Continuamos no tema da igualdade entre as pessoas, que, como vimos, tem importantes repercussões antropológicas e vai fundamentar a ideia de igual dignidade das pessoas humanas. No primeiro artigo, vimos como a própria ideia de igualdade tem sua raiz, seu princípio, na igualdade dentro da Trindade. Ao debatermos se a ideia de igualdade poderia ser aplicada ali, descobrimos que ela nasce ali, tem ali sua habitação mais adequada e só se aplica em outros campos de modo analogado.

Agora, passaremos a discutir concretamente as consequências lógicas de conceber a igualdade entre as Pessoas trinitárias. A primeira consequência é concebê-las como coeternas. Não é uma consequência intuitiva; temos a tendência de imaginar que a Pessoa originária vem primeiro, do ponto de vista cronológico, do que as Pessoas originadas. Para nós é muito difícil imaginar uma procedência lógica desvinculada de uma procedência cronológica, porque tendemos a conceber as processões, que originam as Pessoas, de maneira análoga àqueles casos, no mundo criatural, em que alguém ou alguma coisa dá origem a outra. O debate, aqui, tende, pois, a estabelecer a s diferenças entre o originar-se no mundo criatural, por um lado, e na Trindade santa, por outro.

A hipótese controvertida, aqui, é a de que a igualdade entre as Pessoas divinas não se estende até sua coeternidade; ou seja, as Pessoas geradas não estão na eternidade de modo perfeitamente igual à da Pessoa não originada, ou originante. São quatro os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento tem origem no próprio Ário, aquele mesmo que fundou o arianismo, vale dizer, aquela doutrina antitrinitária que coloca o Filho como uma criatura, ainda que especial e perfeitíssima, mas não divina. O argumento relaciona doze modos pelos quais uma coisa pode originar outra:

1. Como o ponto origina uma reta. Neste caso, diz o argumento, falta igualdade entre eles porque a reta, que é originada, não tem a simplicidade do ponto, que é originante.

2. Como o sol gera seus raios. Mas neste caso não há igualdade entre eles, porque os rais não têm a mesma natureza do sol. Este é uma estrela, aqueles são energia.

3. Como um carimbo gera a impressão no papel. Neste caso, prossegue o argumento, falta a consubstancialidade entre o carimbo e a impressão (o carimbo é uma substância, sua impressão é outra) bem como falta à impressão o poder eficaz de produzir outras impressões iguais a si mesma.

4. Como Deus gera em nós a boa vontade. Como diz o salmo 51 (50), é Deus que cria em nós um coração puro, depois do pecado e do perdão. O perdão divino não é algo como uma terapia, um exercício de aperfeiçoamento ao modo pelagiano, mas uma verdadeira recriação da vontade reta no ser humano. Neste caso, diz o argumento, também falta consubstancialidade entre o originante e o originado.

5. Como o acidente procede da substância. Um exemplo seria o cheiro de suor que vem de um corpo cansado após o exercício físico. Neste caso, diz o argumento, falta ao acidente a subsistência, vale dizer, ele nunca vai ter uma existência por si mesmo, mas sempre vai existir na substância da qual ele é um acidente. No caso deste exemplo, o cheiro do suor será sempre o cheiro do suor daquele corpo, e nunca existirá, por aí, um “cheiro do suor” como uma coisa em si, independentemente de um corpo.

6. Como a species (a inteligibilidade de alguma coisa, sua essência inteligível) se abstrai da coisa em sua concretude existencial, material. A species se origina da coisa, mas não há, entre as duas, igualdade na simplicidade espiritual. A species, tendo natureza de inteligível, é puramente espiritual, enquanto a coisa, em sua concretude existencial, não o é.

7. Como o impulso da vontade surge do conhecimento; elas não são simultâneas, já que é preciso primeiro conhecer, para depois querer.

8. Como a estátua se origina do bronze, por transfiguração. Há, aqui, uma mudança acidental de aparência numa coisa material, em que uma nova figura se origina ali onde não havia figura discernível. É, portanto, uma mudança estritamente material.

9. Como o movente cria a mudança no movido. Lembremos que a noção de “mover”, na concepção aristotélico-tomista, ultrapassa muito a noção de mudar de lugar, que nos é familiar a partir de Descartes. Mover é mudar, é aperfeiçoar, é fazer um potencial virar ato. É só imaginar um palito de fósforo e a mão que o esfregará na lixa. É claro que o efeito de acendê-lo, ou seja, de passar do potencial de gerar fogo para o ato de ter o fogo aceso, é algo que não existe antes de que a causa se aplique. Neste caso, aquilo que resulta é sempre o efeito de uma causa, ou seja, relaciona-se com o motor a partir de uma noção de temporalidade.

10. Como as espécies surgem do gênero. Aqui, trata-se de uma relação lógica e não ontológica. De fato, como o conceito de “espécie” pressupõe o conceito de “gênero” e nele tem sua matéria, originando-se a partir das diferenças específicas, não se poderia aplicar este modo de originar-se a Deus, já que o Filho não se origina do Pai como uma espécie se origina de um gênero.

11. Pela concepção artística, como um baú ricamente entalhado origina-se da concepção que está na mente do marceneiro.

12. Pela geração, através da qual nasce a prole dos respectivos progenitores. Neste caso, é claro, os progenitores sempre precedem cronologicamente a prole.

Assim, o argumento, tendo esgotado todas as hipóteses em que algo origina outro, conclui que os elementos comuns a todas estas formas de originação são a diversidade na natureza ou na cronologia. Por isto, o argumento afirma que o filho ou necessariamente tem uma natureza diversa daquela do Pai, ou o Pai precede cronologicamente o Filho de algum modo. Ou as duas coisas são simultaneamente verdadeiras, conclui, e o Filho tanto é menor quanto mais novo que o Pai.

O segundo argumento é mais sucinto e cabal: tudo aquilo que se origina a partir de outro tem um princípio. Ora, tanto o Filho quanto o espírito santo originam-se de outro, diz o argumento. Logo, têm princípio. Disto o argumento conclui que as Pessoas originadas não são iguais ao Pai em eternidade.

O terceiro argumento toma a noção filosófica de destruição, ou “corrupção”. Tudo aquilo que se destrói é corrompido no seu ser, ou seja, deixa de existir, lembra o argumento. Então, por outro lado, tudo aquilo que é gerado entra no ser, passa a existir. Ora, lembra o argumento, o Filho foi gerado pelo Pai. Logo, conclui, em algum ponto ele entrou no existir; daí, conclui, ele não é igual em eternidade ao Pai.

O quarto argumento parte da própria ideia de geração: o fenômeno da geração, diz o argumento, só pode se dar de duas maneiras: ou ele é instantâneo ou é um processo permanente. Se ele é instantâneo, como, por exemplo, a fecundação humana (o instante maravilhoso da concepção de um novo ser humano, em que o gameta masculino encontra-se com o feminino), isto significa que antes de tal instante o Filho não existia. Se a geração é um processo permanente em Deus, então implica admitir que ele nunca chega à sua plenitude, porque aquele que é gerado está sempre sendo gerado, e estar sempre sendo gerado significa nunca alcançar a perfeição que leva à autonomia. Se a geração é um processo interminável em Deus, então o Filho é eternamente imperfeito, e não é igual ao Pai, conclui o argumento.

O argumento sed contra recorre mais uma vez à autoridade do chamado “Credo Atanasiano”, ou “Símbolo Atanasiano”, que tradicionalmente é visto na Igreja como marca de ortodoxia na fé. Neste credo, expressamente se afirma que as três Pessoas da Trindade são “coeternas entre si”, e portanto iguais na eternidade.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.