O que se trata, aqui, é da possibilidade de que o poder divino de gerar e de espirar possam resultar, em Deus, que haja vários Filhos e vários Espíritos Santos.
É certo que na questão 30, artigo 1, já havíamos debatido as razões pelas quais devemos esperar três Pessoas divinas, não duas nem quatro, nem plúrimas. Aqui, o debate é sobre este poder, esta potência ativa de gerar que há na própria essência divina, e que a Suma descreve de uma forma surpreendente para nós, de uma forma tal que é difícil não imaginar que demorou tanto – até os tempos de São João Paulo II – para deduzir daí uma teologia da sexualidade humana. De fato, na Trindade mesma, ali na essência de Deus, está a razão pela qual os seres vivos são sexuados e fecundos. A pergunta agora diz respeito à fecundidade divina: por que será que, tendo o poder de gerar como próprio mesmo da sua natureza, Deus só tem um Filho e só dá um único suspiro pessoal de Amor? Como veremos no debate deste artigo, isto se dá porque o Filho é incontável e o Amor, inesgotável. Há apenas uma relação de geração e apenas um suspiro de amor geracional. Mas nessa geração e nesse suspiro tudo que havia de fecundo floresceu.
Voltemos ao texto do artigo. A proposta controvertida aqui é a de que os atos nocionais, como gerar e espirar, não se esgotam na procedência do Filho e do Espírito Santo, mas pode resultar em vários Filhos e vários Espíritos Santos, de tal modo que haja, em Deus, várias pessoas geradas ou espiradas: muitos Filhos e muitos Amores.
 São três os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor afirma que parece óbvio que todo aquele que tem o poder de gerar efetivamente pode gerar; se, como foi visto no artigo anterior, esse poder está na própria essência divina, então o Filho também o tem, diz o argumento. Logo, conclui, ele pode gerar. Mas ele não gera a si mesmo, pois procede do Pai. Logo, segundo o argumento, ele, o Filho divino, deve gerar outro Filho; logo, Deus poderia ter vários filhos, conclui.
O segundo argumento objetor cita Agostinho, que, numa passagem, afirma que, de fato, o Filho não gerou um Deus Criador; mas, se não o fez, não foi por falta de poder – dada a sua onipotência divina – mas porque não seria adequado que o fizesse. Desta afirmação agostiniana o argumento conclui que o poder divino de gerar pode resultar em outras Pessoas procedentes, além do Filho e do Espírito Santo.
Por fim, o terceiro argumento objetor afirma que não pode existir dúvida de que Deus Pai é mais fecundo e poderoso que um pai humano. Mas se os pais humanos podem ter muitos filhos, então, prossegue o argumento, temos que admitir que o Pai divino também o poderia; ademais, diz o argumento, o poder de gerar não diminui quando um pai gera um filho, portanto, conclui o argumento, nada impede que, em Deus, haja vários Filhos.
O argumento sed contra faz o seguinte raciocínio: em Deus, ali na sua natureza mesma, não há diferença entre o poder e o agir, ou entre o ser e o poder. Assim, tudo o que Deus pode ser, ele de fato o é. Ora, se houvesse a possibilidade não contraditória de que, em Deus, pudessem existir vários Filhos, eles existiriam. Mas, como vimos na questão 30, há apenas três pessoas divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Logo, não é possível haver mais Pessoas procedentes, em Deus, do que aquelas que já existem.
Postos os termos do debate, veremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto.