No texto anterior, vimos como o debate em torno da possibilidade de existirem várias pessoas geradas ou espiradas em Deus se coloca, a partir da consideração de que Deus tem, em sua natureza mesma, o poder para os atos nocionais de gerar e espirar. Mas vimos também que há, indiscutivelmente, três, e somente três, pessoas divinas.
E é deste ponto que surge a resposta sintetizadora de São Tomás. Retomando o Credo de Santo Atanásio, Tomás reafirma vigorosamente a Trindade: são três, e somente três, as Pessoas da Trindade. E isto já está devidamente debatido e estabelecido, teologicamente, na questão 30 desta primeira parte da Suma, na qual firmaram-se as razões pelas quais faz sentido afirmar três pessoas, e não mais nem menos, em Deus.
Mas aqui o debate relaciona o fato revelado da Trindade divina, por um lado, com o poder, natural em Deus, quanto aos chamados atos nocionais, por outro; ou seja, relaciona o número de pessoas da Trindade com o poder de gerar e espirar, vale dizer, de fazer proceder pessoas divinas.
Há quatro razões pelas quais, considerando este poder, devemos acreditar que, em Deus, há três, e somente três, Pessoas. São Tomás passa a enumerá-las.
1) Como primeira razão, São Tomás lembra que a única coisa que faz com que uma Pessoa divina seja distinta da outra é a relação. O que significa dizer isso?
Em nós, criaturas humanas, a distinção entre as pessoas se dá pelo corpo. Compartilhamos a mesma natureza humana, mas não como se fôssemos um só ser humano. Cada um de nós expressa uma faceta, uma dimensão diferente, da mesma humanidade que compartilhamos, mas cada um de nós é um indivíduo perfeitamente distinto do outro. E como pode ser assim? Isto é assim por um simples fato, diz São Tomás; somos seres materiais. Assim, a mesma natureza humana se individualiza, em nós, pela separação que os nossos corpos provocam em nossa individualidade. Assim, se tenho, por exemplo, dois filhos, eles se distinguem pelo fato de que um nasceu, por exemplo, em 1995, é baixinho e de olhos claros, enquanto o outro é mais jovem, alto e de olhos escuros. São as características físicas que os distinguem, portanto. Ou seja, é exatamente o fato de que os seres humanos são seres materiais que nos permite compartilhar da mesma natureza sem nos reduzirmos à identidade na unidade.
Mas em Deus não há corporeidade. Assim, a natureza divina não pode multiplicar-se por características físicas como idade, aparência ou peso. Ela é sempre numericamente una.
Mas há a multiplicação de pessoas em Deus. Não pode ser, portanto, pela matéria que elas se multiplicam, pois Deus não é corporal. Como já vimos anteriormente, essa multiplicação se dá pela origem: o Pai, em Deus, é outro com relação ao Filho porque o Pai é o que gera, e o Filho é o gerado. Mas é impossível imaginar que o Pai viesse a gerar um outro Filho diferente do primeiro: como imaginar que um filho pudesse ser outro com relação ao primeiro Filho? Eles não são medidos por idade, porque não se submetem ao tempo. Não têm diversidade de aparência física, nem de quantidade ou de qualquer outro acidente. Seriam um só e mesmo Deus. Não se poderia, pois, pensar num outro Filho sem limitar o primeiro, o que tiraria de ambos a identidade com a natureza divina. Eis porque, em Deus, podem haver diversas pessoas originantes e originadas, mas a mesma relação só pode distinguir uma única Pessoa. A rigor, não se pode dizer que, na Trindade, existe “um” filho; na verdade, existe ali “o” filho, aquele que completa em si toda a plenitude da filiação. O mesmo para as outras Pessoas.
2) E isto nos encaminhará para a segunda razão pela qual há apenas uma pessoa procedente como Filho e uma procedente como Amor. A razão é que o Filho procede como Palavra, quer dizer, como conhecimento comunicável. Mas Deus não possui vários conhecimentos, ou várias palavras. Ele tem, de uma só vez, o conhecimento pleno de si mesmo e de tudo, e expressa de uma só vez, em sua Palavra, tudo o que comunica desse conhecimento. Do mesmo modo o Amor: não há vários amores em Deus, não há amores fragmentados, contraditórios ou mesmo complementares, como há em nós, criaturas limitadas e imperfeitas. Deus ama por um só e mesmo amor infinito e coerente, pleno e ilimitado que é seu Espírito Santo maravilhoso. Se há uma só Palavra e um só Amor, só pode haver uma Pessoa procedente como Palavra e uma procedente como Amor.
3) A terceira razão decorre do próprio conceito filosófico de natureza. De fato, a natureza é a essência de um ser, vista como princípio de sua operação. Ou seja, é a essência que aponta para um fim. Assim, a operação que é determinada pela natureza dirige-se sempre a um e o mesmo fim. Por exemplo, é da natureza do fogo queimar, e ele nunca se dirigiria a outro fim, como congelar a água que fosse diretamente atirada ao fogo. De maneira análoga, as Pessoas divinas procedem ao modo de natureza, não ao modo de vontade. Assim, a processão se dirige a um só e mesmo fim, a processão do Filho pela inteligência e a processão do Espírito Santo pelo amor.
4) finalmente, a quarta razão relaciona-se com a perfeição divina. De fato, Deus não faz tentativas, não ensaia, não erra e refaz; o que procede dele, da própria natureza divina, realiza plenamente a perfeição esperada. Assim, o Filho esgota em si toda a plenitude da filiação, e o Espírito Santo esgota em si toda a plenitude do amor. Neles, o Pai esgota toda a plenitude da paternidade. Não haveria, pois, razão para a multiplicação de pessoas em Deus.
Estabelecidos os termos da resposta sintetizadora, São Tomás passa a responder às objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor afirma que, se o poder de gerar é realmente da essência divina, como foi debatido no último artigo, então o Filho também tem tal poder. Assim, diz o argumento, o filho deve poder gerar; mas não a si mesmo, é claro. Então ele gera outra pessoa que seria outro filho (para fazer uma digressão, talvez esta outra pessoa que o argumento imagina fosse um neto do Pai, que neste caso passaria a ser um Avô…). Disso o argumento deduz que podem existir outras pessoas na Trindade.
São Tomás responde, como sempre, com uma distinção: falando de modo absoluto, temos que conceder que o Filho tem o poder de gerar, porque este poder é da essência divina mesma. Mas este poder se manifesta em cada Pessoa de uma maneira que seja condizente, conveniente com a noção daquela Pessoa. Assim, no Pai, o poder de gerar manifesta-se de modo ativo, porque é conveniente que o Pai gere. Mas no Filho este poder de gerar manifesta-se de modo passivo, porque é conveniente ao Filho ser gerado. Assim, guardada a conveniência, não é do mesmo modo que este poder manifesta-se; impessoalmente na essência – no sentido de envolver a processão de alguma Pessoa; pessoalmente de modo ativo no Pai e pessoalmente de modo passivo no Filho.
O segundo argumento cita Santo Agostinho, que afirma que, se o filho não gerou um Criador divino, isso não se deu por falta de poder, mas apenas por falta de conveniência. É preciso entender bem esta colocação, diz São Tomás em sua resposta. Quando Santo Agostinho afirma que o Filho teria o poder de gerar uma outra Pessoa divina, ele não quis dizer que o filho pudesse gerar um outro Filho divino, mas apenas que ele tem o poder de fazê-lo; embora não seja adequado imaginar que ele viesse a fazê-lo. De fato, não é difícil, dadas as razões colocadas na Resposta sintetizadora acima, imaginar essa falta de conveniência. Mas o Filho, na sua igualdade com o Pai, tem todo o poder que é da essência de Deus, como será visto, diz Tomás, na questão 42, artigo 6, logo em seguida.
O terceiro argumento lembra que um pai humano pode ter muitos filhos, e que não há razão para que o Pai divino, sendo onipotente, também não multiplique sua prole; mesmo porque, como lembra o argumento, ter um filho não reduz a potência generativa do respectivo pai, entre as criaturas, não havendo razão para imaginar que a potência do Pai eterno diminuísse depois de apenas uma geração.
Mas ocorre que o Filho não tem limites; como foi visto na resposta sintetizadora, não haveria modo de haver muitos Filhos – salvo, acrescento por minha conta, aquele que Deus nos concedeu em Jesus, o poder de nos tornarmos “filhos de Deus” no Filho, cf. Jo 1, 12.
5 de janeiro de 2021 at 23:12
Caro sr. Jacobina,
Mais uma vez venho agradecer sua disposição em nos apresentar os ensinamentos de Tomás de Aquino. Saiba que muito aproveito de seus comentários à Suma Teológica.
No entanto, fiquei com a impressão de que o comentário à resposta ao terceiro argumento encontra-se incompleto. Ou, não o compreendi como devido. Por favor, peço esclarecimento quanto a essa dúvida. Que Deus o abençoe por intercessão de São Tomás.
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6 de janeiro de 2021 at 00:08
Olá d. Silvanna! Seu comentário me deixou muito feliz! É sempre uma alegria ver que de algum modo estamos ajudando a gostar mais de Santo Tomás, tão amado! A sua dúvida, pelo que entendi, é quanto ao fato de que o Filho não tem limites, e portanto não poderia haver mais de um Filho na Trindade. Vamos imaginar aqui os filhos humanos. Por que um pai humano pode ter mais de um filho? Porque eles se diferenciam entre si por seus respectivos limites. Este nasceu antes e não depois, aquele é alto e este é baixo, este é do sexo masculino e aquele é do sexo feminino. Suas peculiaridades os distinguem, seus corpos são distintos, suas relações com o seu pai são distintas. Mas o Filho não tem corpo, não tem sexo, não tem idade, não tem cor, enfim, ele não tem peculiaridades, porque é totalmente igual ao Pai, perfeição sem limite. Se houvesse um segundo Filho, em que exatamente ele poderia ser diferente do primeiro? Não haveria um “mais velho” ou “mais novo” porque o Filho é eterno. Não haveria um mais alto ou mais gordo porque o Filho é pura forma sem os limites da matéria. Assim, um segundo Filho na Trindade é impensável. A Trindade só pode ter uma Pessoa na relação filial natural. Mas pode ter filhos adotivos, não por natureza, mas por graça: somos nós, os batizados. Acho que há uma boa explicação disto num dos livros de C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples. Estou à disposição, se ainda não for claro. Que São Tomás interceda por nós!
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