Vimos, no texto anterior, como São Tomás introduziu o debate sobre a aplicabilidade da noção de igualdade ali no interior mesmo da Trindade, para comparar as Pessoas divinas. Vimos os argumentos objetores, no sentido da hipótese controvertida inicial, que dizia que a própria noção de igualdade seria inaplicável a Deus. E vimos como o argumento sed contra resgata a autoridade do Credo atanasiano para demonstrar que o uso da noção de “igualdade”, para referir-se às Pessoas divinas, é tradicional na Igreja.
São Tomás, aliás, já começa afirmando energicamente: é necessário usar a noção de igualdade, quanto às Pessoas divinas. De fato, diz Tomás, o próprio Aristóteles afirma que a igualdade é como que uma negação de que haja, entre as coisas comparadas, algo maior ou menor. Sendo assim, prossegue Tomás, ele é necessário para que evitemos imaginar, de alguma maneira, que haja, entre as pessoas trinitárias, alguma maior ou menor que a outra. Boécio chama a atenção para as consequências nefastas de imaginar que possa haver espaço para imaginar que, dentro da Trindade, alguma Pessoa possa ser descrita como maior ou o menor que outra. Este foi, lembra São Tomás, o erro dos arianos, que descrevem o Pai como maior que o Filho e, portanto, negam a própria Trindade, estabelecendo diferenças entre as pessoas ali mesmo na sua dignidade, vale dizer, diferenças na divindade.
A afirmação da unidade divina, como vimos nos debates da questão 11, não significa que contemos a unidade, em deus, como se ele fosse uma coisa entre as muitas coisas que há na criação. Em Deus, unidade não significa contagem, mas integridade, inteireza, totalidade e alteridade completa com relação à criação. Dizer que Deus é uno significa dizer que ele é inteiro, íntegro, indiviso, total e completo. Assim, se, dentro mesmo da Trindade, não afirmássemos a igualdade das pessoas, estaríamos negando a sua integridade, ao introduzir medida lá mesmo na intimidade de Deus, o que destruiria a própria ideia de Trindade: se as três pessoas são a única e mesma essência divina, declarar que pudesse haver neles alguém maior ou menor que outro significaria dizer que há diferença ali mesmo na essência divina, que poderia ser quantificada, dividida e comparada; ou significaria, por outro lado, negar a divindade das pessoas “menores”, atribuindo-a apenas à pessoa “maior”, o que é exatamente o erro dos arianos. Necessário, pois, afirmar que, em sendo de uma só e mesma essência, as Pessoas divinas realizam perfeitamente a noção de “igualdade”, já que, embora distintas, são um só e mesmo Deus.
Assim, fazendo uma pequena digressão, eu diria que a igualdade entre as Pessoas divinas é o analogante que permite falar da igualdade entre as pessoas humanas, como análoga por atribuição àquela. A igualdade entre as Pessoas divinas é a única igualdade interpessoal que esgota e realiza, perfeitamente, a noção de igualdade entre pessoas.
Postos, então, estes princípios, São Tomás passará a responder às objeções iniciais; e suas respostas, como sempre, complementarão magnificamente o que estudamos até aqui.
O primeiro argumento lembra que a noção de igualdade pressupõe comparação entre quantidades, sejam quantidades intrínsecas, como as dimensões, a massa, o tamanho, sejam quantidades extrínsecas, ou seja, determinações como espaço e tempo. Todos estes aspectos que podem ser comparados, diz o argumento, não existem em Deus. Logo, conclui, a própria noção de igualdade é inaplicável a ele.
Na sua resposta, São Tomás vai nos ensinar que há duas maneiras de comparar as coisas, de modo a estabelecer entre elas uma igualdade. A primeira maneira é aplicável às coisas materiais, que envolve compará-las corporalmente, em massa, dimensão, duração ou lugar. Esta maneira, diz Tomás, não é aplicável a Deus, porque Deus não é corporal. Resta, pois, um outro tipo de comparação, que São Tomás chama de comparação pela quantidade virtual, ou quantidade de participação na forma. Isto significa comparar duas coisas que têm a mesma forma e qualificá-las pela perfeição com que a forma se manifesta em cada uma delas. São Tomás nos ensina que duas coias, simplesmente por terem a mesma forma, já podem ser consideradas similares ou semelhantes. Assim, um cão sem raça definida é semelhante a, digamos, um cão pastor de raça. Mas não são iguais; se eu tiver que escolher um dos dois para utilizá-lo no pastoreio de ovelhas, o segundo é melhor que o primeiro. Um bloco de mármore de Carrara é um pedaço de pedra, e por isto é semelhante a um pequeno seixo rolado no leito de um rio. Mas se alguém quer esculpir uma estátua, aquele é mais adequado do que este. Dois blocos de Mármore de Carrara com as mesmas dimensões são, sob este aspecto, qualitativamente iguais, ou seja, são iguais naquilo que São Tomás chama de “quantidade virtual”. Outro exemplo, mais próximo do próprio texto de Tomás, é o do poder ígneo, ou seja, o poder de produzir aquecimento, de uma determinada substância. Certamente o etanol é combustível, mas o calor produzido pela queima da parafina da vela é muito maior; neste caso, diz Tomás, a quantidade virtual, ou seja, a participação da parafina na forma de calor, é muito mais intensa. Trata-se, pois, de uma analogia que permite falar numa comparação qualitativa, em função da participação numa mesma forma.
Tendo estabelecido estes critérios, São Tomás passa a explicar que esta comparação pela “quantidade virtual”, ou qualitativa, pode ser considerada das seguintes maneiras:
1. Quanto perfeição na participação da forma. Uma maçã de cores fortes, madura e suculenta participa melhor da forma de maçã do que uma fruta murcha, azeda e descolorida. Talvez um livro seja um exemplo melhor: dois livros podem ter o mesmo volume de papel, rigorosamente o mesmo peso, a mesma cor, a mesma quantidade de tinta, o mesmo tamanho e o mesmo tempo de edição. No entanto, um deles pode ser um livro ruim de literatura barata, e o outro pode ser um clássico literário ou mesmo um livro científico sério e avançado. O que diferencia os dois está simplesmente no reino das ideias, ou seja, das formas, já que materialmente são iguais. O livro bom é superior qualitativamente, ou, poderíamos dizer, espiritualmente.
Neste caso, poderíamos dizer que o segundo livro, sendo um clássico da literatura ou mesmo um clássico da ciência, é maior do que o primeiro, no sentido de que as ideias que ele alberga são melhores, mais perfeitas, do que aquelas presentes no outro. E esta noção de maior, aqui, não é, de modo algum, material. Neste sentido, poderia, analogicamente, ser aplicado às Pessoas divinas.
2. Quanto aos próprios efeitos da forma na coisa. Tudo o que existe, existe por ter uma forma, diz Tomás, firmando-se na filosofia aristotélica, recebida plenamente pela Escolástica neste particular. Assim, o primeiro efeito da forma é a) que a coisa exista. E ela existe mais plenamente, diz Tomás, quanto mais ela seja uma coisa formal, e não material. Um bom livro tem maior chance de ser reeditado do que um livro vagabundo. Um ser humano, que é composto de matéria e forma, inelutavelmente morrerá. Mas um anjo, que é uma pura forma existente, existirá para sempre. O outro efeito da forma é que ela aja, ou interaja. Se um animal tem a forma de um cão, ele latirá, enquanto que um ser que tem a forma de gato miará. O agir segue o ser da forma, em suma. E quanto mais perfeita a forma, mais poder de agir a coisa terá. Um cão pode correr, latir, morder, alimentar-se, reproduzir-se, enquanto uma pedra quedará inerte ali eternamente, até que alguma coisa externa a ela venha movê-la. Assim, quanto ao efeito, diz Tomás, uma coisa formalmente mais perfeita tende a ter maior plenitude, maior permanência, enquanto as imperfeitas são mais perecíveis – vale dizer, quanto mais perfeita é uma coisa, mais estável é o seu ser. E quanto aos efeitos da forma em sua operação, quanto mais perfeita a forma, mais operações o ser terá. A forma mineral é inerte, a vegetal tem poucas atividades, a forma animal tem bastante autonomia no seu agir e as formas espirituais tendem à riqueza e diversidade na sua ação.
São, portanto, três critérios para a comparação qualitativa das coisas não corporais, diz Tomás. A perfeição na participação, ou superioridade formal, a estabilidade no ser e o poder de agir. E nestes três critérios, diz São Tomás, há igualdade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo: nenhum deles é melhor do que o outro em sua divindade, nem na permanência na eternidade, nem no poder de agir. São, portanto, iguais.
O segundo argumento reafirma que a igualdade é uma noção material, e só os seres materiais podem ser declarados iguais. Os seres formais, diz esta refutação, podem ser considerados como similares ou semelhantes, mas nunca como iguais, porque não se lhes pode medir. Ora, prossegue o argumento, em Deus a essência tem o valor de forma, não de matéria. Assim, conclui, as pessoas podem até ser consideradas similares, mas não iguais.
São Tomás responderá usando por base os princípios estabelecidos na resposta anterior – especificamente o princípio da comparação qualitativa, ou “quantidade virtual”, como Tomás o chama. Ora, esta comparação se dá em virtude da forma. Ela inclui em si a noção de similitude pela participação na mesma forma; mas vai além, porque a noção de igualdade qualitativa, além da similitude, inclui também a ideia de ausência de excesso em algum dos elementos comparados. Nas coisas simplesmente similares, alguma delas pode ser mais perfeita, participar da forma mais completamente do que a outra. Mas nas coisas formalmente iguais, elas são similares sem excessos ou faltas. Assim, conclui Tomás, uma vez que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são de uma só e mesma essência, e não seres diversos que participam da mesma forma, então com relação a eles temos que admitir a igualdade, e não a mera similitude. Eles são similares, não há dúvida, diz Tomás, porque toda igualdade no sentido espiritual envolve uma similitude. E com isto, diz ele, prova-se que Eunômio, que defendia que o Filho não é similar ao Pai, estava errado. Mas Tomás vai além e reafirma que eles são iguais, e, por isto os arianos estão também errados.
O terceiro argumento é aquele da reciprocidade na comparação: o igual deve ser igual ao seu igual. Vale dizer, se “a” é igual a “b”, então “b” deve ser igual a “a”. Mas as Pessoas divinas não passariam no teste da reciprocidade, diz o argumento, já que o Filho é imagem do Pai, mas o Pai não é imagem do filho, senão modelo. Assim, o argumento conclui que, uma vez que o teste da reciprocidade falha ao ser aplicado às Pessoas divinas, e, por isto, a noção de igualdade seria inaplicável a elas.
Na sua resposta, São Tomás diz que há dois sentidos para a noção de “igualdade” entre as Pessoas divinas, um sentido estático (que São Tomás chama de sentido “substantivo”, ou de igualdade como um “nome”), e um sentido dinâmico, (que São Tomás descreve como de igualdade como um verbo). Quando se toma a noção de igualdade, entre as Pessoas divinas, no sentido substantivo, ou estático, a igualdade ou semelhança entre elas tem reciprocidade. De fato, substantivamente, elas têm a mesma essência, e portanto a mesma permanência, a mesma grandeza e o mesmo poder; são iguais entre si e vice-versa. No caso da intimidade trinitária, diz São Tomás, a igualdade estática, que inclui, como vimos, a similitude, é absoluta e recíproca; não assim entre as criaturas. De fato, diz Tomás, entre as criaturas, a forma está principalmente na causa, e no efeito apenas por semelhança. Assim, entre as criaturas, um rosto é similar à sua imagem no espelho, mas o contrário não é verdade.
Do ponto de vista dinâmico (igualdade como um verbo), diz São Tomás, a igualdade também é absoluta, mas não se pode dizer que haja reciprocidade. De fato, a dinâmica de Deus envolve a origem das pessoas, ou, como diz Tomás, envolve o dar e o receber. Neste caso, diz São Tomás, as pessoas procedentes são iguais àquelas das quais procedem, mas não há reciprocidade entre as Pessoas que dão e as que recebem – sem que isto implique qualquer desigualdade. De fato, por exemplo, o Pai é ingênito; o Filho é gerado igual ao Pai, mas o Pai, sendo Ingênito e não gerado, não é reciprocamente igual, na sua dinâmica, ao Filho.
Por fim, o quarto argumento objetor lembra que a igualdade é, na classificação das categorias aristotélicas, uma espécie da categoria “relação”. Mas as Pessoas divinas, diz o argumento, distinguem-se exatamente pela categoria da “relação”, já que cada uma delas tem, com as outras, logo elas não poderiam ter uma relação igual, porque isto faria desaparecer sua distinção mesma. Logo, a noção de igualdade, conclui o argumento, não se aplicaria a Deus.
São Tomás responde voltando ao básico da sua doutrina trinitária. O que há na Trindade, senão apenas a unidade da essência comum e a distinção das relações? Isto é tudo o que há nela. É um só Deus em três Pessoas, que são Pessoas na exata medida das suas relações. E isto deve ser levado em conta para que possamos entender, aqui, a resposta a esta objeção.
É preciso lembrar aqui que, na teoria aristotélico-tomista, a relação não é algo como um vínculo externo que une duas coisas diferentes, mas um acidente da própria coisa, uma referência inscrita no seu ser que aponta para outra coisa. Em Deus, conforme Tomás já nos ensinou, a relação é parte mesmo da substância divina, já que em deus não há acidentes.
Esclarecido isto, São Tomás aprofunda lembrando a noção de igualdade. Toda igualdade é constituída de dois aspectos: a alteridade das coisas comparadas, que devem ser distintas, (porque nada pode ser igual a si mesmo), e a unidade na essência, já que é isto que permite a comparação que constata a similitude e a justeza entre as coisas comparadas.
Posto isto, vê-se que os dois elementos para a igualdade estão postos: a alteridade dada em Deus pela relação, por um lado, e a justeza na similitude perfeita, dada pela unidade de essência divina nas três Pessoas, de outro.
É óbvio, diz Tomás, que não se pode dizer que algo é igual a si mesmo, se tomarmos a igualdade como relação real. Posso até construir uma proposição que afirma que eu sou igual a mim mesmo, como expressão da minha identidade, mas esta é uma proposição válida e verdadeira apenas no plano da razão, ou seja, é uma proposição que contém uma afirmação lógica, mas não uma afirmação real – a minha relação de identidade comigo mesmo é lógica, mas não é real.
Por outro lado, se a relação é algo que inere na coisa, fazendo-a referir-se a outra, e não uma espécie de vínculo externo entre duas coisas, então, diz Tomás, está claro que uma relação não pode referir-se a outra por uma terceira relação. O que ele quer dizer com isto?
Na relação de paternidade, referida à relação de filiação, há uma oposição entre o Pai e o Filho. Mas esta “oposição” não é, por sua vez uma nova relação entre o Pai e o Filho. Cada relação é uma referência, e se cada referência for, ela mesma, uma nova relação que descreve a relação anterior, então não há limite para isto: descreveríamos uma relação por outra relação, que por sua vez seria descrita por outra relação, e assim até a eternidade. A oposição implicada na relação de paternidade, com referência à filiação, está pressuposta na própria paternidade e a integra.
Do mesmo modo a igualdade. As relações trinitárias determinam a alteridade entre as pessoas e a unidade de essência, sua similitude indiferenciada. Logo, a igualdade é pressuposta nas próprias relações trinitárias, e as integra, fazendo parte delas, não se constituindo em relação de relações. Não há, nem pode haver, uma multiplicação de relações ao infinito, em Deus. E São Tomás conclui citando pedro Lombardo, que é o grande mestre da teologia do seu tempo, e que ensinava, no Livro das sentenças, que em Deus somente os termos são relativos. A relação intratrinitária basta para dar conta de tudo o que distingue, a essência basta para dar conta de tudo o que une absolutamente.
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