Uma vez que São Tomás estabeleceu firmemente os fundamentos da sua posição na sua resposta sintetizadora, que examinamos no texto anterior, ele passa a responder às objeções iniciais.
A primeira objeção questiona: se o Pai não gera o Filho do nada (ex nihilo), então ele gera a partir de algo. Este “algo” pode ser do próprio Pai ou de outra coisa. Mas se for de outra coisa, então teríamos que admitir que há algo no Filho que não vem do Pai. Mas isso vai contra a fé da Igreja, de que entre o Pai e o Filho nada é estranho, diverso ou alheio. Se, no entanto, o filho é gerado a partir daquilo que é do Pai, teríamos que admitir, diz o argumento, uma das duas alternativas: ou o Pai desaparece para que o Filho seja, ou o Pai subsiste, caso em que o Filho seria nada mais do que o próprio Pai, qualificado pela geração. De fato, prossegue o argumento, quando algo é gerado a partir de outro, ou aquilo que dá origem à nova coisa deixa de existir para que a nova coisa exista, como quando quebramos ovos para fazer omelete; para que haja omelete o ovo deixa de existir. Ou então algo novo surge e aquilo de que se origina continua existindo, subsistindo agora modificado por aquilo que surgiu. É o caso da barba: a barba origina-se no homem imberbe, que subsiste agora como um barbudo. Assim, conclui, ou o pai desaparece para que o Filho seja, ou ele se transforma no Filho. As duas opções seriam absurdas, aduz. Por isto, o argumento conclui que o Pai não gera o Filho de algo, mas o gera do nada.
São Tomás responde que este argumento inicia com uma confusão conceitual por causa da preposição “de“. Normalmente, diz São Tomás, quando usamos a preposição “de” para dizer que alguma coisa é feita “de” alguma coisa, referimo-nos à causa material. É assim que dizemos que a mesa é de madeira, ou que a porta é de vidro, e assim por diante. Mas Deus não é material. Assim, quando afirmamos a consubstancialidade das Pessoas da Trindade, estamos falando da substância divina imaterial, una e indivisível, e não de alguma espécie de matéria-prima divina que fosse comum às três pessoas. Ora, diz São Tomás, no mundo das criaturas, que é o mundo material, o processo de geração de algo novo implica a corrupção, ou ao menos a modificação, do substrato material que forma o novo ser: ou há ovos ou há omelete. Mas em Deus não é assim: a consubstancialidade entre as Pessoas da Trindade implica que são “de” uma mesma e única substância divina, que, pela relação, multiplica as Pessoas sem que ela mesma se multiplique. Uma analogia interessante para essa realidade espiritual seria o conhecimento, ou o amor: mesmo em nós, criaturas, o conhecimento, compartilhado, não sofre modificação ou transformação: é consubstancial e único em quem ensina e em quem aprende, em quem ama e em quem, amando, se deixa amar. Uma mãe, digamos, não ama menos um filho quando lhe nasce outro; se tiver dez filhos, amará cada filho com o mesmo amor indivisível e pleno com que ama a cada um deles. Somente o que é material passa por este processo de degradação e transformação, na geração de outro ser. Somente o que é material diminui ao ser compartilhado.
O segundo argumento objetor faz um raciocínio que pretende demonstrar que seria absurdo imaginar que as Pessoas procedentes viessem da substância divina. Tudo aquilo de que alguma coisa é gerada está para esta coisa como princípio dela, diz o argumento. Se as Pessoas procedentes não são geradas do nada, mas da substância divina, que é a própria essência ou natureza divina, prossegue, então teríamos que admitir, prossegue, que a substância do Pai, que é sua essência, é o princípio do Filho. Mas não é um princípio material, lembra o argumento, porque Deus não é material. Assim, ele considera forçoso concluir que a essência divina tem de ser, para quem pensa que é dela que as pessoas procedentes são geradas, o princípio ativo de geração: para quem defende isto, diz o argumento, só lhes resta concluir que é a própria essência divina que gera, como princípio ativo da geração. Mas isto já foi afastado num debate anterior, na questão 39, artigo 5, diz o argumento; ali ficou estabelecido que não é a essência divina, mas são as próprias Pessoas que geram. Disso tudo o argumento conclui que as Pessoas procedentes são geradas ex nihilo.
São Tomás vai explicar que há necessidade, aí, de uma sutileza em compreender a proposição que afirma que o Filho é gerado da essência do Pai. Neste caso, diz Pedro Lombardo em suas “sentenças”, fala-se da essência do Pai como se fosse um princípio ativo; seria mais próprio, mais adequado falar que o Filho é gerado do Pai-essência. Asim, diz Agostinho, falar de Patre essentia (ou seja, do Pai-essência) seria expressar mais claramente aquilo que se quer dize quando se diz que o Filho é gerado da essência do Pai. Trata-se, pois, de uma sutileza, de chamar de “Pai-essência” a essência divina tal como o Pai a revela. Mas esta sutileza, diz São Tomás, não é de grande valia.
De fato, diz ele, poderíamos dizer que nós criaturas, somos gerados por Deus-essência, já que a criação é algo associado a Deus em sua unidade essencial. A proposição seria verdadeira. Mas quando eu digo que o Filho é gerado do Pai-essência há uma consubstancialidade envolvida; não assim quando eu digo que a criatura é criada por Deus-essência, embora esta locução seja tão adequada aqui quanto a outra. Assim, diz ele, criar uma locução como “Pai-essência” ou “Deus-essência” não resolve nosso problema.
A chave analítica para exprimir a ideia da consubstancialidade na geração das Pessoas divinas, diz Tomás, está mesmo na preposição “de”. Esta preposição, mesmo no uso ordinário, sempre traz uma ideia de consubstancialidade em sua significação. Assim, diz ele, eu nunca diria que esta casa é feita de arquiteto fulano, porque a casa não é consubstancial com o arquiteto que a projetou. Dizemos, no entanto, que a casa é feita de tijolos; isto ocorre tanto quando a preposição “de” é usada para expressar um princípio material, quanto se ela é usada para expressar um princípio ativo, ou até mesmo quando ela expressa um princípio formal, como a natureza intelectual de algum ser. Tanto posso dizer que o filhotinho nasceu “de” sua mãe, quanto posso dizer que a estátua é “de” madeira; de igual modo, poderíamos dizer que um anjo é “de” natureza intelectual. Assim, podemos perfeitamente dizer que o Filho é gerado “da” essência do Pai, como um modo adequado de dizer que, ao gerá-lo, o Pai lhe comunica a mesma e única natureza divina que lhes é comum e que neles subsiste sem divisão nem separação. Este é, portanto, o sentido em que devemos entender a ideia de que o Filho não é gerado “do” nada, mas “da” essência divina.
O terceiro argumento cita Santo Agostinho. Agostinho dizia que seria errado dizer que as três Pessoas vêm da mesma essência, porque essência divina e Pessoa não são realidades distintas. Disto o argumento conclui que não deveríamos dizer que o Filho procede da essência do Pai.
Há, aqui também, necessidade de tornar clara a nossa linguagem, diz Tomás. Dizer que o Filho é gerado “da” essência do Pai é diferente de dizer que as três Pessoas “vêm” da essência divina. No primeiro caso, mantenho a consubstancialidade das pessoas mas ressalto sua distinção pela origem: o Filho é outro porque é gerado, não porque tenha recebido algum “naco”, algum “pedaço” da substância divina. No segundo caso, que é aquele advertido por Agostinho, parece estabelecer-se uma alteridade na própria substância divina, dando-se a entender que as três pessoas como que recebem, cada uma, sua própria quantidade de substância divina em sua composição, o que seria um absurdo. Então, conclui Tomás, as expressões não são equivalentes e, portanto, o fato de que a segunda é inadequada, como adverte Agostinho, não implica nenhuma inadequação para a primeira.
O último argumento quer provar, por citações bíblicas, que tanto o Filho como o Espírito são criaturas. As Pessoas do Filho e do Espírito seriam, portanto, criadas do nada, diz o argumento, verdadeiras criaturas, e não consubstanciais com o Pai.
São Tomás passa a interpretar, pois, os trechos bíblicos citados, para demonstrar que eles não têm o sentido que o argumento lhes quer dar. De fato, diz ele, não podemos esquecer de que existe a Sabedoria divina, que é o próprio filho de Deus, incriado, consubstancial com o Pai, e existe a sabedoria criada, que Deus infundiu em suas criaturas. É o que registra o Livro do Eclesiastes, logo no seu capítulo primeiro, diz São Tomás. Ali registra-se a Sabedoria incriada, que está em Deus desde sempre, e, em especial nos versículos 9-10, narra-se o dom da sabedoria às criaturas, ou seja, a sabedoria criada inserida por Deus em tudo o que ele fez, enviando-a por seu Santo Espírito. Não se deve estranhar o fato de que uma mesma passagem bíblica registre a dinâmica da Sabedoria incriada e a doação da sabedoria às criaturas, já que a sabedoria criada nada mais é do que uma participação na própria Sabedoria divina, incriada.
São Tomás passa a explorar, também, a riqueza de uma leitura cristológica destes textos que, no Antigo Testamento, referem-se a uma Sabedoria ora como eterna e divina, ora como criatura; trata-se de ler, aí, a prefiguração da encarnação do Filho, Sabedoria de Deus, que tomaria a natureza humana, criatural portanto, para nos salvar. Esta leitura, cuja referência São Tomás encontra em Hilário, permite expressar a pessoa de Jesus com sua bidimensionalidade humano-divina: ao referir-se a uma Sabedoria existente desde antes de todos os tempos, mas, ao mesmo tempo, criada, revela-se a riqueza da pessoa de Jesus, Filho encarnado. Se a geração divina caracteriza-se pelo fato de que o gerado recebe a natureza do gerador, enriquecendo-o e, de algum modo, diversificando a própria intimidade de Deus, por outro, na criação, não há a comunicação da natureza divina, pelo que ressalta-se, aqui, a imutabilidade do Pai. Assim, em Jesus, há a união da diversidade na própria intimidade divina, por um lado, com a imutabilidade de Deus perante sua criação, por outro. Jesus é, então, em sua unidade pessoal e em suas duas naturezas, uma síntese do que Deus é e do que Deus faz.
Por fim, quanto à citação de Zacarias a respeito do sopro ou vento, trata-se, diz São Tomás, de uma menção clara ao espírito criado, sopro do homem, ou mesmo às coisas invisíveis, espirituais, que igualmente são criaturas de Deus, como os anjo; não há referência, nesta passagem, ao Espírito Santo.
Não há, a rigor, uma revelação trinitária nas Escrituras antes de Jesus. Há traços da Trindade, sem dúvida. Mas não se pode tomar dela, em especial do Antigo Testamento, textos isolados para compreender erradamente a Trindade.
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