O que se discute aqui é “de que” as Pessoas procedentes são feitas; de certa forma, trata-se de discutir algo análogo à “causa material” das Pessoas procedentes, sabendo-se que de nenhum modo elas são materiais, mas elas vêm “de” algo, porque são originadas. Será que as Pessoas procedentes surgem do nada (ex nihilo) como as criaturas, ou se são da substância de Deus mesmo, e em que sentido o são. De certo modo, pois, trata-se de um debate sobre a cláusula “homoousios”, quer dizer, o trecho do Credo Niceno-constantinopolitano que diz que o Filho é “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”.
A hipótese controvertida é a de que os atos nocionais, vale dizer, o gerar do Filho e o proceder do Espírito Santo, partem do nada, ou seja, as Pessoas procedentes vêm ex nihilo, como as criaturas, e não da mesma substância do Pai.
São quatro os argumentos objetores iniciais. O primeiro inicia por uma alternativa lógica: se o Pai não gera o Filho do nada (ex nihilo), então teríamos que admitir que ele gera a partir de algo. Este “algo” pode ser: 1) do próprio Pai ou 2) de outra coisa. Mas se for de outra coisa, então teríamos que admitir que há algo no Filho que não vem do Pai, mas é estranho a ele. Mas isso vai contra a fé da Igreja, exemplificada na afirmação de Santo Hilário de que entre o Pai e o Filho nada é estranho, diverso ou alheio. Se, no entanto, o filho é gerado a partir daquilo que é do Pai, teríamos que admitir uma das duas alternativas: ou o Pai desaparece para que o Filho seja, ou o Pai subsiste, caso em que o Filho seria nada mais do que o próprio Pai. De fato, diz o argumento, quando algo é gerado a partir de outro, duas coisas podem acontecer: aquilo que dá origem à nova coisa deixa de existir para que a nova coisa exista, como quando quebramos ovos para fazer omelete; para que haja omelete o ovo deixa de existir. Ou algo novo surge e aquilo de que se origina continua existindo, subsistindo agora modificado por aquilo que surgiu. É o caso da barba: a barba origina-se no homem imberbe, que subsiste agora como um barbudo. (São Tomás exemplifica com um homem não-branco que se se torna branco, mas este exemplo se tornou mais obscuro para nós, que pensamos em termos étnicos, e não conseguimos imaginar como alguém não-branco tornar-se-ia branco; o exemplo da barba pode ser mais elucidativo para nós, hoje). Assim, seguindo a analogia do imberbe que virou barbudo, a geração da barba faz com que o homem que subsistiu seja agora qualificado pelo que foi gerado, a barba. Assim, se o Pai gera o Filho e subsiste, ele agora subsistiria como Filho, e já não como Pai. Por outro lado, se a geração do Filho a partir do Pai se dá de maneira análoga ao ovo que gera a omelete, então, gerado o Filho, já não subsiste o Pai, o que também seria, diz o argumento, inaceitável. Assim, o argumento conclui que o Pai não gera o Filho de algo, mas o gera do nada.
O segundo argumento objetor é mais teológico, e resgata os debates anteriores sobre a Trindade. Aquilo de que uma coisa é gerada, diz o argumento, é o princípio dessa coisa mesma. Assim, prossegue, se afirmamos que o Pai gera o Filho a partir da sua própria essência (ou mesmo da sua natureza), isto significa afirmar que a essência do Pai é o princípio do Filho. Mas, prossegue o argumento, não podemos imaginar que seja algo como um princípio material (como o mármore é princípio da estátua, por exemplo), porque não há matéria em Deus. Então a essência divina teria que ser considerada como princípio ativo da geração do Filho, ou seja, a essência seria o gerador do gerado. Mas para isso teríamos que admitir que a essência divina gera, o que foi excluído no debate da questão 39, artigo quinto. Assim, uma vez que a essência não gera, ela não pode ser princípio das Pessoas da Trindade que procedem; disto o argumento conclui que os atos nocionais partem do nada para originar as Pessoas procedentes.
Também teológico é o terceiro argumento objetor. Se não há diferença entre a essência e a Pessoa, em Deus, então, como diz Santo Agostinho, não poderíamos dizer jamais que as Pessoas procedem da própria essência, com a qual são iguais. Assim, diz o argumento, a Pessoa do Filho não é diferente da essência do Pai. Assim, o argumento conclui que não poderíamos dizer que as pessoas procedentes surgem da essência divina.
O quarto argumento é fortemente ariano. Quer provar, por citações bíblicas, que o Filho e o Espírito Santo são criaturas, e portanto formadas a partir do nada, como todas as criaturas. Sobre o Filho, personificado como Sabedoria divina, cita o Livro do Eclesiástico, 24, 5: “saí da boca do Altíssimo como primogênita antes de todas as criaturas”. Ainda no Livro do Eclesiástico, 24, 14: “desde o princípio, antes de todos os séculos, fui criada”. Destas citações quer concluir que a Bíblia revela que o Filho é uma criatura, portanto criada a partir do nada. Quanto ao Espírito Santo, para provar que as Escrituras respaldam a ideia de que ele é também uma criatura, e portanto foi criado ex nihilo, o argumento cita Zacarias 12, 1: “Oráculo do Senhor, que estende os céus, que lança os alicerces da terra, que modela o espírito do homem no seu interior”, ou Amós 4, 13, “foi Deus quem fez as montanhas e criou o vento” (ruah, Espírito, é uma das traduções possíveis para esta passagem). Disso o argumento conclui que as pessoas procedentes são apenas criaturas, ainda que especialíssimas, e que, portanto, foram criadas ex nihilo. Não são consubstanciais com o Pai, é o que os argumentos querem dizer.
Por fim, o argumento sed contra recorre à autoridade de Santo Agostinho, que reafirma com vigor a consubstancialidade das Pessoas da Trindade, dizendo: “Deus Pai gerou, de sua natureza ingênita e sem princípio, o Filho igual a si mesmo”. Eis que o argumento conclui que o Filho foi gerado a partir da natureza divina do Pai.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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