Vimos, então, na questão anterior, como o debate sobre o poder de gerar, em Deus, foi posto e delimitado, e começamos a ver como São Tomás o abordou na sua resposta.

Trata-se, de fato, de uma questão peculiar, daquelas que, antes de conhecê-la, dificilmente imaginaríamos que ela sequer pudesse ser posta. Mas, uma vez posta, ela parece muito intrigante: o poder de gerar é da pessoa do Pai, em Deus? Ou da essência divina? Mas como poderia ser da essência, se é o Pai que gera?

Pensando analogicamente, podemos nos perguntar: dentre as criaturas, nas espécies vivas, de quem é o poder de gerar, é propriamente do indivíduo ou da espécie? De fato, é sempre um indivíduo que gera; mas o poder de gerar é propriamente da espécie. De fato, se o poder de gerar fosse do indivíduo, todos os filhos seriam meros clones do respectivo genitor. Mas não é assim: filhos não são clones do genitor, mas seres de sua mesma espécie. Uma vez que o gerado recebe a forma daquilo que tem o poder de gerar, como diz São Tomás nesta resposta, se o poder de gerar fosse do Pai, ele geraria outro Pai, não outra pessoa divina.

Mas é o Pai que gera. Só que, como diz Tomás, ele gera pelo poder da essência divina, que é a sua própria essência. Não podemos pensar nosso em termos temporais; não é uma sucessão, como se existisse uma essência na qual, em algum momento, as Pessoas começassem a brotar. Nem podemos pensar nisso em termos materiais, como se a essência divina fosse uma grande matéria-prima da qual as Pessoas fossem feitas. Trata-se de Deus que é Trindade por natureza, e, portanto, por natureza é capaz de gerar e de espirar; gerar e espirar são da natureza divina mesma; no entanto, não podemos esquecer que é o Pai que gera, e são eles, o pai e o Filho, que espiram. Neste sentido é que São Tomás diz que não se pode dizer que o poder de gerar e espirar são próprios da relação, ou seja, das Pessoas, nem mesmo dizer que são próprios da natureza e da pessoa. É pela natureza que a pessoa gera. Então o poder de gerar é diretamente da natureza, e apenas indiretamente se refere à pessoa, conclui São Tomás.

Estabelecidos estes critérios, ele passa a enfrentar as objeções iniciais.

O primeiro argumento diz que o poder é definido como “o princípio da ação”. Mas, prossegue em Deus o princípio da ação nocional não é a essência, mas a pessoa. Disso o argumento conclui que o poder de gerar seria da pessoa, não da essência.

São Tomás responde que a afirmação comete um equívoco: o poder de gerar não se identifica com a relação de princípio, senão este poder seria uma relação, e ele não é. O poder de gerar não significa, pois, aquele que gera, mas significa aquilo pelo qual ele gera. A relação, isto é, o Pai e o filho, estão, pois, para este poder, como agentes dele; mas o poder de gerar é da própria natureza divina, ou seja, é pela natureza divina que o Pai e o Filho são. Como são Tomás explica, o agente que gera é distinto do gerado. Mas aquilo pelo qual o agente gera é comum ao gerador e ao gerado. O Pai é distinto do Filho, mas a natureza divina, pela qual ocorre a geração, é comum aos dois. É análogo ao que acontece entre as criaturas; o genitor é distinto da cria, mas a natureza de ambos, que é o que torna as espécies fecundas, é comum aos dois. Mas no caso de Deus esta unidade não é apenas de espécie, como entre as criaturas, diz Tomás. Em Deus esta unidade é muito mais perfeita, já que nele a geração é muito mais perfeita. A unidade, aqui, é de identidade mesmo, e não apenas de espécie, ou seja, o Pai é idêntico ao Filho em essência.

Mas aqui Tomás faz uma distinção importante: dizer que o que gera é distinto do que é gerado (e eles são distintos realmente) pode levar ao risco de entender a afirmação de que o poder de gerar está na essência divina levaria à conclusão de que a essência divina seria, ela mesma, geradora, e portanto distinta do gerado. O poder de gerar é da essência divina, mas não é a essência que gera. O sujeito da própria geração é o Pai, que só se distingue do Filho exatamente em razão dessa posição. A geração, pois, como natureza divina, cria a distinção de pessoas na perfeita unidade de essência.

O segundo argumento objetor parte da ideia de que, em Deus, não há distinção entre poder agir e efetivamente agir. Então, prossegue o argumento, uma vez que a geração, em Deus, é a própria pessoa, então o poder de gerar, conclui o argumento, identifica-se com a pessoa, não com a essência.

São Tomás responde que é verdade que, em Deus, o poder de gerar e a própria geração são a mesma realidade, como a essência divina, a geração e o próprio Pai são a mesma realidade. A diferença entre eles é apenas de razão, ou seja, são a mesma realidade vista por nós sob diferentes pontos de vista. É claro, acrescentaríamos, que as Pessoas são realmente distintas entre si, em Deus. Mas são distintas pela origem, não pela natureza. É assim que, embora de fato o poder de gerar identifique-se com a própria natureza divina, o seu exercício distingue realmente as Pessoas.

O terceiro argumento lembra que tudo aquilo que se atribui à essência divina, como o bem, o poder, a sabedoria, por exemplo, é comum às três Pessoas. Os três são sábios pela sabedoria essencial, são bons pela bondade essencial, e assim por diante. Ora, prossegue o argumento, se admitíssemos que o poder de gerar e espirar são da essência, teríamos que admitir, conclui o argumento, que eles são poderes comuns às três pessoas, e não próprios daqueles que realmente os exercem.

Em resposta, São Tomás dirá que a expressão “poder de gerar” tem que ser muito bem compreendida. Quando falamos em poder de gerar, estamos falando diretamente do poder, e indiretamente da própria geração, como se falássemos que é a “essência do Pai” que gera, conscientes de que não há uma essência do Pai como um ente real, senão a pessoa do Pai que é de essência divina, mas que é, por si mesmo, um sujeito pessoal. Assim, diz Tomás, se considerarmos aquilo que é significado quando falamos no poder de gerar, trata-se de um poder que é comum às três Pessoas, porque é um poder da essência divina. Mas, quanto à noção que esta expressão aponta, que é a geração, ela é própria do Pai. Precisamos lembrar que a palavra “noção”, em teologia trinitária, tem um significado técnico bem preciso, que foi estudado na questão 32. São cinco noções trinitárias, a inascibilidade, a paternidade, a espiração comum, a filiação e a processão.

Eis a complexidade do mistério e a importância do cuidado linguístico de Tomás em matéria teológica.