Deus é trinitário. Será que ele é assim por natureza, ou será que ele escolheu ser assim? Deus escolheu ser como é, ou ele simplesmente é como é? Neste caso, ele não é livre para ser como quiser ser? E, caso ele seja como quer ser, será que ele era diferente em algum momento, e depois escolheu ser três? Como poderia haver alguma necessidade, alguma predeterminação, ali na própria natureza divina?
A discussão aqui é, portanto, muito importante. E começa com uma hipótese controvertida bem forte e estimulante: parece que os atos nocionais são voluntários; quer dizer, parece que o Pai gera porque escolheu gerar, eles espiram porque escolheram espirar e assim por diante. São cinco os argumentos objetores iniciais.
O primeiro é uma citação de Santo Hilário, que afirmou que o Pai gerou o Filho, mas não levado pela força de uma necessidade natural, ou seja, como que coagido. Disso o argumento conclui que os atos nocionais são estritamente voluntários.
O segundo argumento objetor é bíblico. Cita Colossenses 1, 13, que reza que Deus “nos introduziu no Reino de seu Filho muito amado”. Ora, diz o argumento, o amor está no campo do voluntário, não do necessário. Assim, o argumento conclui que é por vontade, por escolha, não por alguma necessidade natural, que o Pai gera o Filho e assim por diante.
Vai na mesma linha o terceiro argumento objetor, mas referindo-se especificamente ao Espírito Santo. Se nada pode ser mais voluntário do que o amor, no sentido de que o amor empenha integralmente a vontade, e se o Espírito Santo procede do Pai e do Filho como Amor, então é forçoso reconhecer que ele procede voluntariamente.
O quarto argumento lembra que quem diz alguma palavra, fala voluntariamente. Ora, diz o argumento, o Filho procede do Pai intelectualmente, como Palavra. Se é como Palavra, então ele é pronunciado de modo voluntário. Então, conclui, é voluntariamente que o Filho procede.
O quinto argumento objetor contrasta o voluntário com o necessário. Tudo o que não é voluntário, diz o argumento, é necessário, e portanto não sujeito a eleição ou consentimento, mas acontece forçosamente, independentemente do querer do sujeito. Ora, diz o argumento, se admitíssemos que o Pai gerou o Filho por necessidade, e não por vontade, dizemos então que a geração do Verbo foi algo que se impôs ao Pai independentemente de sua vontade, o que seria, segundo o argumento, absurdo. Assim, conclui que é por vontade que se dão os atos nocionais.
Como argumento sed contra, cita-se a autoridade de Santo Agostinho, que afirma que não é por vontade, nem por necessidade, que o Pai gera o Filho. Esse argumento, veremos, será devidamente matizado por São Tomás em sua resposta sintetizadora, que passamos a ver.
O que significa dizer que algo voluntariamente existe, ou que fazemos algo voluntariamente, diz São Tomás, essa afirmação pode ter dois sentidos. O primeiro sentido é aquele que denota concordância, aceitação, harmonia; ele dá, então, através da preposição “por”, a ideia de concomitância entre algo que é e algo que se quer. É neste sentido, diz São Tomás, que alguém pode dizer que é homem por sua vontade. É neste sentido também que a língua espanhola usa, como declaração de amor, a expressão “te quiero”. Assim, neste sentido, podemos afirmar que Deus está em profunda harmonia consigo mesmo, e que ele quer ser tudo aquilo que ele é. Podemos dizer também, com atenção a esta denotação da vontade, que Deus quer ser Deus, que o Pai quer gerar o Filho e ambos querem espirar a Terceira Pessoa, o Espírito Santo.
O outro sentido para a expressão “por vontade” é aquela que relaciona a vontade com o produto da vontade, numa relação de produção. Quando o artífice produz, o resultado do seu fazer é fruto mesmo de sua vontade. Assim, podemos dizer que as criaturas resultaram da vontade criadora de Deus, mas não podemos dizer que o Filho resultou da vontade do Pai, porque o Filho não é um produto, não é uma criatura, mas é o próprio Deus em sua estrutura imanente de amor. E São Tomás cita aqui um cânon do Sínodo Sirmiense, expedido exatamente em razão do erro ariano (que não conseguia distinguir entre o Filho e as criaturas): Se alguém disser, que o Filho foi feito pela vontade de Deus, como qualquer das criaturas, seja anátema.
São Tomás passa a explicar, então, a diferença entre aquilo que é produto da vontade e aquilo que segue a natureza. Veremos no próximo texto.
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