No texto anterior, começamos a examinar a resposta sintetizadora de São Tomás. Ele, após explicar os dois sentidos em que se ppde afirmar que algo é conforme a uma vontade (o modo simultâneo, em que eu posso dizer que sou homem e gosto disso, e o modo causativo, em que minha vontade é causa da ação ou do produto que se segue, como o artesão quer fazer uma estátua igual a um modelo) São Tomás passa a explicar, então, a diferença entre aquilo que é produto da vontade e aquilo que segue a natureza.
As coisas, diz São Tomás, seguem o modo de sua causa. Quando a causa de alguma coisa é a sua natureza mesma, diz Tomás, precisamos lembrar que cada coisa tem a sua forma, a sua enteléquia, quer dizer, seu modo natural de ser por sua forma essencial mesma. Cada coisa, diz São Tomás, tem uma e apenas uma forma natural, que estabelece a coisa no ser. Quer dizer, este ser é, digamos, um cão, porque tem em si a forma substancial de cão, e está, por natureza, determinado a ser quadrúpede, mamífero, latir e ser domesticável.
As coisas que decorrem de uma vontade, porém, não têm esta rigidez de causalidade, porque a vontade é guiada pela inteligência, e a inteligência é capaz de assimilar muitas formas, pelo conhecimento. Assim, as coisas que são causadas pela vontade podem assumir diversas formas, conforme a inteligência do ser que as causa; assim, aquilo que é pela vontade pode ser de diversos modos, mas aquilo que é por natureza encaminha-se a um resultado só.
Assim, dizemos que aquilo que não pode ser de outra maneira é o que é por natureza, enquanto que aquilo que pode ser de diversas maneiras tem por origem a vontade.
E quanto a Deus? Deus é o que é, e portanto seria impensável imaginar que ele pudesse ser de outro modo. Não é imaginável que ele pudesse não ser trinitário, pprtanto. Ele não se fez trinitário, ele não virou Trindade, ele não escolheu ser Pai que gera, filho que espira, Espírito que procede. É assim que ele é, e é isso. Portanto, a analogia mais precisa consiste em dizer que Deus é a Trindade por natureza, e não por eleição. As criaturas são o que são por causa da livre eleição divina quanto à sua existência. Mas não é assim com a Trindade.
São Tomás nos alerta que este é um ponto importantíssimo na doutrina da Trindade. De fato, quando os hereges arianos quiseram defender que o Filho é uma criatura, e não o próprio Deus, afirmaram que a sua geração é resultado da vontade do Pai, não no sentido da vontade concomitante de aceitação e harmonia, mas de vontade causadora, produtiva, eletiva. Mas a fé católica sempre soube e ensinou que o Filho não é causado pela eleição volitiva do Pai, mas é gerado pela própria natureza divina.
É po isso, diz São Tomás, que Santo Hilário nos diz que todas as coisas recebem sua substância da vontade divina, mas é um nascimento perfeito que dá ao Filho uma natureza derivada da substância impassível e ingênita. As criaturas são tais como Deus as quis; mas o Filho, nascido de Deus, subsiste na perfeita identidade divina. Tal como é conveniente a Deus.
Estabelecidos os princípios na sua resposta sintetizadora, São Tomás passa a enfrentar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro cita Santo Hilário, que afirmou que o Pai gerou o Filho, mas não levado pela força de uma necessidade natural. O argumento entende que há, aí, uma prova de que a geração é um ato estritamente voluntário.
Em sua resposta, São Tomás explica que a citação de Hilário tem que ser compreendida no contexto em que foi proferida, isto é, como dirigindo-se àqueles que afirmavam que não havia nem sequer uma vontade concomitante do Pai na geração do Filho. Para estes, a geração do Filho seria análoga, em nós, ao envelhecimento ou a morte: algo que simplesmente aconteceria com, sem ou contra a vontade do respectivo sujeito. Santo Hilário dirige-se a estes, e a prova disso, diz São Tomás, é que Hilário completa seu pensamento afirmando que é incorreto dizer que o Pai teria gerado o Filho sem querer, ou como que coagido ou levado por uma necessidade natural. O argumento é verdadeiro, portanto, se for compreendido como uma reafirmação da vontade concomitante do Pai na geração do Filho.
O segundo argumento objetor cita Colossenses 1, 13, que relaciona a geração do Filho com o amor. Se o amor está no campo do voluntário, diz o argumento, então o Filho foi gerado voluntariamente pelo Pai, conclui.
São Tomás vai responder com muita simplicidade; ele explica que São Paulo, nesta passagem, chama Jesus Cristo de Filho muito amado de Deus não porque o Pai o gerou por deliberação amorosa, mas porque o ama por predileção superabundante.
Mas é ainda na linha da deliberação amorosa que vai o terceiro argumento objetor. O amor é escolha, é voluntário, aliás, diz o argumento, nada pode ser mais voluntário do que o amor. Mas se o Espírito Santo procede do Pai e do Filho por amor, então temos que admitir, diz o argumento, que ele tem como causa uma deliberação amorosa. Assim, o ato nocional da processão, conclui o argumento, é voluntário.
São Tomás nos lembrará, em sua resposta, que a vontade também é parte da natureza. Assim sendo, ela pode inclinar-se naturalmente para alguma coisa, amando-a; é o caso, na natureza humana, da inclinação para a felicidade. Trata-se de uma inclinação natural, um amor não eleito, mas espontâneo, da vontade humana pela felicidade. No caso de Deus, a vontade divina inclina-se naturalmente a si mesmo; e não poderia deixar de ser assim, pirque o amor é a inclinação para o bem, e Deus é, por natureza, o bem pleno e perfeito. Assim, naturalmente, Deus quer e ama a si mesmo, sem que isto signifique que o seu ser, a sua existência, o bem que ele é, sejam causados pela sua vontade, pelo seu amor. Quanto a si mesmo, Deus ama-se naturalmente por inclinação. Quanto a tudo o mais, porém, Deus é livre para escolher, e seu amor é causa da existência de tudo o que não é ele mesmo. Assim, o Espírito Santo procede do amor, ou seja, da vontade de Deus que se inclina a si mesmo, sem que, com isso, possamos imaginar que a sua processão não ocorra por natureza; do mesmo modo que não escolhe amar-se, Deus não escolhe que o Espírito Santo proceda ou não.
O quarto argumento afirma que o Filho é a Palavra de Deus; daí conclui que, se a palavra é livre expressão, ela procede voluntariamente daquele que a profere, e não por natureza.
São Tomás diz que a analogia da processão do Filho como Palavra, por um lado, e a palavra que se forma na inteligência humana no processo de conhecimento intelectual, por outro, deve ser aprofundado: mesmo em nós, diz ele, a intelecção dos primeiros princípios, como o princípio da identidade e da não contradição, é natural, já que eles são naturalmente inteligidos por nós como pressuposto de todo o conhecimento subsequente. De modo análogo, a intelecção que Deus faz de si mesmo é natural; ele não pode deixar de se conhecer. Neste sentido, conclui São Tomás, o Verbo divino é concebido de modo natural.
O quinto argumento objetor parte do contraste entre o que é voluntário e o que é necessário. Se Os atos nocionais não são voluntários, então eles se impõem a Deus como uma necessidade, o que seria, segundo Santo Agostinho, impensável – Deus não sofre imposições.
Mais uma vez São Tomás vai responder fazendo uma distinção: podemos falar naquilo que é 1) necessário por acidente, cuja imposição decorre de algo externo, ou per alliud (por outro), ou 2) necessário por si mesmo, ou essencialmente. Quanto ao que é necessário por outro, ou acidentalmente, iso pode decorrer de uma causa eficiente e necessitante, que impulsiona violentamente a coisa para um movimento não natural. Pensemos, aqui, num automóvel que atropela alguém em alta velocidade e arremessa a vítima a uma grande distância. Atingido pelo corpo veloz e pesado, a vítima desloca-se necessariamente na direção em que foi impulsionada. Ou, num segundo caso, pensemos na causa final; aquilo que conduz a ela é necessário para que ela seja atingida. Assim, se parto numa viagem com destino, digamos, ao Rio de Janeiro, tenho que tomar necessariamente a rodovia que leva ao Rio de Janeiro. Se eu tomar a rodovia que leva a Manaus jamais chegarei ao Rio de Janeiro. É necessário, portanto, tomar o meio adequado para atingir aquele fim específico.
Mas nenhuma destas duas hipóteses aplica-se a Deus. Nem Deus pode sofrer violência por parte de uma causa eficiente externa, nem ele existe para algum fim, já que é pleno, absoluto e, portanto, imóvel. Então, com relação a esta noção de necessidade acidental, ou por outro, ela não se aplica a Deus.
A outra noção de necessidade é essencial, ou em si mesma, e se refere àquilo que não pode deixar de existir exatamente como é. É desta necessidade que falamos, com relação à Trindade. Deus não somente não pode não existir, como não pode não ser trinitário. Este é o próprio ser de Deus. Sabemo-lo por revelação, e não teríamos como saber de outro modo. Mas, uma vez que o sabemos, tanto a profundidade da revelação quanto a sua maravilhosa razoabilidade demonstram que Deus é Trinitário e não pode não sê-lo.
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