O poder, ou a potência, diríamos em termos contemporâneos, é a capacidade de transformar. É neste sentido, fundamentado na terminologia filosófica clássica, que se diz que o ovo é a galinha em potência, uma vez que ele tende a transformar-se em galinha. Este é o sentido passivo da noção. Mas há também o sentido ativo: o escultor tem o poder de transformar a pedra bruta em escultura. É neste sentido ativo que se diz que Deus é onipotente: ele possui a capacidade infinita de transformar o nada em perfeição.
Note-se que nos movemos, aqui, num ambiente filosófico não mecanicista. Hoje em dia, somos mecanicistas em nosso modo básico de pensar. As coisas, tais como as conhecemos, não são unidades metafísicas com poderes inscritos em sua forma substancial. São mecanismos, são, portanto, aglomerados acidentais de partes que funcionam conjuntamente como uma máquina, e que são eficazes para produzir os efeitos que produzem em razão deste trabalho conjunto. A capacidade de causar (ou de ser causado) não é, para nós, algo inscrito na coisa mesma, mas o resultado da dinâmica mecânica de suas partes, quando relacionados com outras coisas. Neste sentido, Deus é, por definição, algo que não tem poderes, porque, por definição, a ontologia mecanicista não se aplica a Deus. Se ele existe, conforme esta visão, ele está fora da dinâmica mecânica.
Não assim para Tomás. Deus é onipotente, porque é causa primeira. O universo criatural tem a sua própria dinâmica de causalidade, mas é sempre uma causalidade secundária: as coisas são verdadeiramente causadoras e causadas, nas suas inter-relações, mas todos os poderes que têm, embora verdadeiramente sejam seus, são doados e sustentados por Deus em suas formas substanciais. As coisas, portanto, mudam e são mudadas porque foram feitas, por Deus, com a capacidade de interagir em causalidade. As coisas têm poderes, porque Deus verdadeiramente as fez capazes de mudar e de ser mudadas. Neste sentido, todos os poderes (potências ativas e passivas) que as coisas ostentam são verdadeiramente delas, mas, em última instância, são concedidas e mantidas por Deus, como motor imóvel e causa eficiente primeira.
Mas Deus mesmo é imutável; isto São Tomás sabe muito bem e ensina sem hesitação. Ao mesmo tempo, sabemos da dinâmica interna, que multiplica nele as Pessoas da Trindade. Esta dinâmica é expressada por nós pelos atos nocionais: gerar, espirar, proceder, enfim. Será que poderíamos dizer que, em Deus, existe o poder relativo aos atos nocionais? Será que a categoria de poder, de potência, pode ser aplicada para descrever a situação de Deus como sujeito dos atos nocionais? A hipótese controvertida aqui é a de que não se pode dizer que há, em Deus, o poder relativo aos atos nocionais. Não poderíamos, segundo esta hipótese, pensar nos atos nocionais como “capacidades” divinas. Precisamos lembrar, sempre, que estamos falando de poderes inscritos mesmo na forma substancial de Deus, e não de “mecanismos” tais como pensamos hoje a respeito daquilo que entendemos como poderes.
São três os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento diz que a própria noção de poder, ou potência, é imprópria para aplicar-se a Deus, no campo dos atos nocionais. O argumento lembra que a noção de “poder” tem uma dimensão ativa e uma dimensão passiva: trata-se da capacidade de transformar (poder, no sentido ativo) ou de ser transformado (potência, no sentido passivo). De fato, diz o argumento, já ficou bastante claro que não há, em Deus, nenhuma potência no sentido passivo. Esta discussão foi feita nesta primeira parte, na questão 25, artigo 1. Deus é imutável, nada há nele que possa sofrer transformação. Quanto ao poder no sentido ativo, diz o argumento, não haveria como admitir que uma das Pessoas divinas tivesse um poder ativo sobre a outra, ou seja, a capacidade de fazê-la ou transformá-la, já que, lembra o argumento, como foi debatido no artigo anterior, as Pessoas divinas não são feitas. Assim, não haveria como admitir, conclui o argumento, que, em matéria de atos nocionais, no interior mesmo da Trindade, fosse possível falar em atos como gerar e espirar como “poderes” divinos.
A segunda objeção define o objeto do “poder” como “aquilo que é possível”. Mas, prossegue o argumento, nos debates anteriores ficou claro que as Pessoas divinas não estão no campo do possível, mas do necessário. Assim, prossegue o argumento, quanto aos atos nocionais, pelos quais as Pessoas divinas procedem, não se poderia descrevê-los através da noção de “poder”, em Deus.
O terceiro argumento objetor lembra exatamente as características de cada ato nocional; lembra que o Filho procede como palavra, ou seja, como um conceito no intelecto, e que o Espírito Santo procede como amor, que é algo próprio da vontade. Mas em Deus, diz o argumento, podemos falar de “poderes” apenas com relação aos seus efeitos, não à própria inteligência e vontade divinas. Não se poderia dizer que Deus “pode” ser inteligente ou que ele “pode” querer; inteligir e querer não são poderes, em Deus, mas parte da sua essência mesma. Assim, o argumento conclui que não se poderia dizer que os atos nocionais, que são atos da inteligência e da vontade de Deus, sejam “poderes” divinos, também.
Como argumento contrário (sed contra), cita-se a autoridade de Santo Agostinho, que afirma: Como poderíamos dizer que Deus-Pai é onipotente, se n]ão afirmássemos seu poder de gerar o Filho semelhante a si mesmo?”. Assim, conclui o argumento, fica provado que podemos falar em “poder” divino, quanto aos atos nocionais.
Postos os termos do debate, São Tomás passa a responder. A sua resposta poderia ser resumida como se fosse uma simples afirmação analítica: uma vez que afirmamos que há atos nocionais em Deus, temos que afirmar que há, nele, o poder para tais atos nocionais. Se a noção de “poder” é a de “princípio do ato”, ao afirmar que há um ato, também afirmamos que há de fato o poder para aquele ato. Temos a impressão de que São Tomás está simplesmente afirmando analiticamente que admitir atos nocionais em Deus implica, conceitualmente, admitir o poder para os atos nocionais, como, falando analogicamente, admitir o triângulo implica admitir a existência de figuras com três lados. Mas não se trata simplesmente disso. Há algo mais; afirmar que as Pessoas divinas de fato relacionam-se pela origem, e que esta origem se dá por atos nocionais, implica admitir que estes atos nocionais estão inscritos na própria forma de Deus, como algo que é possível por força de sua própria substância divina, e não por acaso ou por alguma razão exterior a Deus. Quando eu digo, por exemplo, que os peixes têm o poder de respirar na água, não estou fazendo uma mera afirmação analítica, como se eu tivesse definido “peixe” como “o animal que respira na água” e em seguida afirmasse que, se algo é um peixe, então ele tem o poder de respirar na água. Não é isto. Ao afirmar que o peixe tem o poder de respirar na água, e o ser humano, por exemplo, não o tem, eu posso me assegurar que, quando vejo um ser humano mergulhado por longo tempo e aparentemente respirando sob a água, trata-se de algum artifício, de alguma maneira externa a si mesmo que o ser humano encontrou de poder respirar em condições nas quais ele não tem, em si mesmo, o poder de fazê-lo. Analogicamente, se afirmo que o poder dos atos nocionais está em Deus, quero dizer que aquilo pelo qual o Pai gera, o princípio da sua geração, é algo próprio mesmo dele, e aquilo pelo qual ele, com o Filho, espiram o Espírito Santo, é também um poder que lhes é intrínseco. Não há, aqui, nenhum artifício, nenhum recurso a algo acidental, externo a Deus, nem sequer há, aqui, algo que simplesmente é como é. Ao admitir que há algo como os atos nocionais, sou forçado a admitir que o respectivo poder para eles está em Deus mesmo, como princípio que ele é destes mesmos atos.
São Tomás passa, então, a responder, a partir destes parâmetros, às objeções iniciais.
A primeira objeção diz que a noção de poder é inaplicável a Deus em seu sentido passivo, ou seja, como “potencial para ser mudado”, já que nada há, em Deus, que não seja perfeição plena, e que portanto pudesse ser mudado. Na relação intratrinitária, mesmo a noção ativa de “poder” seria imprópria, porque as Pessoas trinitárias não são “feitas” pelas outras Pessoas, mas são divinas também, e portanto igualmente eternas e perfeitas.
São Tomás responde que de fato as Pessoas não procedem como se fossem “feitas” ou criadas, e, por isto os atos nocionais não se referem a elas como “poderes para fazer” alguma coisa nelas. Não é que o Pai tivesse algum “poder” sobre o Filho ou o Espírito Santo, como tem poder sobre as criaturas. O poder referente aos atos nocionais diz respeito especificamente ao modo de processão, não ao modo de ser das Pessoas. O poder divino, quanto aos atos nocionais, refere-se especificamente à origem das pessoas; poder para gerar, espirar, ser gerado, proceder.
O segundo argumento objetor diz que, uma vez que o poder diz respeito áquilo que é possível, mas as Pessoas não estão no campo do possível, mas do necessário, então não se poderia falar num “poder” quanto aos atos nocionais.
Mais uma vez, para responder, São Tomás começa estabelecendo princípios: a noção de possível, como oposta à noção de necessário, diz respeito somente àquilo que é objeto de uma potência no sentido passivo. Assim, digamos, é possível que uma pessoa seja alta ou baixa, gorda ou magra, porque as pessoas humanas têm potencial para ser uma coisa ou outra. Neste sentido da palavra, realmente a noção de poder é inaplicável a Deus. Não há potenciais em Deus, tudo nele é pleno, perfeito, acabado. Mas a noção é aplicável a Deus no sentido de reconhecer que, uma vez que ele é como é, logo ele pode ser o que é. Assim, podemos dizer que Deus necessariamente é, logo ele tem o poder de ser. Como podemos dizer que o Pai gera, e portanto ele pode gerar, ainda que a Trindade não seja algo apenas possível, mas necessariamente existente.
O terceiro argumento objetos diz que, em Deus, inteligir e querer não são atos, mas são parte da própria essência de Deus; sua inteligência e sua vontade não são poderes, mas essência divina. Logo, uma vez que o Filho procede como palavra e o Espírito Santo, como Amor, então eles se enquadram na inteligência e na vontade divinas, e sobre eles a noção de poder, conclui o argumento, não se aplica.
Em sua resposta, São Tomás nos explica que poder, aqui, significa simplesmente que alguma coisa é princípio de outra. Neste caso, diz Tomás, para falar em “poder” de modo próprio, devemos ter em mente que estamos falando de coisas que realmente se distinguem uma da outra.
Mas há, quanto a Deus, casos em que enxergamos distinções reais, e caso em que estabelecemos apenas distinções de razão, de ordem lógica, por causa do nosso modo de conhecê-lo e de falar sobre ele; mas, embora essas distinções de razão tenham fundamento na ordem do ser de Deus, não são distinções que realmente existem.
Assim, por exemplo, não temos nenhuma dúvida de que Deus realmente se distingue da sua criação. Esta é uma distinção real, e não apenas um modo de falar sobre Deus. Assim, podemos dizer que Deus tem, verdadeiramente, o poder de criar, quer dizer, de ser princípio da criação.
Também na Trindade, as Pessoas são realmente distintas umas das outras, pela origem. Não se trata apenas de um modo de falar nosso, de um modo humano de entender Deus, mas de uma realidade imanente em Deus. Assim, podemos realmente dizer que os atos nocionais correspondem a poderes, porque o Pai tem, de fato, o poder de gerar o Filho, como ambos têm o poder de espirar. São, verdadeiramente, princípio das Pessoas procedentes, neste caso. Podemos realmente atribuir a Deus o poder de criar, como podemos atribuir ao Pai o poder de gerar, porque estamos no campo das distinções reais, onde algo é, verdadeiramente, princípio de outro.
Mas quando falamos na “inteligência” de Deus, ou mesmo na sua “vontade”, não estamos falando de algo que seja realmente distinto, nele. A inteligência de Deus não é algo que procede dele, ou algo que ele cria; tampouco a sua vontade é distinta dele mesmo. Nem mesmo aquilo que Deus conhece, ou o próprio ato de conhecer, em Deus, nem mesmo aquilo que ele ama, ou o ato de amar, em Deus, são distintos dele mesmo. Neste caso, não podemos falar propriamente de um poder de conhecer, em Deus, ou e um poder de amar, porque conhecer e amar não são distinções reais nele. Não confundamos, portanto, a Palavra de Deus, que procede nele como pessoa, ou o Amor de Deus, que também procede como Pessoa, da própria inteligência divina e da sua vontade, que não se distinguem dele mesmo. Quanto à Palavra e ao Amor, como Pessoas dsitintas, é próprio falar em “poder” de gerar. Mas quanto à própria inteligência e à própria Vontade, não se pode falar propriamente em poderes.
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