, total e simultânea. Assim, não seria imaginável que Deus, para gerar, precisasse esperar um tempo de maturação da divindade, como uma planta precisa maturar para dar frutos. Sendo perfeito desde sempre, ele está pronto para gerar desde sempre. Também aqui não há nenhuma contradição lógica em afirmar que, uma vez que as Pessoas procedem por natureza, esta processão não implica, em Deus, nenhuma sucessão, mas a própria coeternidade.

E se olharmos sob o aspecto da ação que faz originar, dados os pressupostos colocados atrás, não teríamos que reconhecer que não pode haver igualdade na eternidade, entre as três Pessoas, mas sucessão entre elas? Não, diz Tomás. A ação pela qual o Pai gera o Filho, e estes fazem proceder o Espírito Santo, não tem em si nenhuma sucessão, porque não pode haver nenhum processo de melhora, em Deus; ele é perfeito, completo e absoluto, desde sempre e para sempre, voltamos a dizer. Isto significa que a geração não é um processo, algo que parte de um antes para chegar a um depois, porque isto implicaria reconhecer uma mudança em Deus, e Deus, sendo absolutamente perfeito em toda a eternidade, não muda jamais. A geração e a processão, portanto, não são sucessivas, mas, sendo divinas, são desde sempre e para sempre perfeitas e completas. Donde se conclui, diz Tomás, que o Filho existe desde que existe o Pai, e o Espírito Santo com eles. Tudo perfeitamente coerente, não há nenhuma contradição possível.

Colocados os critérios, São Tomás passa a enfrentar as objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor traz as doze maneiras pelas quais uma coisa pode originar-se de outra, para concluir que, qualquer que seja a maneira pela qual o Filho e o Espírito Santo procedem, dada qualquer destas doze maneiras, eles devem ser inferiores ou posteriores ao Pai.

São Tomás responde que nenhum dos modos de originar-se que se dão entre as criaturas pode ser univocamente aplicado a Deus. É por isto, diz Tomás, citando santo Agostinho, que devemos tomar, dos diversos modos criaturais, aquilo que pode nos revelar as perfeições de Deus, afastando, deles tudo o que envolve materialidade, imperfeições ou progressividade. E ele lembra que o Sínodo de Éfeso toma diversos nomes do Filho para demonstrar as diversas perfeições de sua geração coeterna: o Filho, diz o Concílio, é chamado de “Esplendor” do Pai para manifestar sua coeternidade. Ele é chamado de “Verbo” ou “Palavra” para demonstrar que seu nascimento é impassível, vale dizer, não é uma relação de atividade e passividade. Por fim, ele é chamado de “Filho” para ressaltar sua consubstancialidade, já que os filhos são sempre da mesma substância dos pais.

De todos estes nomes e aspectos, diz Tomás, aquele que mais perfeitamente descreve esta origem é o de “verbo” ou “palavra”, diz Tomás. O verbo é o conhecimento expressado intelectualmente. Assim, num intelecto criado, como o intelecto humano, é preciso que o conhecimento seja efetivamente adquirido para que o verbo se forme na mente. Mas em Deus não é assim, porque deus não aprende; ele simplesmente sabe tudo o que há para saber, desde sempre e para sempre, na sua perfeição absoluta. Assim, em Deus, o princípio de conhecimento, vale dizer, aquilo que gera o conhecimento, e o verbo ou palavra, ou seja, aquilo que resulta na mente pelo conhecimento de algo, são simultâneos e eternos.

O segundo argumento afirma que tudo o que se origina de outro tem um princípio, logo, tem um começo. São Tomás responde de modo muito breve e preciso: afirmar a eternidade das três pessoas exclui delas a noção de começo, que é cronológica, mas não a noção de princípio, de origem, que é ontológica.

O terceiro argumento faz um paralelo entre a destruição provocada pela corrupção de alguma coisa, que a faz deixar de existir, por um lado, e a geração, que origina alguma coisa e, portanto, faz com que ela comece a ser, por outro. Assim, o argumento conclui que toda geração deve ter um começo e, portanto, as Pessoas procedentes não são coeternas com o Pai.

São Tomás responderá que a destruição por corrupção é um processo em que algo que é deixa de ser. Mas a geração, em Deus, não é um processo, porque não implica nenhuma mudança em Deus. Logo, não há paralelo entre a destruição por corrupção das coisas criadas, por um lado, e a processão das Pessoas divinas, por outro. O Pai sempre gera, o Filho é sempre gerado.

O quarto argumento discute a noção de geração: o fenômeno da geração, diz o argumento, ou é instantâneo ou é um processo permanente. Se ele é instantâneo, então antes de tal instante o Filho não existia. Se é um processo permanente em Deus, então implica admitir que estar sempre sendo gerado significa nunca alcançar a perfeição que leva à autonomia. Se, portanto, diz o argumento, a geração é um processo interminável em Deus, então o Filho é eternamente imperfeito, e não é igual ao Pai, conclui.

Mas São Tomás vai nos explicar que esta afirmação decorre de uma má compreensão da eternidade. A eternidade não é algo como um tempo interminável, sem começo e sem fim, mas que ainda estaria sujeita à sucessão de eventos. A eternidade, como debatemos ao longo da questão 10, é a posse simultânea e perfeita de uma vida inesgotável. Assim, as noções de instante e de processo não se aplicam à eternidade. Ou melhor, na eternidade, o instante é indivisível, simultaneamente presente e sempre existente, já que todos os instantes estão simultaneamente presentes e sempre existentes para o ser eterno. Assim, diz Tomás, a geração do Filho (e a processão do Espírito, acrescentemos) não se dá num instante de tempo ou no tempo; dá-se como instante na eternidade, por isto permanente, presente e inesgotável. Assim, diz Tomás, para marcar esta dimensão daquilo que é presente e permanentemente inesgotável na geração, podemos dizer, com Orígenes, que o Filho nasce sempre; e para exprimir a perfeição definitiva do Filho e sua imutabilidade, afirmamos, com São Gregório e com Santo Agostinho, que ele é nascido sempre. Assim, diz Tomás, reafirmamos com vigor que o Filho nunca foi imperfeito, nem que houve algum tempo em que ele não era, como dizia Ário.