Uma vez estabelecido, no artigo anterior, que podemos propriamente falar em “poderes”, quando falamos nos atos nocionais, a pergunta agora é sobre a titularidade destes poderes. De quem é o poder de gerar, é da própria essência divina, ou é do Pai? De quem é, também, o poder de espirar?

A hipótese controvertida, aqui, é a de que este poder pertence às respectivas Pessoas, ou seja, ele é próprio das relações intratrinitárias (que, em Deus, são o supósito das Pessoas) e não da essência divina mesma.

São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

A primeira objeção cita Aristóteles (na obra “Metafísica”), que define “poder” (no sentido ativo, e não no sentido passivo de “potência”), como “o princípio da ação”. Mas, em Deus, diz o argumento, nós sabemos que o princípio do ato nocional é a Pessoa. Assim, o poder de gerar e de espirar é próprio das relações, não da essência divina, conclui o argumento.

O segundo argumento afirma que não há diferença, em Deus, entre “poder” e “agir”. Mas, se a expressão do poder de gerar e espirar são as próprias Pessoas procedentes, então gerar, em Deus, significa o mesmo que aquele que é gerado. E disso o argumento conclui que, uma vez que o poder de gerar é expresso pela geração, e a geração é a própria relação, então o poder de gerar é próprio da relação, em Deus, e não da essência.

O terceiro argumento é muito forte, porque faz uma construção lógica muito razoável. Os termos que significam a essência divina expressam sempre aquilo que é comum às três Pessoas, como a bondade, a eternidade, a ciência, e assim por diante. Mas o poder de gerar, por exemplo, não é comum às três pessoas, mas próprio do Pai, lembra o argumento. Logo, o poder de gerar e espirar, conclui o argumento, é próprio das Pessoas, não da essência divina.

O argumento sed contra também é uma proposição lógica. Se Deus tem o poder de gerar um Filho, então ele também tem, inseparavelmente, a vontade de gerar um filho. Mas se a vontade de gerar um Filho é própria da essência, então igualmente o poder de gerá-lo também o será, conclui o argumento.

Postos os termos da questão, bastante intrincada e sutil aos nossos olhos, São Tomás passará a dar a sua própria resposta sintetizadora.

Alguns afirmaram, diz Tomás, que o poder de gerar e espirar é da relação, ou seja, está nas Pessoas e não na essência divina. Mas isto não é possível, diz Tomás. Não poderia ser assim. E é preciso que acompanhemos com muita atenção o seu raciocínio.

Antes, uma breve digressão; poderíamos dizer, antes de ouvir a resposta de São Tomás, que a rigor não há um Pai sem que haja a própria geração, e por isto o poder de gerar, que é pressuposto da geração, não poderia localizar-se naquilo que somente existirá quando este poder for, digamos, acionado. Não se trataria, aqui, de uma sequência cronológica, incabível para Deus, mas de uma sequência lógica mesmo: logicamente o poder precede o seu resultado. Assim, o poder de gerar não poderia estar naquele cuja existência mesma pressupõe tal poder, como é o caso do Pai e do Filho.

Mas não é esta a resposta de São Tomás. A dele é muito mais elegante, muito mais sutil.

São Tomás sabe, e está muito atento, ao fato de que muitos teólogos propõem que o poder de gerar (e de espirar) diz respeito às relações, ou seja, pertencem às Pessoas. Mas isto não é possível, diz São Tomás. Simplesmente não pode ser assim. Mas ele sabe que propor algo diferente é remar contra a maré. Por isto ele vai fundamentar atentamente a sua resposta.

A resposta dele vai na seguinte linha: quando o meu cãozinho Rex se reproduz, nasce um outro rex, ou nasce um outro cão? É claro que não nasce um outro Rex, mas um outro cão; vale dizer, é da substância canina, não do indivíduo Rex, o poder de reproduzir-se. Assim, diz Tomás, quando o Pai gera, ele não gera um outro Pai, mas uma outra Pessoa divina, o Filho, com a mesma natureza divina do Pai. O que o Pai doa ao Filho, portanto, não é a paternidade, mas a divindade. Ora, diz Tomás, o poder é o princípio pelo qual o sujeito age. Ora, este princípio tende a um resultado semelhante a si. Ora, se o poder de gerar fosse algo individual em mim, eu não geraria pessoas humanas, mas outros “eus”. Uma vez que eu gero pessoas humanas, meu cão gera cãezinhos e o Pai gera pessoas divinas, então temos que concluir que gerar não é uma propriedade dos nossos supósitos, mas da nossa essência. Assim em nós como em Deus.

No próximo texto continuaremos a estudar a resposta de Tomás.